Um olhar sobre o mundo Português

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Não sou imune ao teu charme

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Os Anaquim surgem em 2010, na cidade de Coimbra, com um álbum de estreia, “ As vidas dos outros”, que os catapultou de imediato para a fama nacional, mas cujo sucesso já atravessou fronteiras graças à sua sonoridade peculiar fruto de uma fusão de sons do mundo, com um toque muito português. Este ano lançaram o seu terceiro trabalho discográfico, muito mais calmo e bucólico como o define o fundador, cantautor da banda, José Rebola.

Em termos dos Anaquim, no terceiro álbum “um dia destes” notas uma evolução em termos dos restantes dois trabalhos discográficos que já lançaram como banda?
José Rebola: Eu acho que neste álbum há sempre uma evolução e uma dinâmica muito própria, tentámos que cada disco transmita um certo sentimento e foi isso que mudou em relação os restantes dois álbums, porque “um dia destes” tem um fio condutor. O nosso primeiro trabalho discográfico era uma espécie de colecção de crónicas, o segundo era um álbum mais social, centrado mais nas problemáticas da sociedade e do eu. Este terceiro trabalho é diferente porque toca nos afectos, no amor, no desamor, no encontro e desencontro das pessoas. Portanto, é um disco mais contemplativo, mais calmo, mais bucólico, a ideia foi sempre o minimalismo das canções, um certo diminuir da quantidade de letra e da velocidade de algumas coisas, foi basicamente isso que mudou.

Este é um trabalho ainda voyeurista, porque os vossos temas focam os outros e tudo o que ocorre em volta e afirmou que este disco é mais contemplativo e bucólico.
JR: Eu acho que quando olhámos ao que esta à nossa volta e para os outros, também vemos o que há de nós nessa circunstância, na sociedade que nos rodeia e o contrário. Acho que olhar para dentro não é só olhar para dentro e olhar para fora nunca é só olhar para fora, o que acontece quando escrevo letras para o Anaquim é esta conjugação dos pontos de encontros que encontrámos entre eu e os outros, o interior e o exterior e nesse sentido acho que continua e continuará a acontecer.

Abordando as letras das músicas, acabaste de referir que estão mais contidas, mais concisas, nostaste uma evolução da tua escrita neste álbum em relação aos restantes?
JR: Quando estava a referir-me que eram mais contidas, estava a abordar a quantidade total de letras e o que é debitado por segundo. Numa canção mais reivindicativa, mais interventiva, nos queremos dizer muita coisa e muito depressa, quando se fala de amor e solidão acho que é natural haver um certo respirar, uma certa pausa e isso é o que sinto nestas canções. O que não diminui a intensidade das letras e o que elas transportam, é que não importa só o que se diz, nem como se o diz e neste álbum as coisas são ditas de uma maneira mais suave, mais pausada que vai ao encontro da natureza das mensagens que são passadas.

Há algum tema que seja a súmula de tudo isso? Que seja emblemático de “um dia destes”?
JR: Eu acho que a canção que passa mais essa mensagem e que consegue abordar quase todos os outros temas do álbum talvez seja “a estrada” e lá esta não é uma letra muito contida, é a maior de todas, mas como é uma espécie de viagem consegue abordar e ser o mote dos restantes temas do disco.

Algumas vezes os Anaquim estreiam músicas nos concertos que depois inserem nos álbuns, aconteceu o mesmo em “um dia destes”?
JR: Aconteceu com um ou dois temas, mas não mais do que isso. Até porque só no processo de gravação é que os temas sofrem uma metamorfose e acabam por ser diferentes do que tínhamos em mente. Portanto, esse apresentar as canções antes da apresentação só aconteceu uma ou duas vezes.

Em relação as melodias, vocês incorporam muitos genéros, que não são de uma sonoridade dita portuguesa, são muito díspares. Onde fostes buscar influências desde o klezmer judeu, ao bluegrass e a rembetika grego que não são musicalidades muito conhecidas do público português?
JR: É verdade, mas eu sempre ouvi muita música diferente. O Anaquim surge quando eu estava em outra banda de rock, mais virado para o punk rock e comecei a ter ideias que não se enquadravam naquele universo, então foi gravando e escrevendo. Como era uma composição tão espaçada as canções eram muito diferentes, o que não significava que não houvesse alguns pontos de contactos, através de ritmos bastantes fortes e marcados. O que acontece é o que vemos com a sonoridade de bastantes músicos que pegam na música tradicional portuguesa e mostram que ela tem um lugar no mundo, nós fazemos um processo contrário trazemos a música do mundo e provamos que ela se enquadra em Portugal. Os temas que escrevemos em português e a nossa maneira de fazer música, também podem ser em bluegrass, como com ritmos bálcanicos, ou judeus, ou gregos, pode ter isso tudo. O que pretendemos é não só mostrar que Portugal tem lugar no mundo, como também mostrar que todo o caldeirão do mundo têm lugar no nosso país e com um sentimento português.

Não ouviram já críticas nesse sentido dos ditos puristas musicais portugueses?
JR: Por acaso não acontece muito, porque o modo de estar de uma banda, não é só a melodia ou a música que fazem, são as letras, a atitude, os temas abordados, a postura e acho que nisso somos muito portugueses e vamos buscar muitas coisas portuguesas. De resto tudo acaba por ser um círculo vicioso em que todos os genéros de musicais vão beber uns nos outros, o fado tem muito contacto com a música árabe, há outros que acham que tem uma forte componente napolitana. No fundo vamos todos buscar coisas uns aos outros e adaptamó-las à nossa maneira. Nesse sentido tentámos mostrar que tudo pode ser música portuguesa, talvez não nos cânones mais tradicionais, mas não sentimos muito essa crítica.

Acham que a música portuguesa gosta de si e o público é reflexo disso? Ou ainda há um percurso por fazer?
JR: Eu acho que a música portuguesa e mais em particular a que é feita em português beneficiou de uma mudança de atitude dos média e do público em geral, em relação a si própria. Nós temos vindo a constatar nos últimos 10 anos que as pessoas abordam a música portuguesa com outros ouvidos e que já não é tão “foleira” e isso felizmente já desapareceu, ou esta bastante minimizado. Temos a noção que o público tem mais atenção as letras, uma maior abertura e um preconceito menor em relação aos projectos musicais portugueses nos palcos nacionais. Agora, o nosso país não permite um fluxo gigante de musicalidades como uma nação como os EUA, isso não acontece, infelizmente. Mas, sentimos que as bandas portuguesas tem conquistado muito público no seu mercado interno.

E a vossa projecção como banda? Notam que são mais reconhecidos fora de Coimbra?
JR: Nós temos tido a sorte de tocar, ganhar fãs e amigos em todo o lado onde vamos tocar. E notámos que essas pessoas actuam como “agentes de promoção da banda”, porque apesar de tudo ainda se vive muito desse passa-palavra e sentimos que a nossa base de apoio vai-se alargando e até mais do que isso, já tivemos a sorte de fazer uma tournée pela África Austral, fomos tocar ao Zimbábue, a Namíbia e a África do Sul e em Março vamos à Lion. Sentimos que estámos a cumprir um além-fronteiras onde a nossa música é bem aceite.

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