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A acústica dos les saint armand

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“Nó” é o título e single que apresenta o primeiro EP da banda nacional, que embora exista há dez anos, só em 2106 decidiu apostar na sua sonoridade acústica com raízes portuguesas, mas que também alberga influências musicais do mundo.

O álbum “Nó” tem muitos temas com a guitarra clássica, algumas das canções são até bastante compridas, com quase sete minutos de duração. Quando compuseste os temas para estes álbuns começas pela construção das melodias?

Tiago Correia: Sim, nós temos uma espécie de premisa que é tudo é acústico. A essência e a origem da banda consistiam em duas pessoas com a guitarra clássica, com as vozes e uma harmónica e quando começámos a envolver mais elementos, não quisemos “cair” na electrónica, nem usar guitarras eléctricas, porque sempre acreditámos pelo menos na nossa música. Na altura não havia este boom de bandas a cantar em português, as nossas canções deveriam funcionar nessa simplicidade, ou seja, deviam fechar-se em si mesmas pela melodia e pelo acompanhamento clássico. Assim, em vez de ser pensar num tema, num certo tempo colocar uma bateria, acolá uma parte de contrabaixo, não, o foco sempre é na melodia, na letra e no que queríamos transmitir.

Tu crias as melodias com o António Parra.
TC: Sim, inicialmente as melodias eram criadas pelos dois e por isso havia uma criação conjunta. Entretanto, acabámos por seguir as nossas vidas. A banda existe há dez anos e muita coisa foi mudando, uma grande parte dos temas são feitos na guitarra, depois críamos a melodia e os arranjos são feitos por todos em conjunto, é questionada por todos, é uma espécie de composição por camadas.

A melodia e as letras são feitas em paralelo? À medida que crias o som, vão surgindo as palavras?
TC: Sim já aconteceu com alguns temas que começaram pela guitarra, mas vão-se transformando um ao outro. A letra vai sofrendo alterações conforme aquilo que a música pede e também a melodia pode ser adaptada em função das palavras. Não criámos separadamente a melodia e depois juntámos a letra à força. É um trabalho em sintonia, há a necessidade de sublinhar determinadas palavras, dar mais valor a uma do que outras, é tudo feito no sentido de potenciar a canção no seu todo.

Então, como tem esse processo musical por camadas, com certeza, ao longo destes anos e tiveram muito tempo para practicar até chegar a este primeiro EP, o que regeu a escolha dos temas no “Nó”.
TC: De facto temos mais de 30 temas e os nossos concertos são de uma hora e meia, já com 15 músicas e há cinco anos era assim nos concertos. Ao longo do tempo houve elementos que saíram, estivemos algum tempo parados, depois voltámos, mas erámos só três, foi nessa fase que estivemos a trabalhar muito detalhadamente as vozes, os coros e esta linha de guitarras. Na altura estávamos sem contrabaixo e bateria e chegámos a 2012, 2013 com mais de 20 concertos, mas nunca durante esse período de tempo lançámos nada oficialmente e a determinada altura foi mau, em termos de oportunidades. Quando aparecemos como banda não havia o boom da música portuguesa cantada em português, os “Orquestrada”, o “B Fachada”, o Samuel Úria, os “Diabo na Cruz”, esses músicos não tinham lançado nada, mas naturalmente surgiu essa necessidade de escrever em português e apesar de não termos tido nenhuma ligação com eles, tornou-se uma moda. Ao fim de nove anos percebemos que temos 30 anos practicamente todos e as nossas vidas mudaram, três elementos são do teatro, portanto, temos sempre quotidianos com horários complicados, a música foi sempre uma actividade paralela e depois decidimos que não podia ser, não tínhamos as músicas registadas e tínhamos que lança-las e disponibiliza-las ao público. Os nossos temas já foram tocados por muitos músicos e sentimos pelo menos essa responsabilidade em relação as pessoas que nos acompanharam, durante estes dez anos, em dar-lhes a possibilidade de guardarem esses temas. Quando partimos para o “Nó” era porque não tínhamos capacidade de gravar um álbum, então, decidimos começar com o EP e tentar de uma forma séria e activa preparar um disco com mais de 10 ou 11 temas que também é a nossa história e quem sabe mais o que teremos para contar. O “Nó” surgiu não tanto por ser àquele álbum, mas decidir que músicas que íamos trabalhar com os novos elementos que entraram na altura, o Alex Rodrigues na bateria e o Aníbal Beirão no contrabaixo. Decidimos escolher 6 temas que para nós faziam mais sentido, foram as músicas mais recentes, sacrificando as canções da primeira fase da banda e deixando-as para a próxima oportunidade. A ideia é mostrar qual é a nossa linguagem agora, o nosso potencial na composição, essa viagem nos temas mais longos, são canções que nos tocam e pensámos muito nisso, ser uma espécie de viagem do início até o fim, passando por várias atmosferas em que há um períplo por esse som.

Porquê o título “Nó”?
TC: Precisamente por isto, além de ser o single, tem a ver com a metáfora de compromisso, não sei se conhece a expressão dar o nó?

Sim.
TC: E, portanto, era uma metáfora para isso, agora, viemos para ficar e para levar este projecto a sério como outro qualquer nas nossas vidas. É uma espécie de compromisso com connosco, com o público e as pessoas que nos seguem e desta vez não parámos para recomeçar de novo, viemos para ficar. Ao mesmo tempo é o oposto, a dificuldade que foi lançar o EP, tantos anos a tentar sem conseguir, demos este passo essencial que é gravar e entrar no circuito musical.

