Destinada à clausura

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É o mais recente livro de ficção da escritora Maria Helena do Carmo que aborda a vida da mais linda freira do Convento de Santa Clara e de toda a Ilha da Madeira, Maria Clementina de Vasconcelos que sofreu a clausura por sujeição à autoridade paterna, viu limitada a sua liberdade pela condição da mulher na primeira metade do século XIX e pelas revoluções políticas da época.

Porquê decidiu escrever sobre a vida de Maria Clementina?
Maria Helena do Carmo: Foi uma sugestão do Duarte Mendonça para que escrevesse sobre a Maria Clementina de Vasconcelos, quando vim apresentar em 2015 o livro “Bambu quebrado”. Como já tinha um livro sobre o quotidiano madeirense e que a abordava fui investigar outros livros e depois é que escrevi a sua história, porque esteve para casar, entretanto, como adoeceu não conseguiu e acabou por estar toda a vida enclausurada num convento.

Focou que era um romance, portanto há uma grande parte de ficção, que são os sentimentos dela, embora tenham sido 18 anos de clausura, apenas se centra num ano específico.
MHC: Ela esteve mais de um ano e meio fora da clausura, porque estava doente, isto já depois de 1834, em que o liberalismo permitiu aos frades de saírem dos mosteiros, não as freiras. Contudo, elas tinham a oportunidade de vir cá para fora, ou se a família lhes dessem apoio. No caso de Maria Clementina, ela saiu para se recuperar e foi nessa altura que ela pode analisar o buliço e actividade da cidade que ela ouvia no convento e que não conhecia. Também nesta época, ela já não tinha idade para casar, saiu com 31 anos de idade e voltou para o convento com 33, portanto, não era uma altura propícia para um enlace matrimonial, por isso, decidiu voltar para à sua clausura, mais calma e sem aquela ansiedade de ver o mundo cá fora.

Porquê a escolha desse período da vida dela?
MHC: Porque nesse período, entre os 31 até os 33 anos, ela retorna mais consciente do que a vida dela terá de ser ali, no convento de Santa Clara.

Fez imensa pesquisa sobre a vida da freira mais bonita da Madeira, nesse percurso houve algum facto que a surpreendeu?
MHC: Alguns livros, sobretudo os estrangeiros, como o de John Drive, diziam que ela era a filha mais nova do casal Vasconcelos, enquanto, que o livro de João do Nascimento indica que ela era filha mais velha. Este desencontro entre ser a mais nova ou a mais velha obrigou-me a reformular toda a história do romance, porque sendo a mais nova teria que ter uma outra origem do que se fosse a mais velha, ainda por cima ela nasceu cinco meses e meio antes do casamento dos pais.

E conseguiu obter provas que de facto isso foi o que aconteceu?
MHC: Não, embora há os registos de casamento e de nascimento, não tenho provas, isso aí já entra a ficção, não há provas de ela ter tido outra origem.

A Maria Helena do Carmo escreve muitos livros sobre mulheres, em termos histórico, agora já se vai notando mais publicações sobre mulheres em pontos-chave da história.
MHC: Eu comecei com uma senhora do século XVII Dona Catarina de Noronha, porque foi um trabalho que fiz para a universidade, tinha 30 páginas, então, resolvi fazer um romance sobre a vida dela com mais de 300 páginas.

O que atrai nestas mulheres?
MHC: Muita coisa, a Yvette é uma mulher jovem, tem toda a liberdade, não tem restrições e não entende do mesmo modo que eu que vivi numa época em que as mulheres não tinham liberdade para nada. Nesse contexto, reconheço uma época em que muitas mulheres levaram vidas contrariadas, ou porque os casamentos eram fomentados pela família, ou eram muitas vezes obrigadas a casar, sobretudo se houvesse um deslize, isso obrigou-me a encarar a falta de liberdade da mulher como um tema interessante em que eu me poderia debruçar. Acho isso muito importante, porque nunca antes uma mulher teve tanta liberdade como hoje e infelizmente algumas não sabem aproveitá-la, temos a oportunidade de sermos o que quisermos na vida e outras abusam dessa liberdade passando do 8 para o 80, recriando o antigamente para a actualidade.

E a Maria Clementina era uma dessas mulheres?
MHC: Ela foi contrariada, foi posta no convento por vontade dos pais. O que ela queria era vir cá para fora, casar, ser mãe e não foi assim quando teve uma hipótese, adoeceu e não foi possível cumprir o sonho. A política também acabou por desmanchar tudo e ela voltou a ficar destinada à clausura.

Quanto tempo levou desde a pesquisa até a escrita do livro?
MHC: Não levei muito tempo a escrever, levo imenso tempo a pesquisar, por vezes ando um a dois a anos a ler, por exemplo, “Os mercadores do ópio - Macau no tempo de Quianlong” levei cinco anos a pesquisar. Depois, antes de escrever já tenho um esboço e a partir daí vou preenchendo a trama, em 3 a 4 meses posso ter a obra escrita e revista. O “Destinada à clausura” levou alguns meses a escrever, foi-me sugerido o tema em 2015 nessa altura ainda tinha outros trabalhos entre mãos e só comecei a pesquisar em 2017, no arquivo regional e o romance ficou completo ao fim de 3 a 4 meses.

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