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O pedagogo

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Raul Guerreiro é um professor pioneiro em Portugal sobre a arquitectura social básica da pedagogia Waldorf. Trata-se de um tipo de ensino que começa com os pais e os pedagogos, adequado ao meio histórico, geográfico e a religioso do país onde se insere. Não se trata de modelo alemão importado, é um tipo de ensino humanista universal que se adequa aos anseios das famílias de todas as classes e crenças religiosas e obedece à liberdade de escolha, só não aceita ateus.

Como é que começa o seu percurso pelo ensino Waldorf?
Raul Guerreiro: Há uma história breve por detrás, eu sou o primeiro professor Waldorf português há mais de vinte e sete anos. Naquela altura, depois do 25 de Abril de 1974, vi que o ambiente cultural em Portugal não tinha o que eu esperava para a educação dos meus filhos. Em busca de uma alternativa, eu ainda estava na universidade nova de Lisboa a estudar filosofia e depois psicologia aplicada, descobri os princípios da pedagogia Waldorf e dei uma volta completa a minha vida. Abandonei o país com a minha esposa, que era alemã e foi para Estugarda para fazer a formação.


Então o que faltava na educação no nosso país que o fez mudar para outro tipo de pedagogia?
RG: Primeiro, era uma relação a mais íntima possível entre o professor e o aluno, especialmente ao que era individual em cada criança. No sistema estatal são tratadas colectivamente e essa individualização é algo dificílimo, essa é uma das artes de ensinar Waldorf e basicamente isso foi decisivo para mim. Também houve um passado em que família abandonou Portugal nos anos 40 devido à ditadura e fomos todos para o Brasil é por isso que tenho um resto de sotaque brasileiro. Passei mais de 22 anos em São Paulo e quando voltei para Portugal conheci a minha mulher.


Mas, após o 25 de Abril de 1974 o ensino não melhorou em Portugal? Porque antes da revolução dos cravos era um sistema muito castrador.
RG: Sim, era uma coisa terrível, um cemitério no período da ditadura. Nos pós 25 de Abril houve uma estado caótico por causa da liberdade, como se fosse uma juventude na puberdade que explode e então tem de ser fazer asneiras, a liberdade é absoluta. Esse momento não trouxe uma ordem, ou uma reforma para o ensino. Seguiu-se um esquema básico, já não é uma ideologia semifascista, mas criou-se uma estratificação onde as crianças são como sardinhas em lata á espera de serem enchidas com conhecimentos. Este modelo em que as crianças são servidas de informação que tem de acumular e ainda mais fazer um exame onde uma pessoa pode dar-lhes cinco ou não, isto para mim com o conhecimento que tinha da educação era um horror. Foi decisivo para tornar-me professor numa pedagogia alternativa, totalmente revolucionária como é a Waldorf.


Então, após a revolução, volta para Portugal e depois foi difícil introduzir o modelo Waldorf em Portugal.
RG: Ainda cheguei a arrancar as palavras Salazar da ponte sobre o Tejo com um martelo. Mas, sim foi muito difícil, mas não é caso para lamentarmos, porque não foi caso único, é típico quando há uma novidade tão grande. Primeiro, porque a Waldorf nunca é fundada por pedagogos. A iniciativa tem de partir dos pais, em particular, das mães. Conforme acabei o curso em conversa com os amigos, fiz contactos à espera que houvesse o mínimo de interesse em Portugal, nem que fosse reuniões para saberem mais sobre a temática, mas nunca aconteceu. Após ter trabalhado 11 anos em escolas na Alemanha, em inglês, francês e introdução as madeiras, mantive constantemente contactos com amigos em Portugal e aos poucos foi surgindo uma ideia básica, que foi muito saudável, no fundo um grupo de estudos entre pais e mães dirigidos para a criação de um jardim-de-infância. Hoje, há 3 anos existe a primeira escola Waldorf no Algarve, chama-se a escola livre, a Oliveira, entretanto, existe mais uma nos arredores de Lisboa. Durante o tempo em que estive na Alemanha dediquei-me ao futuro, o que posso fazer em nome da pedagogia Waldorf e tornei-me membro do conselho nacional, que estimula o trabalho desenvolvido por 230 escolas com centenas de milhares de crianças. Actualmente a pedagogia Waldorf está espalhada pelo mundo, com mais de 1000 escolas e 2400 creches.

O que é que os pais querem quando o abordam?
RG: A busca número um, não é por si só o pedagogo, portanto, surge quando estão a ser servidos por uma instituição escolar e a criança apresenta sinais de alarme, as primeiras lágrimas. Os pais, pela primeira vez na sua vida, interessam-se por saber afinal o que se passa na escola? Ai, tornam-se membros das associações e começam a perceber a dinâmica das escolas, o ambiente social até político. Esses encarregados de educação por amor aos filhos tentam entrar nas orgânicas das escolas, quando se apercebem do horror, pretendem outra educação.


O que diferencia uma escola Waldorf de uma pública?
RG: É uma revolução, é algo espantoso. Primeiro, não há um director, todos os professores reúnem-se religiosamente uma vez por semana durante horas, é a direcção dos pedagogos, são eles que decidem tudo. Em segundo lugar, o facto de que pais e mães, simultaneamente com os professores são os donos e administradores da escola. É uma instituição sem fim lucrativo, não ganha um centavo.


