Comprar ou não comprar? Eis a questão!

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É mais um texto que pretende desconstruir a ideia de um consumo responsável no que concerne a moda.

Desde que me conheço como mulher sou uma ávida consumidora de moda e como não poderia deixar de ser sou uma grande fã das promoções e dos saldos, porque me permite comprar àquelas peças que tanto desejo a um preço muito mais acessível e quanto maior o desconto melhor, gosto mesmo de pesquisar até a exaustão e nada me mais prazer do que encontrar “pechinchas” e aproveitá-las. Achava que eu que desta forma não só conseguia o que queria, como também de certa forma as empresas de vestuário não faziam um lucro descarado à custa da minha “compulsão” por roupas bonitas e assim o preço practicado era mais justo, pensava eu, bem, aprendi uma dura e grande lição com o “The true cost” é que não poderia estar mais errada!
O documentário mostra uma visão ampla do mercado global da moda como a reconhecemos actualmente e as suas consequências sociais e ambientais para o planeta. “The true cost” segue o trilho das peças de vestuário desde as grandes lojas até o manufacturador e a verdade nua e crua sobre a realidade dos custos de produção de uma camisola que custa 5 euros comprados numa H&M, Primark, Zara, C&A, ou na Forever 21 entre outras empresas, feitos à custa do outsourcing da produção para pequenas e médias empresas radicadas em países do terceiro mundo, mas perguntarão como é que isso constitui um problema se cria postos de trabalho?
Pois bem, embora, todas gostemos de pensar que ao comprar uma camisola made in Bangladesh, ou in India, ou Marrocos que estamos a ajudar indirectamente à criação de emprego e promover o desenvolvimento económico destes países, a realidade é que nada disto é sustentável quer do ponto de vista social, ou ambiental e passo a explicar, a mesma camisola que nas lojas destas grandes marcas mundiais será vendida nos países mais desenvolvidos aos tais 5 euros, tem de ter forçosamente um custo de produção muito mais abaixo desse montante, tendo em vista a maximização da margem de lucro e o que isto implica? A garantia de uma produção massiva de milhares de camisolas numa empresa no Bangladesh, ou na Índia, ou mesmo em Marrocos que tem de ser feita à custa do valor do trabalho, implica também condições de trabalho deploráveis para dizer o mínimo, isto sem falar da não existência de regras de segurança, ou benefícios de quaisquer género para os trabalhadores, com a vantagem que nada disto acarreta quaisquer tipo de responsabilidades por parte das grandes marcas de vestuário ou em última análise, de nós, os consumidores.
As consequências ambientais, por outro lado, são mais graves do que se pensa, sabia que a moda é a segunda indústria mais poluidora do mundo, vindo logo depois do petróleo? Pois é, as lindas cores das nossas roupas, os efeitos de certos tecidos, o tratamento para o couro dos nossos sapatos, carteiras e casacos utilizam químicos pesados que simplesmente são despejados nos rios, ou no mar com consequências não só para o meio ambiente e a saúde pública das populações dessas nações, como graças ao famoso efeito borboleta, o clima, a vida e a saúde das populações do outro lado do mundo, ou seja, nós!
Outros dos danos não tão visíveis, mas com consequências nefastas tão ou mais para o meio ambiente e para as populações locais advém dos restos das colecções que não são vendidas. Ao contrário do que possa pensar a maior parte das peças não são recicladas, muito pelo contrário, são encaminhadas em grandes contentores para países de terceiro mundo, através de organizações não governamentais, onde são dadas ou revendidas localmente e mesmo assim há imensas sobras que acabam por constituir um problema ambiental sob a forma de pilhas de lixo altamente poluente. Mas, deverá estar a pensar, que culpa tenho eu que os governos desses países não ajam e protejam os interesses dos seus cidadãos e do meio ambiente?
Temos responsabilidades, mesmo que indirectas em tudo isto, porque os danos a longo prazo são para todos. Como sabe, só temos este planeta e se continuarmos a fechar os olhos para aquilo que considerámos ser um problema dos outros estamos a contribuir para a destruição de um património natural global que é finito. E quando acabar o que vamos fazer? Viajar para Marte?
Para além disso, já pensou que a sua camisola de 5 euros reflecte o seu baixo poder de compra? E o índice de pobreza dos tais trabalhadores do terceiro? Se só temos capacidade financeira para consumir moda a baixo custo, tendo por base o baixíssimo salário de um trabalhador do Bangladesh que é menos de 1 dólar, é porque ganhámos mesmo menos do que pensa, trata-se mesmo de um logo criado pelas grandes marcas que lucram de facto com o incentivo a um consumo desenfreado fazendo-nos pensar que conseguimos comprar o que queremos, mas esta é uma ilusão que a um prazo mais curto do que se pensa é destrutivo para todos.
Já pensou também que este tipo de consumo contribui para a morte das pequenas e médias empresas do sector no seu país? A constante mudança de colecções, a chamada “fast fashion”, que já não tem em conta as estações, mas sim, as tendências, acaba por ter um custo muito elevado para os empresários nacionais que não conseguem muitos deles fazer face ao constante investimento em termos de produção de peças, porque acha que muitas fábricas têxteis estão deixando de laborar? Não é em muitos casos por falta de clientes, é porque é muito difícil produzir várias colecções com um determinado custo mais de duas vezes por ano, ou seja, não conseguem competir com as grandes marcas que colocam nas suas lojas novas peças de vestuário a um ritmo difícil de equiparar e com os mesmos preços. Em última análise, este modelo de economia global acaba por beneficiar uma restricta percentagem de pessoas e cria mais pobreza do que se pensa, então o que fazer?
Consumir de forma responsável, comprar muito menos e perguntar-se preciso mesmo de mais uma camisola cor-de-rosa? É necessário incentivar as marcas a reciclar deixando uma menor marca de carbono, exigir um tratamento mais ético a forma como os seus produtos são produzidos. Não me interpretem mal, não sou contra o mercado global, devemos ajudar estes países de terceiro mundo a desenvolver-se, mantendo as nossas indústrias viáveis, através de formas mais justas de comércio. Basta não comprar, ou pelo menos adquirir marcas com um modelo de negócio mais sustentável e benéfico para todos, pelo bem do nosso planeta, da nossa consciência e do nosso bolso.

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