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Azeitonas à portuguesa

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Luis Campos é um jovem cineasta que co-produziu com outros quatro colegas, uma curta-metragem premiada, o “Azeitona” que foi o mote da nossa conversa sobre filmes, cinema e o inconfundível Manuel de Oliveira.

“Azeitona” foi um ideia que surgiu a partir de uma experiência pessoal ou não?
Luís Campos- O “Azeitona” é um filme de quatro pessoas, a Ana Almeida, o Humberto Rocha, João Gazua e eu, que têm em comum o facto de todos termos estudado cinema na Covilhã. Logo, a personagem da Olívia tem muito das nossas experiências pessoais relacionadas com esse facto, alguns dos decors, situações, actores ou mesmo personagens do filme dizem respeito a essa nossa experiência comum.

É a tua homenagem pessoal ao trabalho de Manuel Oliveira foi esse o mote da curta-metragem?

LC: Foi um desafio lançado pelo corpo docente do curso de cinema na UBI (Universidade da Beira Interior), para o nosso projecto final de Mestrado, todos os alunos teriam de fazer um filme relacionado com Manoel de Oliveira, que celebrava o seu centenário nesse ano, com total liberdade de abordagem. Nós os quatro soubemos desde logo que queríamos prestar homenagem à pessoa, à singular personalidade de Manoel de Oliveira, uma vez que mantemos um sentimento muito especial, de reconhecimento e de admiração, perante a obra e vida de Manoel de Oliveira. Embora o filme não pareça à partida uma homenagem e a narrativa do filme ir muito de encontro aquelas que eram as nossas principais influências na altura, filmes desde "Juno" a "O Fabuloso Destino de Amélie", que é um tipo de cinema contraditório ao cinema de Manoel de Oliveira , criar o "Azeitona" foi uma forma de perpetuar esse sentimento.

Usaste algumas das famosas técnicas de filmagem, os planos estáticos, do cineasta português?

LC: Curiosamente, o plano fixo mais “longo” que utilizámos em "Azeitona", dotado de força icónica e semiótica ao melhor estilo do cinema de Oliveira é quando Olívia sai de casa e se senta no muro em frente ao Quinto Império, a tasca do senhorio Manoel, com uma porta fechada e outra aberta do seu lado foi comentado por muitos espectadores como demasiado longo e ineficaz no desenvolvimento da narrativa. Isso pode servir como uma espécie de reflexo a como a maioria da população interpreta o cinema de Manoel de Oliveira. Podemos dizer que o filme de Manoel de Oliveira que mais influenciou "Azeitona", pelo menos, em termos de tom ou recurso de linguagem cinematográfica, foi o "Aniki Bóbó". Há várias referências ao seu cinema ao longo do Azeitona, mas focámo-nos essencialmente na constatação de como a população geral reage perante a filmográfia de Manoel de Oliveira e perante o cinema em geral, num meio pequeno como a Covilhã. Essa relação do povo com o cinema de Manoel de Oliveira é uma personagem com vida própria em "Azeitona" e o seu arco narrativo sustenta-se muito na forma em como esse conflito vai da superficialidade ao entendimento e reconhecimento colectivo.

Curiosamente o filme foca um determinado local do pais, onde acontece toda a acção, mas decidiste não incluir planos paisagísticos, porquê a história era mais importante?

LC: Criámos um guião com mais de 30 páginas e sabíamos que isso corresponde a cerca de 1/3 de uma longa-metragem. Tínhamos cinco dias para rodar o filme, com a presença na Covilhã dos actores que aceitaram o nosso desafio e tivemos de tomar algumas decisões em relação ao pleno aproveitamento desse tempo. Nesse sentido, sim. O nosso foco era essencialmente em conseguir que a narrativa funcionasse de acordo com a visão inicial. Temos uma sequência na Serra da Estrela, em que conseguimos incluir alguns planos gerais com a paisagem da Cova da Beira, e uma outra sequência de Olívia a caminhar pelas ruas da Covilhã, que revela um pouco da arquitectura e da história do local. Mas sempre considerámos que Azeitona seria um filme de narrativa, com recurso a muitos diálogos e muitas posições de câmera, em contraste com a maioria do cinema de Oliveira. Mas que, na sua contradição, se acabasse por complementar com a obra de Oliveira. O cinema é universal, tem infinitas possibilidades. Fizemos questão de entregar um exemplar a Manoel de Oliveira. Não sabemos se alguma vez ele chegou a assisti-lo, ou qual a sua opinião perante "Azeitona", mas o filme é essencialmente dele, foi feito para ele. Foi a forma que encontrámos para, ao nosso estilo, lhe agradecer pelo incrível legado que deixou.

