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A loucura entre nós

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Quais os limites da nossa sanidade? O que nos define como normais? “A loucura entre nós” lança um olhar sobre os corredores e grades de um hospital psiquiátrico, buscando personagens e histórias que revelem as fronteiras do que é considerado loucura. Através, principalmente, de personagens femininas, o documentário de Fernanda Vereilles exala as contradições da razão, nos fazendo refletir nossos próprios conflitos, desejos e erros.

Porquê escolhestes este tema? Porquê falar de uma instituição mental na Bahia?
Fernanda Vareilles: Na verdade eu fui apresentada ao livro de Marcelo Veras, um psicanalista de Salvador. Ele escreveu um livro sobre a experiência dele como director de um hospital Juliano Moreira Eu li esse livro que me falou, fiz uma sugestão para visitar o hospital e estive aí. Fui lá pela primeira vez e falei com algumas pessoas e vi que tinha material muito rico para se fazer um documentário. A ideia surgiu depois de bastante conversa com o director e a partir daí começámos a rodar a película.

No documentário lentamente começam a surgir duas pessoas, duas mulheres que de facto fazem parte da narração e que tu acompanhas ao longo do seu processo de entrada na instituição, pelo menos de uma delas. Esssa escolha aconteceu naturalmente?
FV: Sim, eu comecei a frequentar a instituição, fomos com uma equipe bem reduzida e começámos a nos integrar no Criamundo, que é do grupo que falo no hospital. Toda a equipe fazia artesanato com eles, às vezes desligavam os equipamentos e partiam para as suas actividades, foi uma espécie de teste para a gente poder criar essa intimidade com a câmara. A ligação da Rosângela e da Leonor foi construída nesse processo, eu também criei ligações com outras pessoas do Criamundo que eu filmei, mas na rodagem final a gente já só filmava elas duas. Nós fizemos entrevistas com muitos dos pacientes, a gente tem 250 horas de filme para transformá-las em 76 minutos de documentário. Com elas as duas a gente foi criando essa intimidade, houve uma transferência entre eu e elas e daí e elas foram escolhidas como as personagens príncipais, mas não foi uma ideia inicial fazer um documentário sobre elas, foi construído realmente na montagem.

Quais foram os principais desafios ao filmar dentro de uma instituição como aquela?
FV: Bom, foi um processo um pouco burocrático.Desde conseguir a autorização para entrar no hospital, a gente teve apoio todo do director que na época deu apoio para esse mergulho de todos os níveis com as pessoas que trabalham lá, foi uma conquista diária da nossa equipe, da produção, porque filmar num hospital psiquiátrico é uma ideia bem louca. Eles tinham uma psicóloga que perguntava, porquê eu escolhia para entrevistar aquela pessoa e não a outra? Porquê aquela pessoa tem tudo e você esta interessada num certo personagem? São também questões que você se coloca. Entre as dificuldades próprias de se fazer cinema, como conseguir autorização, como obter verba, como conseguir captação para estar lá até como se processa o briefing do director, todo esse processo é difícil e moroso, mas vale bem a pena, porque o prazer de fazer cinema e poder emocionar as pessoas é bem legal e prazeroso.

Referiste que tiveste de pedir autorizações, os directores exigiram-te algo enquanto filmavas os pacientes?
FV: Eles tentaram entender primeiro o meu propósito, eu não queria fazer um documentário sensacionalista, mas um que fala-se sobre a subjectividade daquele mundo e tudo foi mais uma questão de confiança, conseguir que eles entendem-se o meu trabalho, o que eu queria fazer e as minhas intuições. Eles viram os meu trabalho anterior e depois de obter essa confiança, a partir daí, não houve mesmo exigências, mas a gente também pediu autorização para todas as pessoas que estão no filme, era necessário para filmar.

Achas que por seres mulher foi mais fácil ou não?
FV: Na verdade eu estava bem interessada em outros personagens, em Israel que esta no filme, eu adoro ele, mas aí ele passou por umas questões pessoais. Eu não sei se não fosse mulher seria diferente, seria um outro filme feito por uma outra pessoa, homem ou mulher, mas não consigo identificar isso, se existe uma questão de género realmente. Eu tinha uma produtora que era mulher e outras pessoas que eram homens, mas sinceramente não sei responder essa pergunta.

