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O desencantador de histórias singulares

Escrito por 

Jorge Pelicano é um jovem realizador de documentários que tem conquistado prémios e o grande público um pouco por todo o mundo. A sua visão cinematográfica procura abarcar as várias realidades que desconhece e as personagens que povoam esses universos muito restrictos e por vezes muito íntimos.

Achei que em todos os os teus documentários, desde “ainda há pastores” e “pare, escute, olhe” inclusívé neste último, “pára-me de repente o pensamento” abordas sempre os invisíveis, são mundos dentro de mundos.
Jorge Pelicano: No fundo concordo com essa observação. A mim interessa-me fazer filmes, contar histórias de pessoas que normalmente não reconhecemos, em que não estámos muito em contacto com essas personagens, ou seja, o que me move para fazer um documentário é o desconhecido e utilizo este dispositivo cinematográfico para ir conhecer essa realidade. No filme “ainda há pastores” eu fui ao outro lado da montanha procurar um personagem novo, neste caso era um pastor, que não esta visível, por isso esta do outro lado do mundo, há esse interesse em procurar o que não controlo, que não conheço, é isso que me move. Da mesma forma aconteceu no último documentário, eu não conhecia a realidade e os personagens dentro de um hospital psiquiátrico, porque eles estão “fechados”, é muito difícil ter acesso ao interior, ao quotidiano de uma instituição para doentes mentais, mas se fores realizador de cinema é possível e é isso que me fascina nesta actividade.

Também não é um reflexo da tua própria solidão? Reparei que escolhestes pessoas que reflectem esse solitude, o estarem isoladas nos seus próprios mundos, onde só tu notas que elas existem.
JP: Eu sei que elas existem, porque procuro vidas. Não significa que na minha existência sofra dessa solidão, eu procuro mundos que sejam totalmente diferentes do meu, ou seja, essa busca preenche-me muito mais, por exemplo, quando passo por um hospital psiquiátrico eu já sei o que se passa lá dentro. No fundo é uma busca de outras experiências, que é o que o ser humano tenta fazer conhecer outras realidades, porque ao fazê-lo sente-se preenchido, gosta de conhecer outras pessoas e sente-se bem por isso. De certa maneira para conhecer esses outros mundos eu uso o cinema.

Em “pára-me de repente o pensamento” porque decidiste escolher uma instituição psiquiátrica no Porto e não uma mais próxima da tua residência, por exemplo, em Coimbra?
JP: Porque quando se faz as histórias a localidade não interessa, a mim o que me importa são os personagens e não de onde são, um esquizofrénico no Porto é igual a outro em Coimbra, não é a localização que os altera. A escolha do “Conde Ferreira” teve a ver com o acesso, para fazer um documentário uma das coisas mais importantes é a história, como é que chegámos até lá? Da mesma maneira que se quisermos chegar ao topo de uma montanha temos que escolher o melhor percurso. Eu tinha um colega meu que tinha acesso aos administradores do hospital e mais facilmente chegámos dessa forma às pessoas, porque esse foi um dos grandes problemas ao nível de produção do filme que é entrar numa instituição psiquiátrica, é mesmo muito difícil. Foi necessário um grande trabalho de produção, para que de facto as pessoas que estão dentro e gerem o hospital percebam qual é o intuito, o objecto cinematográfico que se pretende fazer dentro daquela realidade. Acho que dentro do “Conde Ferreira” essas condições foram criadas, por isso, filmámos no Porto, mas podíamos ter filmado num outro sítio qualquer. Por outro lado, foi o que senti dentro daquela realidade, daquele mundo, para que as personagens conseguissem suster a narrativa e o propósito do filme.

Curiosamente, filmaste imenso e creio que havia a ideia de haver uma segunda parte deste documentário.
JP: Nós filmámos cerca de 250 horas, num total de quatro semanas. Portanto, foi um processo extremanente intensivo onde tentámos aproveitar ao máximo à nossa presença, porque é uma oportunidade rara, não digo única, mas era preciso tirar proveito disso. Agora, quanto ao aproveitar o material para um segundo filme, isso nunca esteve em cima da mesa. No fundo, o prolongamento desta história poderá aparecer numa peça de teatro, que o actor Miguel Borges tem planeado num futuro próximo, mas isso não será a continuação do filme, até porque o próprio actor entrou naquela realidade para fazer isso. Agora, ele absorveu toda aquela mundividência e no futuro irá dar toda a sua visão daquela experiência de quatro semanas, que será a continuidade da história daquela realidade. Do ponto de vista cinematográfico o meu trabalho esta concluído, não tenciono fazer uma continuação, a minha perspectiva teve um princípio, meio e esta finalizado.

