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A visão da rita

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Rita Azevedo Gomes tem uma longa carreira no cinema, embora tenha realizado e produzido poucos filmes. A vingança de uma mulher, seu mais recente trabalho, foi uma desculpa perfeita para falar sobre ideias, filmes e o cinema no nosso país.

A ideia de adaptar “a vingança de uma mulher” surgiu como? Onde descobriu a história?

Rita Azevedo Gomes: Este texto é um de Barbey D’Aurevilly que esta inserido num livro que é os “Les diaboliques” .  É um conto que li há muitos anos e pensei que filme extraordinário seria. Foi difícil para mim própria adapta-lo, porque o texto é espantoso, não queria de maneira não nenhuma fugir dele e pretendia conservar a escrita do autor. A adaptação para cinema passava de alguma forma por fazer a representação de uma era, embora não fosse um filme de época. Há factos é certo que direccionam nesse sentido, mas não uma vontade minha, podia rever-me no máximo através do imaginário. Eu achei que era um bom ponto de partida fazer uma simulação, daí a ideia do estúdio, porque representa uma mascara, há todo um artifício que serve para compor uma verdade. Houve depois várias tentativas para arranjar condições para filmar.

Escreveu o roteiro do filme naquela altura, ou só recentemente?

RAG: Eu na altura escrevi o argumento e concorri várias vezes a subsídios, não sei quantas vezes, tentei arranjar condições financeiras para arrancar com a produção, porque eu não podia avançar para este filme sem meios, como muitas vezes o fiz, requeria um trabalho de actores prolongado. Eu não podia pedir-lhes que estivessem comigo semanas a fio a trabalhar, porque as pessoas não tem vidas próprias para isso. Depois requeria o estúdio, porque sempre tive essa ideia desde o princípio. Portanto, foi sendo adiado com a hipótese de sempre se fazer até que se reunirem as condições mínimas e fomos avançando. Eu obviamente ia revendo o guião.

Era essencial para o projecto tantas semanas de ensaios antes de filmar? Há uma componente muito teatral?

RAG: Na minha cabeça era. Pode dizer-se que há uma componente teatral, toda a gente diz isso, mas não é uma peça de teatro, nem nunca o autor o escreveu como tal. O que acontece? Eu trabalhei muito o texto com os actores, em particular a Rita Durão. Estes primeiros ensaios foram numa sala, toda esta preparação foi sedimentando algumas ideias, descobri outras que passaram para o filme através das marcações dos actores em cena. Há todo um trabalho digamos semelhante ao que se faz com um actor de teatro, porque não é uma peça encenada, não é com todos os actores, há pessoas quem nem sequer são profissionais também neste filme. Só depois aparece o Fernando Rodrigues que faz de Roberto e com quem nunca tinha trabalhado e gostei imenso, chegou na última da hora e entrou na pele da personagem da melhor maneira possível. Mas, sim há um trabalho diferente quando se tem um actor em frente, porque quando passa para o filme a técnica é outra. Suponho que num teatro há toda uma escola de movimento, gestos e projecção de voz que nada tem a ver com cinema. São vários factores em jogo que vamos procurando, mas foi muito bom em termos de trabalho prévio de preparação e quem dera que fosse mais e então sobretudo, durante a rodagem porque vamos apurando a técnica indefinidamente. O texto é riquíssimo e sugestivo. Os actores trazem, e que não estamos á espera, outros olhares, outras leituras, depois temos os elementos cénicos, do décor, do guarda-roupa e finalmente a banda sonora que de certa forma, permite acrescentar som aqui ou ali e tudo é construído a parte da voz do actor que é gravada em directo.

Quando focava a questão da teatralidade referia-me aos planos estáticos.

RAG: Eu tenho planos longos, mas neste filme por acaso alguns têm estão em grande movimento. É um filme lento. A câmara anda e está dentro daquilo tudo. Não é como num teatro, em que há uma caixa com profundidade em que o espectador escolhe para onde quer olhar. No cinema há uma câmara que vai mostrar o que se pretende, pode ser perto, afastado, é um ponto de vista diferente.

Afastou-se para outras áreas do cinema em vez…

RAG: Não, isso está escrito assim, mas não é verdade. Eu não deixei a escrita, o que eu não tinha era subsídios para filmar. Havia projectos que queria fazer, mas não tinha verbas para os produzir. Eram filmes que conseguia faze-los sem produção e aconteceram como é o caso do “frágil”, que é um dos grandes filmes que fiz e mesmo o altar.

Vamos falar do frágil, foi filmado a preto e branco porquê?

