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O festeiro

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Lourenço Viveiros organizou a festa do perfume, um evento que visa realçar uma das vertentes naturais da ilha, os seus aromas. Uma dimensão olfativa que inclui diversas experiências que apelam a todos os sentidos e que pretende que seja mais uma componente do cartaz turístico da Madeira.

Fala-me um pouco do projecto festa do perfume?
Lourenço Viveiros: Na sequência de muitas conversas que tenho travado com Nicholas de Barry, ele vive na ilha há dois anos, surgiu esta ideia. Já organizei vários eventos ao longo destes dezassete anos e então pensámos, porque não elaborar um evento ligado a todo este universo do perfume? Começámos a conversar, a escrever e transformámos tudo isso no formato da primeira edição da festa do perfume. É um conjunto de eventos que tem objectivos diferentes. A exposição de quadros associados a um aroma pretende mostrar esta ideia transversal de misturar a pintura com as fragâncias. Possui também uma vertente educacional, já que teremos um grupo de jovens das escolas locais, é um acto de pedagogia em que o mestre vai dar uma aula aos jovens introduzindo-os na arte dos perfumes. No hotel Reid's foram organizadas master classes para um público mais adulto, é um formato para a arte de construir perfumes e ainda tivemos uma outra iniciativa que foi um jantar perfumado, em que Nicholas de Barry criou um bouquet com o chefe de cozinha para cada um dos pratos. Realizaremos uma cerimónia do perfume, inspirado numa tradição japonesa. E teremos ainda a apresentação do perfume "isle of Madeira", por questões de marketing o nome surge em inglês, já que é uma língua que predomina nos visitantes que chegam a ilha. Trata-se de um aroma que mimetiza a região usando os seus aromas locais. Não queremos ficar por aqui, temos um projecto que possui uma cronologia e vai ser alargado, pretende-se que ao longo do ano se prolonguem os eventos sobre este universo gigante dos cosméticos e dos perfumes, há ainda a possibilidade de workshops. Dado que a ilha da madeira possui grandes ingredientes para a perfumaria, há a ideia de criar uma produção local. Outra das iniciativas envolve o vinho madeira pela sua dimensão olfativa, contactámos Chris Blandy que ficou fascinado com a ideia, e assim, sendo serão feitas provas cegas olfativas de um tipo de vinho madeira.


Como é que associa o perfume ao vinho madeira. Nas provas há uma vertente olfativa óbvia, mas no âmbito desta iniciativa, como farão essa ligação?
LV: Colocam-se ingredientes no vinho que ampliam a sua dimensão olfativa. Como é o caso dos licores com os cítricos, tipo limonchello, contreaux, licores de rosa, chartreuse e há ainda um vinho perfumado, que é o Martini. Vamos começar com o Boal de 1920 e quando se cheira aquele vinho, apercebemo-nos da sua complexidade aromática, como é muito velho ficam as notas das especiarias.

Abordando a questão olfativa, por norma, no dia-a-dia esquecemos essa capacidade de captar o mundo através do cheiro.
LV: O Paulo David, que é um arquitecto de renome e meu amigo, numa conversa que tivemos dizia achava este universo olfativo interessante, porque hoje em dia, há quase uma ditadura do visual. Os sentidos foram esquecidos. O cego é tratado como um doente, alguém que não tem a capacidade olfativa nós nem considerámos que possa ter uma doença grave. Pelo que tenho lido, no processo de civilização do homem, mais na cultura ocidental, porque as culturas orientais nunca esqueceram essa dimensão, o perfume deixou de fazer parte das nossas vidas. Na idade média, devido ao fenómeno da peste, as pessoas pensavam que a doença se propaga através do banho, não só, mas também, perdemos esse prazer do banho que estava muito associado a fragrância. Há um interregno muito grande que permitiu que fosse encarado como um mal. A retoma no mundo ocidental faz com que ninguém escape à imposição do perfume, que faz parte da higiene pessoal das pessoas, já não é mais um produto elitista, este democratizado. Todas as pessoas usam perfume, o que é extremamente importante.


A festa do perfume tem esta particularidade de estar associada a áreas que nunca associaríamos as fragrâncias, como uma exposição de arte, ou até um jantar.
LV: Quando elaborámos um jantar e usámos a canela, esquecemos que é uma especiaria perfumada, o que existe de facto é um conjunto de ingredientes, que não associámos a perfumaria e a cosmética quando os mesmos podem ser associados a gastronomia sem qualquer risco. A utilização da pimenta, da erva-doce, o uso das ervas aromáticas é uma forma de perfumar a culinária. No fundo perdemos esse sentido de educação e de cultura, quando Nicolas de Barry participou na confecção dos pratos, o chefe já tinha todos os elementos os molhos, as carnes, os peixes, ele limitou-se a usar ingredientes que são também aromáticos e que muitas vezes estão incluídos nas receitas. Ele usou uma palete elementos que parecem ser apenas reservados à perfumaria, quando não o são. Na pintura houve uma interpretação satírica transversal, usámos todos os sentidos, os cinco e não apenas um, podemos não nos aperceber, mas usamo-los mesmo que inconscientemente. Objectivamente perdeu-se essa cultura de conscientemente usar o olfato e em alguns casos ainda bem, mas em outros não. Uma das outras propostas que temos é realizar passeios perfumados. Desafiar as pessoas de uma forma objectiva, concreta e voluntária a ter uma experiencia olfativa. É diferente de quando visitámos um jardim sem qualquer indicação, porque a ideia é despertar as pessoas para essa experiência, há uma nova atitude mental. É uma dimensão que queremos introduzir na oferta cultural para quem nos visita e a exploração direcionada para o perfume, para os aromas.

Pretendem ainda que todas estas iniciativas façam parte do cartaz turístico da ilha.
LV: Sim, é mais uma experiência que se oferece a quem nos visita. Um destino muitas experiências. A Madeira é uma ilha coberta de flores durante todo o ano, a componente olfativa pode ser oferecida aos turistas. Fazer um percurso dos jardins no mês de Maio de modo direcionado e objectivo. O visitante já vai mentalmente preparado para experimentar, se não houver essa informação de forma aberta, ele acha que é bonito, mas esquece as diferentes notas olfativas das diversas plantas e das flores.


E no caso das levadas, há percursos específicos para esse efeito?
LV: Todas as levadas oferecem experiências olfativas fantásticas, há muitas flores e plantas que expelem muitos aromas. Por norma, apenas a componente visual é a mais explorada.

 

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