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Sou eu mais livre, então

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Trata-se de um diário sobre um preso político angolano, Luaty Beirão. Um relato, na primeira pessoa, que servem como testemunho do quotidiano dos 13 dias que esteve preso numa cadeia de Angola e que ainda inclui uma entrevista a Carlos Vaz Marques onde aborda os 36 dias de uma greve de fome que o deixou em perigo de vida.

Este é um diário sobre o período em que esteve preso?
Luaty Beirão: Na verdade são 13 dias em que tive acesso a um caderninho e uma caneta no ano que lá cheguei. Depois é compensado com uma entrevista mais aprofundada do Carlos Vaz Matos em que se aborda o que não esta registado no diário. São basicamente pensamentos, letras de música, coisas da próxima visita que tinham de me trazer, tem de tudo um pouco, é muito misturado.
É o relato de um ano?
LB: Tem um hiato de 3 meses de prisão domiciliária, depois da condenação voltámos para a prisão onde ficámos desde o dia 20 de junho 2015 até que fomos soltos no dia 29, um um ano e nove dias depois.
O que mudou em Angola?
LB: Tem vindo a mudar, houve um salto desde este período em que estivemos presos. Existe um lento despertar de consciência, um tímido calar do medo, há uma inversão em como as pessoas se relacionam com o seu próprio medo, elas começam a falar mais e protestar mesmo que seja em espaços mais reduzidos como as redes sociais, ainda não se transporta para a rua, mas sente-se que esta a desaparecer aos poucos. O caminho faz-se caminhando e um passo de cada vez, também não sei se seria muito bom que tudo fosse tão repentino, não sei se saberíamos gerir uma mudança do dia para a noite, esta a ser como tem de ser e esta a correr bem. Não consigo quantificar um tempo para que essa mudança aconteça, sei que já não será para nós, somos os agentes de mudança, mas não sei se será imediato, temos é que provocá-la.
E Portugal deve ser agente nessa mudança?
LB: Se Portugal não fosse conivente seria bom, não pode fazer mais do que isso por questões de soberania. Não calar processos que existem aqui, por causa de crimes que foram cometidos lá. Gostam de dizer que os poderes são separados, mas nem sempre é assim, lá como cá, mas o papel de não ajudar os que lá estão já é alguma coisa. É bastante.
Tem uma vida normal em Angola?
LB: Não existe uma vida normal em Angola. Nem estas pessoas que se vêem a esbanjar milhares de euros em relógios vivem normalmente. Uns vivem em redomas, atrás de muros, saem com carros blindados o que não é normal e os outros vivem num outro extremo à procura de água, luz e comida, coisas básicas para a dia-a-dia. Nada disto é normal. Mas, percebo o que me quer perguntar, se sou incomodado, ou seguido, acho que o sou de uma maneira mais discreta, antes via quando saia para a rua quem me ia seguir, mas tenho a noção que eu e os outros somos monitorizados, aprende-se a viver com isso também, não é normal, é a vida que temos.