Outro dos aspectos desta pedagogia é a ausência de instrumentos tecnológicos, nomeadamente calculadoras e computadores, incentivando à criatividade.
RG: Existe um mal-entendido quando alguém faz uma visita, em todas as religiões e origens, quem nos visita assiste a harmonia e imagina que esse ambiente colorido de pinturas é o ensino Waldorf, apenas é um acompanhamento. A nossa regra número um é o respeito pela idade da criança, não se insufla o aluno, de português, matemática e ou física, de nenhum conhecimento, nenhum estímulo que não esteja de acordo com o seu nível etário. É um aspecto importantíssimo. Os computadores, os bens electrónicos é apenas um desses elementos. A pedagogia Waldorf é uma extensão natural e cientifica da antropologia, os pensadores pedagogos Waldorf que tiveram a coragem de alargar os seus conhecimentos chegaram a conclusão, antes desta era informática, que a exposição passiva a bens electrónicos era um detrimento absoluto para a educação. Então, o nosso não é um princípio anti tecnologia, mas pedagógico absoluto. O mundo das novas tecnologias está ao serviço dos adultos e nas crianças há um momento correcto para serem introduzidas nesses novos instrumentos de trabalho.


Outras das questões que se levanta é a leitura. As crianças apenas aprendem a ler ao seu próprio ritmo. Essa é sempre uma preocupação muito patente nos pais.
RG: Infelizmente isso faz parte de um tsunami de uma série de interesses económicos, ou de interesses políticos que dita que a criança deve ser preparada rapidamente para a vida, porque é uma luta pela sobrevivência. Estimula-se nos pais uma espécie de medo, de dúvida sobre esta questão, há um ditado africano que é exemplar nesta matéria, uma relva não crescer mais rápido puxando-a. Toda essa fantasia de induzir uma criança a saber escrever aos cinco anos se for uma brincadeira é legítimo, mas quando uma escola se dedica a um amadurecimento prévio, isto é danoso para o cérebro, não terá efeitos imediatos, até pode ser uma criança genial, o resultado final deste amadurecimento precoce aparece na vida adulta após os 28 anos, como um elemento antissocial que vai ser prejudicial para a sociedade.


Então como é que lidam com as crianças com dificuldades de aprendizagem, com deficiências, como é que as acompanham?
RG: Existem dois tipos de deficiência, uma crónica ou médica que exige um internato, nesses casos faz-se uma pedagogia curativa e depois existe a escola normal, desde há 50 anos, temos crianças de todas as classes nas nossas salas de aulas, seja um lavrador, ou um director de uma universidade. É uma mistura de qualidades, inclusive de dificuldades. Isto tem um valor educacional incrível, numa escola Waldorf onde não há chumbos, nem notas, quando há a presença de uma criança com deficiência, ou com dificuldades de aprendizagem a camaradagem, a partir da primeira classe, atrai o amor dos colegas de classe, não é o professor, ou psicólogos, que vão fazer um esforço enorme para cuidar dessa criança, são os alunos que começam de forma inata a ajudar o seu colega que não sabe escrever, ou fazer contas.


Outra das questões que se abordam é a passagem da escola Waldorf para a escola pública, nomeadamente, para a universidade, onde há exames e aí os alunos estão em desvantagem em relação aos outros porque não seguiram um programa educativo formatizado.

RG: O ensino Waldorf começa no jardim de-infância e depois o escolar vai até o 12º ano do liceu, sem chumbos e sem notas. A partir desse ano, o professor vai verificar que os alunos têm uma tendência intelectual para uma determinada área, ou o jovem já expressou essa ideia, então existe um 13º ano de preparação para os exames da universidade. De resto, o currículo Waldorf é basicamente igual ao normal.


E o que acontece quando os pais pretendem mais cedo retirar as crianças do ensino Waldorf e coloca-los no ensino público?
RG: Isso é realmente difícil voltar para a escola pública, o contrário não. O Waldorf pode receber qualquer aluno vindo de fora que não tem qualquer dificuldade em inseri-lo, a criança sente até um alívio enorme, sente-se fora de um jugo, de uma burocracia que invade o ensino público e que não existe no nosso tipo de ensino. É uma libertação da alma infantil, o contrário é que já não é verdade. A criança passa a ter dificuldades porque se tem de adaptar ao esquema dos exames, que aliás é criminoso. Todos os estudiosos e pedagogos que estudam estas matérias acham que isto é um resto dos tempos medievais. A última ministra da educação em Portugal deu um incentivo nessa matéria dizendo que temos de direcionarmos para um ensino baseado no desenvolvimento de competências. Quando uma criança sai do ensino Waldorf, forçosamente por causa de um problema familiar, ela sente dificuldade em ajustar-se as regras rígidas de uma escola pública, ao mesmo tempo, torna-se uma personalidade brilhante em tudo o que é criatividade. Essa capacidade que os alunos Waldorf trazem consigo, os intelectuais perguntam com frequência: para que servem pessoas que saibam pintar, tocar instrumentos, quando necessitámos de engenheiros e cientistas? Actualmente com a globalização da vida económica e académica verificou-se que um individuo com 28, 30 anos numa posição de relevo, ele vê-se confrontado com diversos tipos de problemas e toda a sua preparação académica quase não serve para nada, porque não trouxe as competências que o mundo social e político deseja. A capacidade de ajustamento a situações anormais, mesmo para dirigir uma grande empresa necessita de flexibilidade e criatividade, isso é cultivado na pedagogia Waldorf.

 

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