Um olhar sobre o mundo Português

ptenfrdees

 

h facebook h twitter h pinterest

A atlântida submersa

Escrito por 

 

A Estação de Biologia Marinha do Funchal, que faz parte do departamento de ciência da Câmara Municipal do Funchal, comemora este ano 15 anos de existência. Uma efeméride assinalada com uma série de iniciativas abertas ao público geral, através de dias e noites abertas, onde são abordados os projectos científicos levados a cabo pela instituição, através de palestras e documentários dirigidos às famílias, como refere a directora e coordenadora das acções educativas, Mafalda Freitas.

Estuda os tubarões no arquipélago da Madeira, desde 2010 havia cerca de 70 espécies diferentes.
Mafalda Freitas: Neste momento são cerca de 75 espécies de tubarões, raias e mantas. Claro que afirmo cerca de porque a investigação esta a decorrer, não é que apareçam todos os dias, mas quando temos projectos científicos, ou campanhas, surgem sempre novos especímenes. No último projecto estivemos a investigar até os 2,500 metros de profundidade com pesca e conseguimos descobrir cinco novas espécies para os mares da ilha.

Estes peixes surgem devido ao aquecimento das águas do mar?
MF: Não, neste caso aparecem muitas vezes. É a primeira vez porque se conseguiu pescar nessas profundidades. Nem tudo tem a ver com o aquecimento das águas, na Madeira fazemos a monitorização dos peixes ao longo da costa e aí sim, o que temos verificado em menor profundidade é que estão a aparecer espécies que só eram avistadas nos mares tropicais e de outros sítios onde estes peixes são mais coloridos e muito mais atractivos, por exemplo, no mar vermelho, isto porque a temperatura do mar esta a aumentar.

Ao todo foram identificadas 25 novas espécies de peixes, mas já catalogaram mais?
MF: As espécies assinaladas nos últimos 20 anos são cerca de 25, nós aqui somos muito poucos e fazemos investigação em áreas diferentes. Daí os números.

Há a percepção generalizada de que o número de raias esta a diminuir.
MF: Há uma confusão entre o número de espécies e de exemplares, em termos de espécimenes não estão a diminuir, é sempre o mesmo. O que esta a minorar é o número de exemplares, mas a que ter em conta que segundo os indicadores da União Europeia (UE) aparecem menos tubarões e raias em profundidade. Evitam-se capturar exemplares, ou animais, cujo ciclo de vida é lento e vivem muito. Agora, sabemos também que existe o fenómeno de sobrepesca ao nível mundial.

 

 

Existe sobrepesca no arquipélago ou não?
MF: O que acontece é fora das nossas águas, da nossa zona económica exclusiva, aparecem barcos asiáticos, da Formosa, ou do Japão, que capturam tubarões, felizmente são raros cá, mas estas embarcações fazem o finning, ou seja, tiram as barbatanas do peixe, porque na Ásia há o consumo de sopa de barbatana.

O mesmo acontece com as raias ou não?
MF: As raias muitas vezes são apanhadas por causa da barbatana caudal que é utilizada para decoração.

Outra das observações que se tem feito na ilha é o maior aparecimento de águas vivas.
MF: Sim, estamos a fazer um trabalho em que pedimos a ajuda para já dos complexos balneares do Funchal. Eles diariamente apontam numa folha de registo a espécie e assinalam a sua abundância na água, já que, existem quatro tipos de medusas na Madeira. No campo das observações pedimos para colocar sempre que possível a temperatura da água do mar e se nesse nicho de alforrecas há poluição visível. Esse trabalho teve início em Julho e é para perdurar ao longo dos anos.

Este estudo surge da constação das pessoas, que embora não haja poluição visível aparecem águas-vivas na mesma no mar?
MF: Esta provado que o aquecimento das águas acarreta o aparecimento de medusas. As duas causas apontadas pelos estudo científicos para o seu aparecimento em maior número, são a sobrepesca que desequilibra toda a cadeia alimentar, por outro lado, o aquecimento das águas do mar. Com mares mais quentes, o que se esta a passar é que as águas-vivas aparecem mais ao longo do ano, enquanto que antes, tínhamos a percepção que só se avistavam no verão. Na páscoa, por exemplo, na ilha do Porto Santo houve dois dias em que não se pode entrar na água tal era a sua quantidade. O registo desses dados é que é importante para nós.

