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A defensora

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Sofia Branco começou a sua carreira jornalística no Público e actualmente exerce a mesma profissão na agência Lusa desde 2009. É também professora convidada no Mestrado em Estudos sobre as Mulheres, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e foi eleita presidente do sindicato dos jornalistas, numa votação inédita, já que há 27 anos não havia duas listas a concorrerem para às eleições deste órgão associativo.

Queria abordar um pouco a evolução do jornalismo em Portugal, nesta últimas duas décadas, tendo em conta que as novas tecnologias veio alterar muito a vida das redações.
Sofia Branco: A culpa não é apenas das novas tecnologias, porque acho que isso é um argumento que se usa muito para justificar uma série de coisas que não são justificáveis. A crise económica provocou alterações profundas nas relações laborais e hoje em dia no jornalismo a precariedade é muito mais extensível do que foi no passado. Os vínculos que existem e o salário que se ganha é muito diferente do que nos últimos anos, essa relação degradou-se substancialmente. O risco de desemprego também esta associados a várias factores, há falta de receitas, há baixa de vendas, escassez de leitores, ouvintes e telespectadores e isso tudo associado a um mercado que é pequeno relativamente e para o qual concorrem imensos licenciados, coisa que não havia no passado, houve um boom de cursos de jornalismos, muito para além da oferta que existe e tudo isto junto gera condições de trabalho muito más.

Mas, isso também não resulta da concentração de vários meios de comunicação num único grupo de económico, gerido por investidores e que são encarados como um investimento?
SB: Sim, essa aglomeração tem efeitos enormes, para já porque possuem várias publicações no mesmo teto e isso para a diversidade não é bom. Depois temos uma fenómemo muito estranho, que no passado não acontecia, que é ter o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias que eram dois jornais distintos em termos históricos e com públicos-alvos também distantes e que hoje em dia tem as mesmas notícias sem tirar nem por e isso antes era impensável. Tudo isto tem a ver com a falta de recursos e com uma palavra que esta muito na moda que é a sinergia, que nunca dá mais dinheiro as pessoas é apenas um profissional a escrever para vários meios de comunicação e a receber exactamente o mesmo. É uma questão algo discutível, mas a concentração não tem sido vantajosa e para além disso absorve muito do mercado que já é pequeno em termos de receitas de publicidade e os pequenos projectos ficam mais limitados, não há espaço para publicações jornalísticas independentes.

Essa precariedade também não tem a ver com o facto de haver pouca legislação para proteger os profissionais da comunicação? O expediente é garantido por freelancers e os estagiários.
SB: Eu não acho que falte legislação, o que falta é fiscalização. A legislação é igual para todos, porque eu não acho que os trabalhadores de comunicação social são um grupo a parte dos outro trabalhadores, tem leis laborais como toda a gente, que no passado já foram muito melhores, já protegeu mais as pessoas do que hoje em dia, existe é pouca fiscalização, mas isso também acontece porque há poucas denúncias. Todos os que trabalham em empresas privadas sabem o que acontece e em que condições estámos a trabalhar. Isso tem de ser denunciado e exigido que haja uma intervenção das autoridade, o que não é fácil, porquê? Porque ao denunciar sabemos do risco que as pessoas passam a ter de perderem o emprego, mesmo sendo precário. Não é fácil gerir estas situações, nós tenho conhecimento dessas irregularidades e pensámos como fazer isto tentando proteger as pessoas? E temos profissionais que nos confessam que preferem ter condições laborais mesmo que precárias do que não ter nenhum emprego.

Em termos da igualdade do género, quando se fala de precariedade as mulheres estão na linha da frente em termos de despedimentos, no entanto, são as que possuem maior nível de formação.
SB: Eu não tenho dados que sustentem esse argumento. Mas, se a comunicação social for um espelho da sociedade e não tenho razões para duvidar que assim seja, sabemos que as mulheres são mais sensíveis ao desemprego, recebem menos em termos de salários e uma progressão na carreira mais difícil, mais lenta até porque são interrompidas por licenças de maternidade algo que os empregadores gostam muito e aqui estou a ser irónica. Contudo, volta a frisar que não há dados concretos, não tenho um estudo que diga taxativamente que as jornalistas recebam menos que os jornalistas, mas é um facto que as portuguesas recebem menos em termos de salários, cerca de 20%, portanto isso é comprovado.