Das quatro curtas-metragens que produziste, podes dizer-me qual é a tua preferida e porquê?

LC: Tenho um sentimento de orgulho muito grande por "Azeitona", que teve um propósito muito honesto, um trajecto muito interessante, coleccionando muitos prémios em festivais, e que continua a conquistar espectadores após todos estes anos, foi feito em 2008, a sua própria concretização foi extremamente difícil em termos de tempo, contratempos surgidos e orçamento disponível; logo por isso é um sentimento incrível de missão cumprida que deixa muito orgulho. Tenho uma enorme nostalgia por "Horizonte", que foi o primeiro. Tínhamos uma equipa maravilhosa, que gostaria que me acompanhasse em qualquer outra produção que eu possa vir a fazer no futuro. A experiência de rodagem desse filme foi muito enriquecedora, em termos de aprendizagem pessoal e de fortalecimento de laços de amizade. "Coisa Hindu" foi um exercício de fim-de-semana muito divertido. Guardo boas memórias. Mas continuo a ter a opinião que "Chasin’ The Bird" foi a curta-metragem mais valiosa, do ponto de vista de recurso da linguagem cinematográfica, e mais madura que fizemos. De todas as nossas curtas, essa é a que explora mais a função visual de realização, o uso da câmara com subtexto, a construção artística de um ambiente, de um tom, a narrativa codificada que exige uma interacção mais esforçada do espectador, a conjugação de vários elementos semióticos que dão outra profundidade ao filme. Não é um filme tão eficaz como o "Azeitona", na relação com o público em geral, mas é um filme que considero muito valioso. É uma interessante guloseima para cinéfilos, se é que posso dizer algo deste género. Posso também considerar que se "Azeitona" está mais directamente ligado ao meu coração, "Chasin’ The Bird" está mais próximo da minha mente, enquanto ser criativo.

Em que medida os prémios atribuídos em festivais podem catapultar uma possível carreira como realizador?

LC: São fundamentais. Porque permitem difusão, reconhecimento e vão ajudando a construir aquilo que um chamo de “pedigree” do autor. Quanto maior prestígio tiver o festival, mais possibilidades de lançamento de carreira se proporcionam. Porque o sistema de financiamento público de apoio ao cinema funciona muito com base no CV do proponente, logo é fundamental nessa perspectiva de carreira de produção, na Europa, que é totalmente dependente dos fundos de apoio estatais, ou nacionais, que o proponente vá “amealhando” prémios importantes. Felizmente à criação Portuguesa tem estado em óptima forma nesse aspecto tem havido muito reconhecimento internacional do cinema Português e em especial dos novos autores Portugueses, o que proporciona o vislumbre de um futuro risonho na afirmação do novo cinema Português pelo mundo.

Como olhas para o futuro do cinema tendo em conta o aparecimento da internet?
LC: É cada vez mais difícil conseguir fazer chegar um filme às salas de cinema, que são cada vez mais dominadas pelas grandes franquias internacionais, mas em paradigma é cada vez mais fácil de fazer filmes. Em termos técnicos e de equipamento cinematográfico disponível no mercado é hoje muito mais fácil de ter acesso a meios profissionais que permitam fazer coisas interessantes, embora o equipamento não seja tudo, ajuda a aproximar o trabalho em termos estéticos e estilísticos do que é standard no mercado e existe uma panóplia gigante de distribuidores digitais. A indústria de exibição e de distribuição cinematográfica mudou radicalmente nos últimos 10 anos, hoje começa a ser mais importante colocar um filme nas plataformas digitais de video-on-demand do que nas salas o Netflix, por exemplo, tem ganho uma projecção mundial incrível e isso também permite que, ao mesmo tempo, seja mais fácil cada filme encontrar o seu público independentemente do nicho a que se dirija. Há muitos distribuidores digitais, cada qual para o seu tipo de público, e a internet permite que um autor consiga comunicar de forma global. Em relação ao futuro do cinema, não sei o que dizer, ou pensar. Espero que as salas nunca deixem de existir, eu acho que a experiência social de ir ao cinema vai começar a encaminhar-se cada vez mais no sentido de filmes-experiência em 3D ou 4D, com inúmeros recursos disponíveis para estimular os 5 sentidos humanos, mas espero que os circuitos alternativos de filmes de autor não desapareçam, já que a tendência de diminuição de público para esse tipo de cinema é preocupante. Sei que a internet aproximou o mundo. De certa forma, democratizou o acesso à arte. Mas temo que seja cada vez mais difícil a arte se auto-sustentar com a evolução dos processos. Como não sei o que esperar da humanidade, logo não sei o que esperar do futuro.

https://vimeo.com/luiscampos

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