Quando mostraste o filme pela primeira vez foi no Brasil.
FV: A gente mostrou alguns enxertos aqui, em França. A estreia mundial foi em Curitiba.

Qual foi o feeback no Brasil ao teu documentário?
FV: Foi bem positivo, ele teve no cinema em algumas salas. Eu fiquei bem contente com a reação das pessoas principalmente da área de psicologia que se interessam do tema da loucura e da psicánalise. É um filme que pode servir muito de base para esse tema que tem de ser discutido, porque é bem importante. Mas, eu estou contente com a crítica que foi feita que foi bem positiva.

Por outro lado, com este documentário expuseste um sistema de saúde mental com muitas fragilidades, que não é muito apoiado pelo governo brasileiro ou é?
VF: Eu não fiz o documentário nesse sentido. É um sistema que não passa pelos partidos políticos, acho que é uma coisa muito mais forte no Brasil que é saúde mental. Eu sei que retrata um sistema de saúde precário, mas o objectivo dele não era fazer uma denúnica, mas sim, mostrar as fragilidades dos personagens, o mundo em que eles vivem e essa realidade, no hospital que frequentei, eu encontrei pessoas muito engajadas com essa causa.

Quando começaste a filmar tinhas noção do que era ter doenças mentais e quando terminaste o documentário o teu conceito mudou?
FV: Eu tinha uma ideia bastante ingénua. Eu tinha uma noção bastante superficial como todo o mundo conhece sobre a doença mental. A primeira vez que entrei no hospital eu fiquei intimidada com aquela loucura toda e uma certa liberdade. Aos poucos o documentário vai mostrando a complexidade do que é esse tema. Como filmei durante quatro anos esse tema e entrei na vida dessas pessoas, isso me permitiu aprofundar e conhecer melhor aquele mundo, durante o filme eu toquei a doença e eu perguntei para eles sobre a doença, mas isso não me interessava, eu pretendia era mostrar como eles me conseguiam ver apesar de ter aquele sofrimento psiquíco e como eles conseguiam lidar com isso, nas diferentes épocas da sua vida, entre a loucura e a humanidade.

Uma das tuas personagens acabou por suicidar-se no final. Que impacto é que isso teve?
FV: A gente lembrou que ela já tinha tido muitos encontros com a morte, teve várias tentativas de suícidio e viveu sempre tentando evitar isso, mas era algo muito presente na vida dela. Essa questão da morte me emocionou, para mim foi um momento difícil na minha vida. Quanto ao impacto que teve no filme, eu dedici terminar o filme aí, se calhar teria continuado a filmar, porque a decisão de terminar a filmagem ainda não tinha sido tomada. A morte dela não me influenciou, eu prefiro acreditar que não, eu acho que o últimos anos dela, pelo depoimentos das pessoas próximas dela me disseram, ela se apegou um pouco àquela filmagem, mas a verdade do que aconteceu ninguém sabe.

Mudando de assunto, tu vives em Paris e agora estas a preparar outro documentário ou filme?
FV: Eu estou com três projectos. Um no Brasil, outro na França sobre a crise de identidade francesa e uma ficção que estão andamento.

É mais fácil fazer cinema fora ou dentro do Brasil, não tendo em conta o financiamento?
FV: Depende. No Brasil há pessoas bastante abertas a ideias, já trabalhei fora do país, sobre o conflito israelo-palestiniano sobre as pessoas que viviam ao redor do muro, mas depende. Eu acho que no Brasil, não sei como vai ser daqui para a frente, tem havido um movimento muito dinâmico em termos de cinema, muita coisa a ser produzida, com verbas para você filmar.

E o público brasileiro gosta de ir ao cinema ver documentários?
FV: Isso é uma coisa que se esta implementando aos poucos, o filme nacional não é tradição, mas eu acredito que com o tempo a gente vai implementar a nossa cultura cinematográfica, isso vai acontecer, mas ainda é um processo que se esta iniciando, porque ainda não tem muito público.

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