Há outro aspecto que é facto de as mulheres terem dificuldade em chegar aos cargos de chefia, tu és um caso a parte e no teu percurso notaste essa resistência?
SB: Eu por acaso não notei, mas sei que existe. O teto de vidro que existe para outras profissões também se verifica na comunicação social. Hoje em dia o que se acontece é que tens muitas mulheres nas chefias intermédias, foi o que meu caso, eu fui editora, mas nas direcções ainda existem poucas. Acho que isto tem muito a ver com dois aspectos, primeiro é uma questão de mentalidade que é comum a todas as profissões e a todo o país e isso demora muito tempo a alterar-se, mesmo nas sociedades mais progressistas. Outro aspecto tem a ver com uma determinada geração, quando se chega a cargos de chefia, em princípio estámos a falar de uma determinada faixa etária, dos 40 aos 50 anos e a verdade é que há mais homens a fazer jornalismo nessas idades do que mulheres, porque inicialmente era uma profissão mais masculina. Hoje em dia é mais feminina numa nova geração, não nessa faixa etária e neste aspecto há a combinação destes dois factores. Depois há um aspecto discriminador por parte do empregador quando se trata de chefias no feminino, porque preferem que não tenham filhos, conciliar a vida profissional e pessoal não é fácil no jornalismo. Elas, por outro lado, também se calhar prefiram não trabalhar 16 horas por dia, mas essa também não devia ser regra trabalhar tantas horas.

Em relação aos novos meios de comunicação digitais estão a ganhar força porque os leitores mudaram, as novas gerações não abraçam o papel como as anteriores.
SB: Sim, lêem de uma forma diferente que esta pouco estudada, mas de facto não compram jornais e isso é claro, vão até a internet e é preciso saber o que lêem e o porquê e sabemos muito pouco sobre esses hábitos. Isso deixa margem para novos projectos na internet que também tem de ter a sua regulamentação, porque há muita carência de leis nessa matéria, não se sabe em que condições a informação é produzida, a internet é um mundo onde há muita informação disponível, mas também muita desinformação. No entanto há muitos bons projectos jornalísticos digitais, uma coisa é ser um jornal de base nacional, regional ou local e ter um site e outra coisa completamente diferente é pensar um meio de comunicação social em termos digitais e isso até é muito interessante, porque alarga o exprecto de informação disponível. O que é necessário é ter em atenção é de onde vêm as fontes, no caso da Lusa que é o que conheço melhor, a informação é usada e reusada em vários sites sem ser paga e isso é grave, porque não é de acesso livre.

Mas, em Espanha aprovou-se uma lei nesse sentido.
SB: Mas isso tinha que ser o Estado a decidir uma coisa dessas e a financiá-lo. Neste momento não é isso que acontece, a Lusa tem um capital maioritariamente do Estado, mas tem accionistas privados, não é uma empresa pública e tem empregados a manter e não ganha nada com essa proliferação da informação. Na internet há muito disso, tudo pode ser usado e que os direitos de autor parece que desaparecem, é tanto assim no papel como no digital, mas no digital se torna muito mais difícil de fiscalizar.

Então defendes uma regulamentação jurídica específica?
SB: Não, acho que a que existe é suficiente, tem de ser é aplicada, tem de haver uma forma de ela funcionar, mas se ela não funcionava para o papel, muito menos para a internet. Embora, não sei se devido as especificidades que existem na internet não valerá a pena serem estudadas e analisadas, acho que há pouco conhecimento do que existe.

E como encaras o futuro do jornalismo, diz-se que morreu, porque hoje em dia qualquer pessoa com uma câmara fotográfica ou de vídeo faz uma reportagem.
SB: Isso não é jornalismo.

Então achas que é o próximo passo?
SB: Isso que as pessoas fazem de ter um acesso fácil das coisas, fotografar filmar e depois escrever sobre o assunto não é jornalismo. As pessoas tem de saber distinguir esses dois aspectos, para se ser jornalista é necessário estudar e sobretudo obeceder a um código de ética próprio e que é vinculativo como é dos médicos, não é jornalista quem quer é. Ser-se um profissional da comunicação obedece a regras estrictas e quem não as cumprir deve ser penalizado por isso e que tem de ver com uma responsabilidade social que o cidadão não precisa de ter, existe um conjunto de factores como a proximidade, a novidade em termos da informação que o cidadão comum desconhece. Para além disso, o jornalista é um filtro segundo um código e um conjunto de regras que aprendeu e não essa ideia, que é perigosa, e que existe que muito hoje, que qualquer pessoa que faz uma fotografia é fotojornalista. Acho que vamos caminhar para uma realidade em quem se aproximar mais da verdade é que faz jornalismo.

Então o futuro vai passar por redações mais pequenas, ou profissionais credenciados que assumem projectos digitais a solo?
SB: Acho que passa por aí. Não sei se será o futuro. Acho que as pessoas se vão cansar de andar de um sítio para outro, de serem despejadas, ou dos baixos salários e vão criar os seus próprios postos de trabalho, pessoas como tu dizes que são credíveis, estudaram para ser jornalistas, foram profissionais e há um caso desses. O digital acaba por ser um acesso fácil e barato que não tem os custos do papel, não acho que apareçam revistas ou jornais em papel no futuro acho impossível, isso não existe. Acho que há espaço para mais projectos na internet.

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