Um olhar sobre o mundo Português

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O homem dos mil rostos

Escrito por 

Fernando Alvim é um dos comunicadores mais multifacetados ao nível nacional. É dono de um estilo muito próprio de entrevistar, apresentar programas e escrever humor que fazem as delicias dos ouvintes, telespectadores e leitores que o acompanham há mais de 20 anos.

És radialista, apresentador, humorista e empreendedor, tens uma série de facetas, qual delas te define? Ou não?
Fernando Alvim: Não tem a ver com uma que me defina melhor. Eu sou uma série de coisas e não uma só. Há quem goste de fazer apenas uma, eu estou um bocado em várias e as pessoas perguntam-me como consigo fazer tanta coisa? Eu costumo dizer que é a única forma de fazer cada uma delas, isto é, se eu tivesse só uma faceta possivelmente já me tinha aborrecido e tinha desistido. Assim, faço tanta coisa, vou variando e é como consigo viver.

Como consegues gerir o tempo, porque tu também escreves tudo, quando fazes um programa ao vivo preparas-te antes?
FA: Não, eu quando faço um programa ao vivo, nunca escrevo. A minha preparação advém de ler muito, jornais e revistas, leio em função das pessoas que vou entrevistar, mas também para mim, para me alimentar cerebralmente. O resultado disso tudo faz com que tenha um verdadeiro interesse em saber sobre a pessoa que esta à minha frente, quem estou a entrevistar. Há um erro comum nos entrevistadores que é não ouvirem o que o entrevistado esta a dizer, faz com que estejam muito focados com as perguntas que preparam e não com aquilo que o convidado diz.

É como se fosse uma barreira?
FA: Não é como se houvesse algo de rígido em relação as perguntas. Sabes que a próxima pergunta é se sou do Benfica, o que é verdade e parece que não estas a ouvir o que a pessoa te esta a dizer e não colocas uma questão em função disso. Ora, as vantagens de um convidado perceber que tu estas atento ao que diz são muitas, primeiro, demonstras audácia, perspicácia e és rápido no tratamento dessa questão, geras automaticamente mais respeito e possivelmente mais um grau de exigência das suas respostas. Se fores previsível, sem chama e nada inesperado, podes fazer com que o teu convidado perceba que não és diferente dos demais e passas a ser vulgarizado pelo olhar da pessoa que entrevistas. Quando vêm pessoas a entrevistar-me e fazem-me perguntas clichés, tipo, fala-nos sobre um episódio marcante da tua vida? Ou numa banda, porquê se chamam assim? Ou qual é o vosso som? Isso demonstra que o entrevistador não tem o mínimo de conhecimento sobre quem esta a entrevistar e não vai ser tão respeitado quanto poderia ser.

Sim, isso é muito bom quando tens um entrevistado como tu que dizes uma série de coisas, ou outros que dão um enorme feedback, mas existem pessoas que são muito minimalistas no seu discurso e aí o que é que tu fazes?
FA: Eu costumo usar uma tática que é esta, nunca ponho a culpa no árbitro, eu nunca culpo o convidado. Porquê sou eu que estou que estou a fazer a entrevista? E não aquele senhor que anda pela rua? Não é por fazer a entrevista fácil, tanto o senhor que anda pela rua, como eu o poderíamos fazer entrevistar alguém como o Manuel Luís Goucha é fácil, porque é alguém que adora falar, qualquer pessoa o pode fazer. A diferença entre uma pessoa qualquer e eu é que vou salvar o difícil, é por isso que estas lá estas e te pagam ao final do mês, as pessoas pagam-me não para resolver um problema fácil, quando tenho um desses convidados que não diz nada, é monossilábico, tenho que salvar o programa. Eu dou-te um exemplo, há uns anos entrevistei um contador da história, como é óbvio perguntei-lhe se nos podia contar uma história, ele não quis e eu fiz cinco vezes esta pergunta ao longo do programa e cinco vezes ele disse que não queria contar uma história e eu tive de contar uma, o programa foi marcante para mim porque de facto foi isso que aconteceu. Tive que esforçar-me mais para salvar essa situação que é surreal, porque tens um contador de histórias que não te conta histórias e tens um programa de uma hora. Portanto, vais falar de quê? Acho que salvei o programa.

Quando terminas um programa, ou mesmo no ar, vais ver o feedback que recebes?
FA: Não, é muito raro. A questão é esta, não quero que qualquer tipo de comentário possa interferir com a minha audácia, coragem e que vá para casa a pensar sobre o que li ontem. Portanto, desde há uns anos que não leio nem as coisas boas, nem as más.

Vais corrigir o teu Wikipédia?
FA: Nunca fui ver, não sei como esta a minha Wikipédia, nem quero saber.

Já alguma vez foste ao google fazer uma pesquisa ao teu nome?
FA: Não, nunca fiz, nunca fui ver. Para mim passa o que as pessoas me dizem na rua, são as que me interessam. Não é a virtualidade.

Então quais são as principais características que um comunicador deve ter?
FA: Deve gostar de pessoas, deve saber comunicar com elas, mais do que falar, deve ouvir, esse é o grande segredo.