Depois de teres visto e revisto o teu documentário em vários festivais, de teres vivido essa experiência pessoal num hospital psiquiátrico, qual é a reflexão pessoal que fazes dessa realidade?
JP: Eu estive dentro de um hospital psiquiátrico não como um cidadão normal, mas numa perspectiva muito profissional, como realizador. Às vezes é difícil explicar isto, de facto, eu sinto que uma coisa é estar lá como uma câmara e outra coisa é estarmos só a olhar para aquela realidade. De certa maneira a câmara filtra-nos daquele ambiente que é agressivo e pesado, é uma instituiçao psiquiátrica, como é óbvio, o estarmos com uma câmara protege-nos. Num corredor em que vejo pessoas a passar que estão internadas estou a assistir à aquela realidade, mas estou mais preocupado com o enquadramento, com a lente, com a exposição, com o som e essas preocupações defendem-me do peso que é estar ali dentro. Aquela experiência não me trouxe sofrimento, pelo contrário, acabei por sentir-me muito bem, porque quem vê o filme logo percebe que naquela instituição não há só loucos a berrar, existem pessoas que são seres humanos como todos nós, só que tem uma patologia que os torna digamos diferentes, ou especiais. Esse é também um dos objectivos deste documentário, mostrar a uma sociedade preconceituosa que olha para estas pessoas como sendo totalmente inválidas, por isso é que elas estão fechadas lá dentro, que se trata de um conceito que hoje em dia não tem fundamento. Eu costumo dizer que “pára-me de repente o pensamento” não espelha a realidade de um hospital psiquiátrico, de todo, mas toca em algumas verdades sobre o que é aquele mundo, o seu quotidiano e mais importante do que isso faz um “update” do que é a vida numa instituição psiquiátrica, para que as pessoas cá fora tenham uma noção diferente e menos preconceituosa da vida dentro dentro desse ambiente hospitalar.

O título é uma referência a um poema do Ângelo Lima, que surge por consequência do actor, da peça de teatro? Ou já tinhas planeado tudo isso antes das filmagens?
JP: Nós tinhámos algumas certezas antes de entrarmos para lá, a primeira era tirar todos os preconceitos da nossa cabeça, nesta caso da minha e eu não queria entrar com ideias feitas porquê? Porque eu possuia esse preconceito, os meus pais diziam-me quando era pequenino, que se não me porta-se bem ia para o hospital dos malucos. Eu não queria entrar com essa atitude no “Conde Ferreira”, então, estivemos nessa unidade hospitalar sem título para o filme, sem qualquer abordagem, o único que queria era entrar e respeitar esta instituição e os seu utentes. Tudo o resto eu fiquei à espera que a realidade me trouxesse de certa maneira as personagens, a estructura narrativa do filme e mais tarde a perspectiva cinematográfica. O poema surge porque o professor de teatro trouxe o personagem, ele indicou o Ângelo Lima ao actor Miguel Borges e o que teria de fazer era ler o poema. A realidade trouxe-nos o título, isso tudo resulta daquela experiência pela qual passámos. Uma das coisas que eu de facto não queria era ser eu a dizer o título do filme, assim foi muito mais natural e verdadeiro, foi uma das coisas que de facto conseguimos e vai de acordo com aquilo que pensámos.

Voltando um pouco atrás e retornando ao “ainda há pastores” agora que se passaram alguns anos, como é que encaras este filme?
JP: Para mim é sempre difícil olhar para os filmes que já fiz.

Porque tens sempre a sensação que podias melhorá-los, ou alterá-los de alguma maneira?
JP: Claro, com aquilo que sei hoje e olhando para atrás faria tudo totalmente diferente, mas isso também marca um tempo, uma fase da minha vida profissional, um período da minha abordagem ao documentário, portanto, eu jamais pensaria em muda-lo. Se apresentar o “ainda há pastores” eu já não o vou ver, a etapa profissional é totalmente diferente, mas por outro lado, ainda bem que é assim, porque marcou uma fase da minha carreira. Eu estou sempre a olhar para a frente, nunca olho para atrás, porque há um momento em que sei perfeitamente aquilo que no próximo filme quero fazer e assim sucessivamente. Os documentários estão feitos, é um ciclo que se fecha e eu tenho que pensar no próximo, não olho para os filmes que já passaram. Contudo, vou-te contar uma pequena história, há cerca de dois anos, fui convidado para um festival em Porto Alegre, no Brasil, com o “ainda há pastores” e eu já não via o filme há seis anos e decidi apenas ver o início para ver se estava tudo bem, eu faço sempre isso nas edições dos documentários, vejo sempre os primeiros cinco minutos, mas desta vez fiquei a vê-lo até o fim e senti-me bem e isso deixou-me extremamente contente, mas regra geral não vejo o documentário, porque já o vi tantas vezes. Quando vemos a imagem pela primeira vez existe toda aquela excitação que não se prolonga com toda aquela intensidade no tempo, não direi que se torna banal, deixa é de ter aquela sensação forte e isso também acontece com os próprios filmes dos realizadores. Eu, agora, estou a fazer uma pequena montagem e quando vejo uma imagem pela primeira vez fico entusiasmado, a partir da quinta e sexta vez acaba essa sensação, esse prazer.

Então vais continuar nesta linha profissional dos documentários?
JP: Eu vou continuar a contar histórias. No cinema existem duas maneiras de fazê-lo, uma, é usar uma experiência da realidade, através do documentário, outra é através da ficção, pode ser até com animação, por exemplo. Agora, qual é o dispositivo que uso? Se é ficção ou documentário? Para já quero aproveitar tudo o que resta da espuma dos dias, tentar pegar pedaços dessa realidade e torná-la num objecto cinematográfico. Ultimamente tem sido documentário, mas a ficção surgirá quando sentir que é necessário esse formato para contar uma história.

Mas, neste momento estas a editar o teu próximo projecto?
JP: Não, neste momento consegui financiamento por parte do instituto de cinema para um próximo projecto que vamos filmar em 2016. Até lá estámos a fazer pequenos documentários de autor.

E vais contar de novo a história de pessoas pelas quais passámos e não vemos? Ou não desejamos ver?
JP: Sim, provavelmente vou contar história de pessoas que os outros não vêem, são personagens mais “marginais” da sociedade e tentar perceber, porque elas são olhadas dessa forma. É um filme mais pessoal no sentido da personagem em si, mas não se trata de uma instituição,

O formato vai ser documentário ou ficção?
JP: Documentário, sim.

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