Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Notícias do bloqueio

Escrito por 

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval,
a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
os dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva e a esperança reproduz-se.

Egito Gonçalves não é um dos nomes que nos salta à memória quando se fala de poesia em português, mas cabe-me abordar este autor por dois motivos, o primeiro prende-se pelo poder das suas palavras, a sua capacidade de moldar o pensamento, de transformar os seus versos em hinos à liberdade, ou a falta dela, de tentar impedir o entorpecimento de uma sociedade fechada sobre si mesma através dos seus poemas e nada melhor para ilustrar essa ideia do que, “Notícias do bloqueio”. Editado a partir dos anos 50, este é um dos fascículos de uma série de nove que foram publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção deste poeta, de Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro e que surgem num Portugal onde a ditadura se fazia sentir no rasurar dos textos pelos censores e pela constante pressão exercida sobre os intelectuais desta época e este autor é porventura um dos rostos menos reconhecidos de uma geração de escritores que não se remeteram ao silêncio cúmplice de um sistema político opressor. Foi acima de tudo um homem dedicado à cultura, tendo-se destacado para além da poesia, na área da edição e tradução de textos, daí o destaque desta obra e eis o meu segundo motivo, este livro aborda uma poesia que reflecte à sua época, são poemas de resistência, do combate ao silêncio imposto pelo Estado e que aludem o cerco sombrio que a polícia política impunha as vozes mais críticas deste período e isso reflecte-se na poesia de Egito Gonçalves. Boa leitura.

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