RAG: A preto branco e cores. Não posso fazer um filme a preto e branco, porque não posso ter um negativo a bicromático e outro a cores. É um filme todo a cores, só que há partes em que existe uma bicromia. Pretendia passar uma atmosfera que passava pelo preto e branco.

Escolheu essa dicotomia de cores para realçar os sentimentos dos personagens ou o cenário que os envolvia?

RAG: Eu acho que especificamente no caso do frágil era muito conveniente. A ideia surgiu através de uma notícia de jornal, que se não me engano saiu no “Capital”, era uma fotografia que ocupava a página toda com uma paisagem no Alentejo, em que havia um sobreiro e focava um jovem casal, de apenas quatorze anos, que tinham sido encontrados mortos junto do tronco daquela árvore. Aquilo chamou-me à atenção, porque os pais não percebiam os motivos, eram ambos bons alunos, não tinham problemas de drogas, ou adaptação social, tudo estava bem na véspera, nunca lhes viram sintomas e no entanto mataram-se. Eu acho que num filme tudo o que se vê, a imagem que se faz, tem de ter uma razão de lá estar, senão suprimisse. Às vezes não sabemos muito bem em certos filmes, porque aparece determinada cor em detrimento de outra, porque todas elas tem um significado. Quando se vê o “frágil” há uma passagem mais temporal, para outra mais real e concreta que está nessa bicromia.

O som da terra a tremer foi outro dos filmes que produziu. Fale-nos um pouco sobre ele.

RAG: Consegui obter o apoio mínimo do Instituto de Cinema e Audiovisuais (ICA) e tive uma ajuda da RTP através do Fernão Lopes que já era alguma coisa. Foi feito com uma verba muito escassa. Na altura andava a ler o André Gidet, o “Paludes” do qual me senti muito próxima e “o som da terra a tremer” foi elaborado durante tanto tempo, porque escrevi, reescrevi, deitei fora e voltava a triturar o texto que colou-se a mim, agarrava-se. Acabou por ser uma serie de coisas que tinham passado, demorou sete anos a ser produzido, e foi engraçado porque se tornou numa coisa imensa, que tive de retirar, limpar e tirar antes de filmar.

Mudando um pouco de assunto, fale-me da realidade de uma cineasta em Portugal?

RAG: Não é fácil, eu às vezes não sei, há um estar das coisas, seja mulher, homem ou viva fora de Portugal, em que esta tudo ligado aos números. É uma ilusão de uma economia, que minimiza muito certas manifestações artísticas, seja cinema, música ou o que for. Estamos numa era em o que conta é a palavra, há um Nobel para a literatura, não há para o cinema, teatro. A coisa digna e ilustre é a literatura. Eu acho que na conjuntura actual é necessária muita tenacidade para a pessoa não morrer de desilusão, cansaço e optar por outras vidas. Eu podia ter feito outras coisas na vida, mas por qualquer razão eu escolhi o cinema, eu gosto muito de cinema, é tudo isto que me estabelece. Às vezes no filmar, eu sinto que é este o meu lugar no mundo.

Teve esse sentimento neste filme mais recente?

RAG: Sim, houve momentos e não quer dizer que seja só na rodagem. Há qualquer coisa, não sei, que justifique o resto.

Alguém que tem acompanhado o cinema português de diversas formas, como é que olha para ele actualmente? Acha que há uma evolução?

RAG: Não sei se está perguntar para cima ou para baixo, mas uma evolução existe sempre. Eu infelizmente nestes últimos tempos não tenho acompanhado por força das circunstâncias esse movimento, mas noto que volto e meia aparecem filmes bons de se ver. Depois há também, uma reacção ao passado do cinema português do tipo morte ao rei e querem por um rei novo. Eu não acho isso, não estaríamos aqui se não tivessem havido outras pessoas antes de nós. Eu não sinto muito envolvida num grupo que faz cinema, não me acontece assim, porque eu tento sempre produzi-los mesmo sem dinheiro. Porque se há interregnios o que acontece? Quando alguém faz um filme e começa a sentir punho para ir para frente, acabou. Depois, se passado muito tempo não fizer mais, fica sem ginástica nenhuma. Como as cantoras, posso ter uma voz extraordinária, senão estudo, não desaprendo tudo, mas necessita dessa prática.

Qual foi então filme português que viu recentemente e que mais a marcou?

RAG: Pronto, como tem a mania de dizer que sou Oliveiriana, eu digo que ainda bem, antes ser isso, porque gosto do Manuel de Oliveira, não só como pessoa, mas como cineasta. O último filme em que eu disse a mim própria o que é isto, foi nas “singularidades de uma rapariga loura”. É um filme extraordinário, por mais que se conheça e se veja, há sempre um pormenor novo. Eu gosto de ser surpreendida no cinema.

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