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A paraficcionadora

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Salomé Lamas é uma cineasta portuguesa que explora os limites do documentário, no que apelida de paraficção, em que aborda uma parte do real, sob um ponto de vista criativo e onde ainda há espaço para à imaginação.

Tu escreveste os documentários como forma de expressão cinematográfica, porquê?
Salomé Lamas: Hoje em dia a questão documentário/ficção é interessante no âmbito mais académico, existem filmes que são mais permeáveis aos dois formatos, são os chamados híbridos, que não se posicionam nem num lado, nem noutro. Se calhar o trabalho que eu faço dentro do cinema de não ficção, não é o tipo de trabalho mais convencional. Agora, são filmes que se debruçam sobre o real e é a partir disso e como o traduzimos para o espectador que me interessa.

Acho curioso que refiras esse aspecto, porque considero que fazes algo de diferente em termos de narrativa e a forma como filmas os planos, “terra de ninguém” de 2013 é um bom exemplo, onde focas a vida de um indivíduo, é isso que consideras híbrido, porque é fora do habitual mesmo tratando-se de cinema real?
SL: Não, tem às vezes a ver com a incorporação de elementos ficcionais no que se vai “beber” ao real, no fundo a permeabilidade de formatos. Interessa-me, por exemplo, as questões que andam à volta do limite do próprio documentário. Esses limites são interessantes para serem questionados, então se quisermos estámos a falar de uma palavra a que tenho algum carinho que é a paraficcão, tem a ver com criar documentários alicerçados sobre a realidade e o espectador acredita e há uma autoridade intrínseca ao filme porque que é baseado em factos, é quase uma reportagem, mas depois existe uma componente quase literária onde a imaginação tem o seu lugar.

Então qual dos teus trabalhos é que mostra mais essa dimensão de paraficção?
SL: A abordagem é sempre a mesma, eu circunscrevo-me à realidade, seja por um período de tempo, seja geograficamente. Depois como é que vou tratar dessa realidade e apresentá-la? Esse processo de tradução é também sempre criativo. Hoje em dia, o objectivo, ou o real pode ser permutável, ou há um efeito de espelho da realidade e um produto final que quase ninguém acredita que possa existir, no fundo vivemos num mundo de fazer acreditar e tem a ver com essas questões.

Dizem que fazes parte do cinema alternativo português, reves-te nessa categoria?
SL: Não sei, (risos) são as categorias que os outros colocam. Não me cabe a mim rotular-me. No fundo o cinema que eu faço tem uma família junto de outros realizadores lá fora e mesmo no panorama português.

Porquê não encontraste um nicho aqui? É preciso sair do país?
SL: O cinema que eu faço é de circuito de festivais, que procura um espectador activo, às vezes tem a permeabilidade de ser apresentado no espaço do museu. É um trabalho que tem uma distribuição limitada, portanto, nem formato de televisão, nem tanto nas salas de cinema. Sinceramente os canais de distribuição do cinema que eu faço são limitados, tem a ver com muitos factores que não apenas com o trabalho que desenvolvo, tem a ver com o mercado em termos de Portugal, com a falta de salas de cinemas no nosso país e com o público português.

Então quem é o público do teu cinema? É o que vai aos museus?
SL: Não faço ideia. (risos) Acho que é diverso, com todo o tipo de pessoas. Já mostrei filmes para senhoras de 60 anos, é um esprecto muito amplo.

E o que dizem sobre o teu trabalho?
SL: Dizem que os documentários são viáveis. Eu não separo o público em nichos, essa é uma questão muito abstracta, saber para quem trabalho. Os meus filmes são para serem vistos, é para isso que os filmo, não o faço para um determinado público-alvo, embora haja muito essa questão hoje em dia, para mim existe só o público.

Estas a meio de um projecto?
SL: Eu tenho vários projectos em curso, estou a meio de uma longa-metragem que foi filmada no Peru, chamada “el dorado”, com a produtora “o som da fúria”, estou a rodar um filme chamado “extinção na transnistia” que é um enclave pró-russo na Moldávia e que vai ser filmado também na Rómenia, Bulgária, Alemanha e Portugal, trata-se de um filme que acaba por questionar, ou comentar de uma forma abstracta o problema das fronteiras na Europa de Leste, no fundo o que aconteceu depois da queda da ex-URSS, é um filme que espero que esteja pronto já este ano. Tenho uma curta-metragem de ficção para rodar no próximo verão e depois tenho projectos mais pequenos, um deles dividido entre Portugal, Beirute e Dubai. Estou também a preparar numa exposição de artes visuais em Lisboa, apresentarei projectos inéditos, em principio de Junho deste ano.

“El dorado” é sobre quê?
SL: É passado na cidade mais alta do mundo, a cinco mil metros de altitude e é um filme que acaba por retratar uma comunidade de indivíduos que trabalham unicamente nessa localidade, porque existem uma série de minas de ouro onde trabalham durante trinta dias sem salário fixo e depois no dia 31 podem ir a mina e o que encontrarem é deles, é um processo de lotaria. É também sobre como toda a cidade mineira acarreta, uma série de questões intrínsicas ao próprio local.

É por isso que os temas do teus documentários são sempre pessoas, ou grupos de pessoas que estão fora da sociedade?
SL: São situações marginais.

É propositado ou não?
SL: É na medida em que são sujeitos que não tem voz. Realidades por vezes desconhecidas e mais uma vez tem a ver com essa ideia de limite, com procurar explorar essa questão quer seja em termos geográficos, ou quase físicos. No fundo são locais remotos, há uma falta de controlo, são quase violentos e hostis e tem a ver com a forma como me posiciono perante essas realidades. Existe uma fricção, um confronto em deslocar-me para esses territórios, sou um corpo estranho nessas realidades e há esse embate nessa espera de ocupar o lugar e surge então a oportunidade de fazer um documentário, tem a ver com o meu processo de fazer filmes.

Como é que olham para ti? Tens uma figura frágil e és uma mulher, não pesa?
SL: Por vezes acaba por ser uma vantagem, é complicado dizer. Eu tenho essa figura frágil e pequenina.

Sim e és estrangeira.
SL: Exacto. Tem a ver com esse processo de espera, em que tentas “ganhar” a confiança, mas outro lado, vou ser sempre estrangeira.

Fazes uma preparação antes de filmar?
SL: Não, porque parto do princípio que fazer documentários não é um acto “bonito”. É um trabalho que acarreta uma série questões éticas e morais, onde há também uma relação de poder sobre o objecto que esta a ser filmado. Agora, há fórmulas para encontrar um equilíbrio, mas em última instância é sempre o realizador que controla o produto final, porque estámos a tornar assuntos privados em públicos e esse acto não se faz de ânimo leve, porque acarreta uma responsabilidade. Ligada a essa questão esta também a certeza que é apresentar-me, é muito mais honesto. O filme é uma transação em que quem esta a ser filmado dá algo, eu recebo, mas também dou algo em troca e a pessoa também recebe algo. Trata-se de um pacto que tem de ser muito claro desde o início, não vou estar a criar uma ligação com uma pessoa, não é fingir, mas para mim a distância é essencial, se ficámos amigos e se construímos uma relação, isso é depois. Eu estou a fazer um filme e isso acarreta uma série de questões, é a forma mais limpa de o fazer, mas acima de tudo interessa-me esse primeiro embate.

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