Gil Sousa é o coordenador do serviço socio-laboral da associação Arrisca, uma instituição de solidariedade social (IPSS), na ilha de São Miguel, que visa a inserção na sociedade e no mercado de trabalho de grupos de risco, ou com deficiências.
Fale-me um pouco sobre o que é “Arrisca Experience”.
Gil Sousa: A “Arrisca experience” é uma valência de uma IPSS, uma instituição de solidariedade social, que foi criada em 2007, nos trabalhámos com um público em situação de exclusão grave, falo dos toxidependentes, perturbações mentais, com pessoas que foram deportadas dos EUA e do Canadá e temos quatro unidades formativas e produtivas onde procurámos trabalhar a vertente de inclusão social, através do trabalho. Na área da cerâmicas temos as loiças regionais, os barreiros de azulejo, as figuras tradicionais, ou seja, procurámos representar algumas das profissões que estão a cair no esquecimento e procurámos trabalhá-las. Depois temos a vertente de carpintaria onde procurámos criar mobiliário diferenciador e trabalhámos à base de encomendas, não temos uma loja com as peças expostas, mas produzimos consoante a necessidade das pessoas. Também há um outro projecto nas madeiras, que é produção de mobiliário “eco-friendly”, através do aproveitamento das paletes fazemos vários tipos de móveis e tivemos alguns projectos interessantes com o “cais da sardinha”, o “eco beach resort” e alguns alojamentos que tem aderido muito a esta moda, porque é mais apelativo e sustentável. Para finalizar temos as equipas da jardinagem, vamos as residências das pessoas e oferecemos os nossos serviços. O que procurámos fazer é uma diferenciação dentro dos serviços nestas áreas, para colmatar as necessidades que as possam.
No início referiu que são artes em desuso, por isso foi necessário dar formação.
GS: Sim, a equipa é constituida por monitores que ajudam os utentes a serem integrados nestas diferentes valências que já referi anteriormente, são profissionais que tem formação nestas áreas, procurámos incutir nos utentes essas formações Também estámos abertos à comunidade, temos muitos workshops em que as pessoas podem efectivamente participar e aprender, por exemplo, a pintura regional de loiça ou em azulejo, os presépios, aqui, em São Miguel temos uma tradição de ser feito em redoma e fazemos desde as peças em miniaturas, os bonecos da lapinha até a própria concepção da peça artesanal em si. Realizámos estas formações abertas ao público também como forma de combater o estigma do nosso público-alvo e de envolver a comunidade neste processo de inserção.
Dos diferentes tipos de utentes que possuem, vocês deixam que eles escolham a arte que pretendem desenvolver ou não?
GS: Nós procurámos fazer um “job matching”, ou seja, adequar as capacidades, as competências e a experiência que essa pessoa já teve com as áreas que já possuímos, no entanto, pode haver uma pessoa que tem o gosto pela carpintaria, sem nunca ter tido qualquer tipo de experência, e pretende aprender porque tem essa motivação, nõs proporcionámos também essa possibilidade. Depois também fazemos uma ponte com as empresas, porque o objectivo ao longo-prazo seria a integração destas pessoas no mercado de trabalho, tentámos sempre encontrar sempre uma oportunidade de emprego.
Qual destas áreas tem havido uma maior inserção de utentes no mercado de trabalho?
GS: Hoje em dia estámos num mercado cada vez mais competitivo, as empresas procuram ter do seu lado os melhores e mais competentes, infelizmente, o nosso público-alvo é caracterizado por baixas habilitações literárias, tem algumas problemáticas associadas, não podemos falar, nem quantificar uma área com taxa de sucesso. O que posso dizer é que já tivemos situações em que algumas empresas no contactaram para obter pessoas para trabalhar nas obras, o que foi muito bom na altura, estámos a falar do período em que houve um boom na construção civil e aí as empresas não se importavam se a pessoa foi deportada, ou se tinha problemas, ou um passado. Infelizmente, hoje em dia, as coisas já não são assim, estão mais complicadas, temos imensas pessoas desempregadas e cada vez mais com qualificações e costumámos dizer que os nossos utentes estão na base da pirâmide com poucas qualificações e problemáticas associadas a competir com pessoas licenciadas e com outras formações. Daí a importância destas valências, destas competências que temos nas nossa instituição com programas que nos final permitem que as pessoas possam usufruir de um salário por mês, o que acaba por ser muito benefico.
Quantas pessoas estão inseridas nesta IPSS?
GS: A associação Arrisca acompanha mais de mil utentes, não é nestas valências de que falei, esta é uma pequena parte, temos também um serviço psicossocial que é composto por assistentes sociais, psicólogos, educadoras sociais, sociológos e monitores de inserção social. Possuímos ainda um departamento clínico com médicos e enfermeiros, onde trabalhámos todas as vertentes da reabilitação social desde os mais pequenos até na prevenção juntos dos mais idosos, o objectivo é acompanhar todas as fases da vida destas pessoas.