Esses indicadores acabam por demonstrar que o homem afecta directamente os ecossistemas, o que gera um desequilíbrio?
MF: Sim, eu penso que é do conhecimento comum que desequilibrámos o sistema natural, agora, até que ponto fazemos isso? É o que torna a investigação científica muito importante, porque obter estes dados, fazendo o seu registo de uma maneira sistemática, é que permite afirmar com toda a certeza, que as águas-vivas ocorrem em maior número numa determinada epóca do ano, do que anteriomente.

Quais são as consquências do maior aparecimento destas espécies no mar?
MF: Existem duas consequências negativas, uma é o usufruto do mar em si, a maior parte dos residentes e os turistas que nos visitam não gostam de entrar no mar com águas-vivas, porque como é normal, correm o risco de serem queimados. E o segundo motivo é que estas alforrecas alimentam-se das larvas de peixe, quantas mais houver, mais comem e num futuro próximo a consequência mais visível é termos menos peixes nas nossas águas.

Outro dos programas que a estação esta envolvida é o marprof.
MF: Trata-se de um projecto que visa estabelecer as bases para uma exploração sustentável do mar profundo. É o culminar de uma série de projectos de investigação, que vem desde 2003, em que estivemos a estudar os mares da Madeira, entre os 250 e os 2,500 metros de profundidade. Por um lado, para inventariar a biodiversidade nessas profundidades e para descobrir outras espécies que tenham potencial de ser comercializadas. Quais foram esses espécies? A gamba da Madeira, que é um camarão que atinge um certo tamanho, o caranguejo da fundura e andámos a estudar melhor o peixe espada-preto. O culminar do marprof, o seu objecto final, foi um livro de receitas que junta toda a informação sobre estas espécies em profundidade, de como poderá ser pescado, comercializado e utilizado na gastronomia madeirense. No fundo juntámos estes três pilares com 60 receitas originais em conjunto com os chefes das escolas de hotelaria e turismo da Madeira, dos Açores e das Canárias.

Este estudo surge, porque há um certo esgotamento dos stocks piscatórios do arquipélago, ou não?
MF: Estão a diminuir, a ilha sempre viveu de três pescarias essenciais, o atum, o peixe espada-preto e a ruama, que são pequenos peixes. As quotas de pescas, por outro lado, tem diminuído, a UE aperta mais nesse sentido, não se pode pescar. Então a ideia foi arranjar outras espécies que possam constituir alternativa, fala-se muito da defesa da espada-preta, assim quando fosse a época da reprodução desta espécie, nós gostaríamos de proporcionar aos pescadores outras opções. Foi esse o estudo, no caso da gamba da Madeira esta feita a avaliação que entregámos ao secretário regional do ambiente, com as quantidades que se podem pescar e o número limite de embarcações na arte de pesca, para que se possa abrir a época de pescaria de forma sustentável.

A estação marinha do Funchal comemora este ano 15 anos de existência. Existem os dias abertos para o público em geral, mas que outras iniciativas pretendem promover para comemorar esta efeméride?
MF: Durante o ano, na última segunda-feira de cada mês, abrimos as nossas portas para o público em geral e ficámos cheios de visitas. Depois durante o verão, no último sábado de cada mês, temos as noites abertas, que é uma actividade para toda a família, em que há um convidado, uma palestra, documentário, ou uma projecção para os mais mais adultos e os mais pequenos usufruem de actividades educativas em que ficam a conhecer a biologia marinha do arquipélago. Este ano, como comemorámos os 15 anos, vamos proporcionar baptismo de mergulhos, apartir dos 10 anos de idade e aos adultos, uma primeira experiência da parte submersa do mar da Madeira. No dia 27 de Setembro vamos organizar um passeio de caiaque, já que o aniversário é no dia 28, na área em volta da estação, onde se espera que seja o futuro ecoparque marinho do Funchal, é um projecto da Câmara Municipal local, para transformar esta área em paisagem protegida e portanto, para acções de sensibilização para a protecção do mar.


http://www.cm-funchal.pt/ciencia/index.php?option=com_content&view=article&id=222:estacao-de-biologia-marinha&catid=107:estacao-de-biologia-marinha-&Itemid=352

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.

FaLang translation system by Faboba

Podcast

Eventos


loading...