Voltando um pouco ao diário, trata-se de um registo de 13 dias em que também refere escreveu para não enlouquecer.
LB: Eu estava confinado a uma solitária, não sei se foi bem para não enlouquecer, não sei o que teria acontecido se não tivéssemos acesso a livros e a escrita, não sei como teria lidado com uma cela durante 3 meses, iria haver algum impacto ao nível do meu estado psicossomático. Bom, felizmente ao fim de três dias tivemos livros, cadernos e canetas, que depois foram sendo retirados quando invadiam as celas e às vezes levavam os cadernos e as canetas. Chegou um ponto em que não tinha mais vontade de escrever, porque não sabia se voltaria a ver os meus escritos. Esse caderno que saiu foi uma sorte, alguém que já tinha a experiência de estar preso em Angola sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde e conseguiu camuflar o caderno numa coisa saiu e que foi para a cidade. Eu estava a 100 quilómetros da cidade.
Acha que o seu grito acabou por inspirar mais pessoas não só em Angola, mas em outros países?
LB: Não sei se poderia dizer que inspirou outras pessoas um pouco por todo o mundo, ou em Angola e que isso esta a transformar alguma coisa. Não estou muito preocupado com o ego, a vaidade, esta coisa do eu, não gosto muito de falar disso. Não estou sozinho, mas se o que estámos a fazer esta a transformar, isso seria óptimo, não por uma questão de vaidade, espero não me contagiar com isso. O que se esta a conseguir é a transformação social num ambiente político que é hostil, acho que isso é muito superior, seja por acção individual, ou seja de quem for.
Mas, ajudou dar a conhecer o seu caso.
LB: Lá esta a estupidez dos regimes totalitários de não se darem de conta dos limites e a visibilidade que se pode dar a um grupo de pessoas que até é pequeno e insignificante e que passam a ter um palco e um espaço. Foi sem dúvida o grande holofote mediático mundial que acabou por reverter a nossa situação, senão fosse isso, estaríamos na cadeia até hoje.
Foram 36 dias de uma greve de fome, quais foram as sequelas físicas e psicológicas que ficam? As crónicas ajudaram nesse sentido?
LB: Não, porque o escrevi antes. Aquilo foi escrito no primeiro mês, a greve de fome acontece no terceiro mês de carcere, felizmente quando fui fazer uma série de exames a seguir não apareceu nada que me tivesse afectado, foi milagroso. O médico avisou-me ao 30º dia que estava tudo aparentemente bem, mas a partir daí tudo conta, podia ter falência de órgãos em cascata.
E a nível psicológico ficaste com receio de espaços fechados? Ou de estar sozinho?
LB: Não, gosto de estar sozinho, se calhar foi por causa disso que a solitária não me afectou tanto, tive muitas coisas positivas no meio deste transtorno. Foi sobretudo à minha família que sentiu mais. Eu fui “bem tratado” na prisão, a minha mulher até me levava salmão. Parece até que estou a minimizar a gravidade da situação, mas eu prefiro olhar para o que houve de positivo, tive tempo para ler e estive informado sobre a revolta que houve na sociedade e como a começou a transformar. O pior para mim foi estar afastado da minha filha.
Acha que as condições que teve na cadeia que acabou de referir surgiram porque o seu pai foi uma figura pública em Angola?
LB: O meu já faleceu em 2006 e os meus colegas também estavam em celas solitárias, privados de ver-nos, eu até fui adicionalmente privado de ter visitas depois e houve um episódio de revolta pela forma como nos estavam a tratar. Mas, nesses 3 primeiros meses todos os que tiveram na mesma prisão do que eu, sofreram o mesmo tratamento, não houve nada diferenciado.
Então o que notou é que graças a uma campanha internacional houve um tratamento diferente? Porque outro tipo de presos que não tiveram os holofotes mediáticos e as acções de organizações não governamentais por detrás teriam recebido o mesmo tratamento?
LB: Eu tenho a certeza quase absoluta que sim, não o posso comprovar, teria sido diferente senão fossem os holofotes mediáticos. Eu conheço pessoas que neste momento são presos políticos que não estão a ter o mesmo tratamento. E quanto mais eles podem torturar as pessoas, ao priva-los dos seus direitos plasmados na lei prisional, eles fazem-no sem hesitar. Só quando as pessoas conseguem passar a mensagem cá para fora é que eles acabam por ceder. Tenho a noção com toda à atenção que tivemos eles tiveram mais cuidado, mais ou menos.
E as pessoas que referiu que estão presas e a sofrerem todo o tipo de tortura, o Luaty é a sua voz cá fora agora?
LB: Não gosto de me arvorar da voz. Eu sou mais um, é o que tenho tentado ser e não ser singularizado dessa forma. Portanto, continuo a fazer o que fazia antes de ser preso e colocar o foco nas injustiças que acontecem em Angola, mas de maneira nenhuma me considero representante dessas pessoas. Se me considerarem um deles já me considero reconhecido.

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