Porquê criaste uma editora só para humoristas?
FA: Porque não existia e achei que poderia ser uma boa forma de editar livros. Não havendo uma editora para humor achei que era uma boa forma de criar uma chancela diferente. Para mim não tem sentido nenhum, por exemplo, se houver um restaurante que vende atum, abrir um que só tem esse peixe e não outro, ou fazes uma coisa que seja diferenciadora, original e claramente algo que te realize, senão, não vale a pena, embora não tenha jeito nenhum para o negócio, portanto, estou à vontade para fazer isso.

Também ajudaste a criar um canal de televisão.
FA: Sim, sou uma pessoa criativa, nada passiva, não estou à espera que as pessoas se lembrem de mim, ou me convidem para projectos, sou eu me lembro de mim em primeira instância e depois proponho essas ideias as pessoas à medida que os vou criando. Sou muito dependente das minhas próprias ideias, que dependem de outras para as aprovarem, mas são minhas.

Como és uma personalidade pública há vários anos, na rádio e tv, deve ser mais fácil aceitarem os projectos que propões? Daí o canal Q?
FA: É possível que assim seja, é a ordem natural da vida, o reconhecimento pode no fundo nos dá uma respeitabilidade, mas a idade não é um posto, nem nunca será, nunca ouvirás da minha boca, agora não tenho que provar nada a ninguém. A vida é uma contínua prova, de não resignação. Percebi que com a idade tornei-me mais crítico ainda e menos resignado o que é uma coisa incrível, mas é verdade.

Tens menos medo de ser diferente também?
FA: Eu nunca tive medo de ser diferente. Nem menos, nem mais. Nunca tive. Sempre privilegiei à originalidade em detrimento de mais do mesmo. Não é de todo o meu objectivo.

Então, como é que te dividindo em mil e uma tarefas, tens tempo para ler…
FA: Sim, tenho uma vida. Isso é essencial.

E tens uma vida social?
FA: Sim, consigo ter.

És uma pessoas muito regrada nos teus horários?
FA: Não sou, mas sei criar espaços para minha vida e isso é fundamental.

E quando tens tempo para ler, já que lês tanto?
FA: Olha leio, por exemplo, à noite, quando me deito, leio uma hora. No domingo à noite, vou para a rádio e leio durante cinco a seis horas todos os jornais e tomo apontamentos sobre quem quero entrevistar.

E o que estas a ler à noite?
FA: Estou a ler um livro do Beckett que tem três romances, “O inominável”, o “Molloy” e o “Murphy”. Este escritor é uma espécie de Messi da literatura, eu gosto disso.

E ainda lês jornais e revistas em papel? Ou é tudo online?
FA: Geralmente leio muitos em papel.

Ainda compras?
FA: Não é preciso, como na rádio tem todos os jornais e revistas leio, mas compro muitas revistas, ainda não sou totalmente mitra, já não é mau.

E és do que acredita que a versão papel vai desaparecer dos meios de comunicação social?
FA: Acredito. Acho que não vai desaparecer completamente, mas vai sofrer um grande desgaste. Ninguém quer ler notícias de ontem quando só te interessam as de hoje.

E qual é o conselho que darias a um jovem que esta a começar uma carreira nesta área da comunicação, onde existe tanta dispersão e a informação flui de todos os lados?
FA: Acho que vai ganhar o que investir mais em si. Deve ler, deve esta mais informado e fazer cursos que o passam tornar mais forte que os outros. A ideia de ter um canudo e pensar que já não temos que estudar mais, francamente é uma ideia obsoleta. Acho que temos de estudar todos os dias, para evoluirmos, tornar-nos mais competentes e melhor do que outros, para desempenhar melhor uma função.

E ser polivalente? Como tu que estas disperso por várias áreas?
FA: Eu creio que a polivalência é importante, porque não estas seguro em apenas numa vertente. Muito mais nos dias de hoje, se te falhar uma valência tens outra, penso que é facilmente compreensível.

Tenho uma curiosidade, tu começaste nas chamadas rádio piratas, que já não existem, mas não só estas nesse meio, como fazes podcast.
FA: Faço podcast que são cada vez uma realidade para tu descobrires talentos na comunicação social sem precisares de ninguém, nem sequer de uma rádio para emitir. É cada vez mais difícil ir para uma rádio com um programa que te aceite, isso já não existe e é bom. Podes fazer rádio no “youtube”, tens os youtubers e isso faz com que sejas dependente de ti próprio.

E já reconheces algum desses novos talentos que andas a ouvir nos podcast ou no “youtube”?
FA: Não, eu que ando sempre alerta sobre isso e ainda não apareceu alguém que se destacasse nos novos talentos.

Achas que portugueses não os apreciam?
FA: Não, acho que há comunicadores óptimos, não vou dizer nomes porque acho que seria injusto com alguém. Temos muito bom talento, então, no domínio do humor temos muitos.

E quais desses talentos é que gostas?
FA: Temos o Salvador Martinha, Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira que não são novos talentos, estão é completamente sedimentados. São pessoas que me fazem rir muito.

Achas que os portugueses são hoje em dia mais receptivos a esses meios de propagação digital? Somos um povo que no início da internet não erámos muito receptivos à publicação de conteúdos.
FA: Claro que sim, hoje em dia, vê-se que os vídeos mais partilhados e comentados são os de humor. É claramente o meio de maior partilha e de maior reconhecimento na internet.

Então és fã do “youtube”?
FA: Não sou nada dependente do “youtube”, no sentido de ser grande fã, sou consumidor, mas não vou todos os dias.

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