
Teresa Jardim Gedge nasceu na ilha da Madeira, mas iniciou a sua carreira de actriz em Inglaterra em três companhias de teatro amador. No retorno as origens, em 1982, trabalha em filmes, séries e decide organizar um grupo de teatro amador inicialmente designado de ADIM (associação de arte dramática inglesa da Madeira), que rapidamente passa a ser mais conhecido por MADS (Madeira Dramatic Society) da qual ainda hoje é presidente e também actriz. Um percurso com 20 anos de existência que levou ao palco várias peças de teatro e musicais que deliciaram milhares de espectadores de várias nacionalidades.
Em que contexto surge o MADS?
Teresa Gedge: O meu marido foi nomeado cônsul da Inglaterra aqui na Madeira e eu lembrei-me de reunir um conjunto de pessoas que viviam na ilha de origem britânica ou que falavam inglês com o intuito de criar um grupo de teatro amador. Começámos por ter uma reunião na igreja anglicana, eu em parceria com a Carol Gouveia, o David Valant e principalmente as minhas filhas que me deram força e disseram: vamos ver quantas pessoas vêm até a reunião e começámos por aí. Foi incrível apareceu imensa gente, em Setembro de 1993, foram mais de 30 pessoas entusiasmadas e em final de Outubro inícios de Novembro encenamos um texto de Óscar Wilde, “a importância de se chamar Ernest” num pequeno palco improvisado no adro da igreja e foi um sucesso.
Qual foi a primeira peça que marcou o percurso dos MADS?
TG: A partir do momento que decidimos continuar idealizámos um outro espectáculo nas antigas instalações da RTP e tivemos a casa cheia, o nome da peça era “ the mayor of Torontal”. Eu fiquei muito entusiasmada com esse acolhimento, entretanto outras pessoas apareceram para entrar no MADS e foi-nos atribuído um subsídio do governo, porque na altura não havia quase nada, só funcionava o Teatro Experimental do Funchal. A primeira peça musical que levamos à cena foi uma pantomina, a “Cinderella”, com 40 pessoas em palco. É um espectáculo que por norma apenas se apresenta antes do natal, tradicionalmente o príncipe é representado por uma mulher e as duas irmãs feias por rapazes. O “Candid” de Voltaire foi outro dos espectáculos mais marcantes, teve a participação da orquestra clássica da Madeira e foi fantástica, erámos mais de 50 pessoas em palco.
Entretanto surge a parceria com o Teatro Municipal do Funchal?
TG: Sim, foi uma evolução natural depois do cine casino. Quisemos fazer uma peça no teatro e nessa altura já recebíamos um subsídio por ano. Começámos por encenar três espectáculos por ano, mas é preciso sublinhar que os actores não ganham um ordenado por participarem nas peças, temos é de pagar os encenadores profissionais, especialmente os que vêm de fora, por isso, é que o nosso nível artístico era tão elevado. Depois começámos a fazer shows em português, “o último dos marialvas” e a “família Adams”, por exemplo. Outros dos musicais que levámos ao palco foi “o violino sobre o telhado”, “minha querida senhora” e “música no coração” e até tivemos que trazer algumas peças de cenário de Inglaterra, porque aqui eram muito difíceis de fazer. Agora, temos de fazer tudo com a prata da casa, e menos meios, a ajuda monetária deixou de existir, as entradas passaram a ser pagas, mas isto acontece com toda a gente na área da cultura.
Desde os primórdios do grupo verificou que apenas o público de origem anglo-saxónico é que aparecia nos espectáculos?
TG: Não, o público madeirense também. Foi por isso que começámos a fazer peças em português. Só que as pessoas aqui na ilha, o público em geral, não estava habituado a pagar para assistir aos espectáculos e foi pena, porque as maiores encenações aconteceram numa época em que havia mais dinheiro. Agora, mesmo com poucas verbas conseguimos levar ao palco três espectáculos musicais, onde tivemos o Ray Jeffrey como encenador. Actualmente encenámos peças apenas em inglês porque, agora, há outros grupos de teatro que o fazem em português e para além disso nesses espectáculos só temos portugueses na audiência. Sendo em inglês temos os estrangeiros que estão nos hotéis, as pessoas que vivem na ilha e falam a língua e portugueses que seguem o nosso percurso, porque reconhecem a nossa qualidade e o nosso alto nível de exigência.
Num próximo futuro o que pretendem fazer?
TG: Vamos montar uma peça que o encenador Eduardo Gaspar esta a escrever para nós, mas não posso adiantar mais. Gostaria de repetir o “Aló, Aló” com o Nuno Morna e isso seria muito bom. Pretendo ainda, por em prática uma ideia que o João Carlos Abreu me sugeriu há algum tempo atrás, mas que por falta de tempo não consegui levar á cabo e agora posso finalmente dedicar-me a este novo projecto.
De todos os espectáculos que fez qual a marcou mais?
TG: Não posso dizer que é um só, são vários espectáculos que me marcaram. Um deles é a personagem Edith do “Aló, Aló”, outra é Lady Angatel, "o vazio" de Agatha Christie, foi um papel que me manteve apreensiva, porque tinha muitas falas, mas quando entrei na personagem foi maravilhoso. Gostei de entrar nos musicais, especialmente “ o violino no telhado” em que fiz de casamenteira.
Em termos de percurso pessoal como chegou a ser actriz?
TG: É um percurso muito próprio que fiz em Inglaterra. Pertencia a três grupos de teatro amador que eram semiprofissionais e participavam em festivais. O que me marcou nessa altura e me fez continuar é que ganhei o segundo lugar de um prémio como melhor actriz da costa oeste e aí decidi continuar. Depois aprendi muito no teatro, foi uma formação muito prática, fazíamos de tudo nos bastidores, desde a maquilhagem, a ser assistente do director do palco, os adereços e a ajudar na confecção das roupas que ainda hoje continuo a fazer. Para além de actuar no palco, ao mesmo tempo, tinha lições de canto, dicção e dança para poder entrar nos espectáculos, na Inglaterra a vida artística é muito dura, há muita concorrência.
Os workshops é outro dos componentes importantes do grupo.
TG: Sim, nos fizemos alguns workshops, mas não muitos, porque as pessoas não querem pagar e então decidimos inserir as pessoas nos espectáculos e isso acaba por ser uma espécie de formação. Imagine os ensaios todos, mesmo com um papel pequeno, porque essa é melhor aprendizagem que se pode obter. O problema é que há pessoas que quando pedem para entrar nas peças já querem ter uma grande personagem, mas no teatro não há pequenos ou grandes papéis, todos são principais.