Um dos temas não tem título, a única vez que tinha visto algo sim foi nas exposições de arte.
TC: Viemos quase todos do teatro, alguns são músicos de jazz, mas foram as últimas pessoas chegar ao projecto. Vemos a criação artística seja no que for e a vemos da mesma maneira e talvez por isso uma música para nós é um quadro, um filme ou peça de teatro. A música tem este poder de em 3 a 4 minutos chegar as pessoas, de as tocar profundamente, o que uma peça de teatro faz numa hora e meia. A música tem esse poder com palavras, ou mesmo poucas, de conseguir chegar as pessoas. Esta sem título também, porque é um tema que costumámos chamar de raiz, porque é uma música que fala de uma mulher no presente que é rainha da paixão, que esta por cima de todas as coisas e talvez por isso preferimos não colocar um título, porque rainha seria demasiado.

Demasiado pretensioso?
TC: Sim e pomposo, por ser uma coisa que não é possível nomear, seria redutor chamar todo aquele poder feminino, é diminuidor até chamá-lo de rainha. Por isso se chama “sem título” é uma espécie de ironia.

Neste momento estão em tournée pelo país para apresentar o “Nó”, então tocam as seis músicas do álbum, mais os 30 temas que referiste?
TC: Não, para já temos um alinhamento de 15 canções, estámos a desvendar o que será muito do próximo álbum. Estámos a rodar muito para tornar a banda mais coesa e que o próximo disco tenha essa mesma energia.

O próximo terá sempre como pano de fundo esta melodia acústica, continuam com essa linha?
TC: Sim, primeiro queríamos por cá para fora os novos temas, mas temos cantado uma canção de 2008 e que vislumbra o que é o futuro da banda, mas não queria desvendar muito sobre o próximo álbum, porque estámos a presentar o “Nó”. Queremos mostrar as potencialidades da canção, de que forma se pode desconstruir sem perder as suas raízes, o seu lado mais essencial que é a poesia cantada. Também estámos a explorar como a canção se poder abrir e novidades em como fazer as coisas. Estámos sempre muito preocupados em procurar uma forma nova que nos surpreenda de alguma maneira, fazer uma canção com uma estrofe, um refrão e uma terceira parte é muito redutor, queremos ir até as raízes da música portuguesa, do mundo, mas que possa deixar esse molde repetitivo. Não tentámos ser comerciais nesse sentido, mas gostámos que a nossa música seja ouvida por todos os tipos de públicos e isso é importante para nós. Isso não quer dizer que sejamos amplos em termos musicais para que toda a gente goste, não pensámos muito nisso, queremos fazer algo de que gostámos e que esteja interligado com as nossas raízes e mesmo que reflita a influência da música que ouvimos, desde os Radiohead a Maia Andrade, o Tom Jobim, é um espectro muito grande.

O facto de estarem em tournée e a criar canções ao mesmo tempo para o próximo álbum, ajudou? Tocarem juntos ajudou na construção das melodias?
TC: Sim, completamente, porque quando gravámos o EP e começámos a tournée há temas do “Nó” que não tocámos da mesma forma. As canções já evoluíram, como somos uma banda independente, não tivemos tempo para estar um mês parados a tocar e essa foi uma das limitações. Depois os elementos novos só entraram recentemente, ou seja, ao fim de 20 concertos e de ter tocado para tanta gente, há uma banda, já sabemos o que o outro vai fazer, partilhámos uma linguagem de uma forma mais coesa. Os elementos mais antigos que é o António Parra, eu e o André Teixeira já estamos juntos de 2009 e o Alex Rodrigues e o Aníbal Beirão só entraram em 20015 e agora é impossível imaginar esta banda de outra maneira. O facto de termos estado a tocar os temas do EP, as músicas novas e trabalha-las em conjunto fez com que fossemos sempre introduzindo novas canções aos concertos, experimentámos e há toda uma diferença. O próximo álbum será mais coeso, terá outra energia e será mais forte. Eu penso que é impossível que não seja assim, tanto é que há temas que gostaria de tê-los feito de outra maneira.

Era exactamente isso que te ia perguntar a seguir, como estas a dizer que pegaram em algumas canções e as melhoraram se consideram relança-las de novo, fazer um remix?

TC: Eu gostava, porque os temas estão sempre em processo. Como somos independentes e não temos uma editora por detrás a pressionar fazer tudo da mesma maneira, desde que encontrámos espaço para evoluir, não vamos deixar de o fazer para tocar de uma determinada forma. Assim, as músicas continuam a crescer e nesse sentido queríamos estar a gravar os temas todos para mostrar a evolução, quem ouvir o concerto em 2010, que tem canções do “Nó”, vai gostar dessas músicas, ou não. Por outro lado, estas canções estão gravadas e temos muito mais por gravar, em principio não devemos repetir, mas queremos mostrar outras, continuaremos a aperfeiçoa-las, mas no futuro talvez encontremos uma oportunidade de as tocar de novo. Se houver essa possibilidade porquê não? Gostaríamos de ter a alternativa de parar dois ou três meses, se nos dessem condições para isso fazíamos um súper álbum, ou um duplo. A verdade é que estámos limitados pelo tempo que estámos na música, por isso, creio que o nosso álbum seria um best off.

Depois da tournée quando pensam lançar este segundo álbum?
TC: Eu gostava que este novo álbum saísse no início de 2018. Este ano estaríamos a apresentar o “Nó” e temos vários concertos agendados até o final do ano. O Outono é um período menos profícuo em termos de concertos do que no Verão seria uma altura ideal para gravar e estámos a tentar arranjar condições para isso.

Mas, ainda não tem uma editora?
TC: Não temos.

https://lessaintarmand.bandcamp.com/

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