O carregador de palavras

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Valter Lobo é um jovem cantautor cujos temas do seu primeiro álbum “Mediterrâneo” nos rementem para uma viagem mais solar e aberta do que o seu trabalho anterior, mais intimista, intitulado “Inverno”.

És advogado por formação o que te fez escolher também a música?
Valter Lobo: Foi uma decisão que acabou por ser natural, porque tinha esta parte artística há muito tempo em mim. Escrevi algumas canções de forma tímida e decidi já no final da minha formação que era o momento certo para dedicar-me à música.

Mas tivestes também formação musical?
VL: Não. A minha formação musical é direito. (risos) Sou auto-didacta, aprendi a tocar guitarra há muitos anos, foi sempre compondo em casa e já no final da faculdade é que decidi concorrer com canções minhas, fiz um EP chamado “Inverno”, em 2012 que foi reeditado em 2013, era um conjunto de 5 canções muito melancólicas e isso despertou à atenção das rádios nacionais.

Depois lançaste em 2016 o teu primeiro álbum mediterrâneo.
VL: Finalmente lancei o meu primeiro disco quase 5 anos depois, ou 3 anos depois da reedição. Este trabalho de originais fez agora um ano e tenho vindo a apresentá-lo em salas, eventos e em alguns festivais.

O que é que este disco representa comparando-o com o teu primeiro trabalho?
VL: Representa o meu crescimento e ao mesmo tempo estão interligados, uma vez que é a passagem do inverno para um clima mais ameno. O meu primeiro trabalho discográfico estava mais fechado, mais difuso, mais triste, é uma cabana numa montanha. Agora, esta é uma viagem até perto do mar, despido de materialismo e imbuído de um espírito de não sacrifício, aqui vou para uma varanda no Mediterrâneo.

Acho curioso que digas isso, porque ao ouvir os dois álbuns continuei a achar que eram ambos bucólicos, que nos remetem para cenários românticos e solitários. Em termos das letras há uma continuidade embora a sonoridade não seja a mesma.
VL: Sim. Houve uma evolução também nesse aspecto, o que é normal.

Aproveitaste algumas canções do “Inverno” para o “Mediterrâneo”?
VL: Não, são sobretudo músicas e letras feitas de propósito para este disco. A primeira canção do Mediterrâneo é “espanto os males à porta, bato os pés na soleira a avisar, dou por fim ao retiro, deixo a voz que para me encontrar…” ou seja, agora vou em direcção à viagem. Sou a mesma pessoa que o escreveu, mas há diferenças porque a temática não é tão melancólica e tão triste, estou mais numa de encontrar-me.

Escreves umas letras muito poéticas, quando o fazes é de forma diária, ou apenas quando te sentes inspirado?
VL: Não tenho uma resposta directa para te dar, não vou fazer disso um exercício, vou fazendo a canção e depois vêm a temática da letra e o que eu quero dizer e depois vou por aí. Não tenho regras, se for necessário faço uma canção em 3 minutos, o tema “Quem me dera” foi feito em cinco minutos, talvez tenha sido inspiração, não sei.

Quando escreves as letras também estas com a guitarra ao mesmo tempo?
VL: Quase sempre. Toco uma melodia na guitarra e depois vêm-me uma letra à cabeça e ando a cantarolá-la. Eu gravei o disco sem ter as letras no papel tinha-as todas memorizadas. Escrevi-as pela primeira vez quando se faz o trabalho artístico para a capa do álbum, nesse caso tive que as passar para o computador.

Quer dizer que transportas palavras sempre contigo?
VL: Sim.

Vais pensando nelas para melhorá-las?
VL: Sim, consigo ver escritas todas as letras na minha cabeça. É como se tivesse um computador. Troco uma palavra por outra melhor, mas visualizo as minhas quadras todas.

Em relação à evolução sonora do primeiro disco para o “Mediterrâneo”, então que mudou? A guitarra continua presente, porque se ouve, mas o que decidistes fazer diferente em termos de melodia?
VL: Eu trabalhei com outros músicos para este disco. Acrescentaram a sua parte, porque trabalhei também com outro produtor, quis entrar também no mundo puramente analógico, não estou com nada demasiado produzido, são as guitarras, as vozes, o trompete e o baixo no seu estado mais puro. Quando as letras são genuínas e não ficçionadas tens de ter uma melodia que te ajude a transmitir essa ideia, ou conceito. Como há uma evolução natural isso chama mais gente para tocar essas músicas.

Ao contrário do “Inverno”.
VL: Nesse EP sou eu e mais uma pessoa. É um trabalho mais digital. O “Mediterrâneo” é mais orgânico e analógico.

Tens agora palavras a circular na tua cabeça para um próximo álbum?
VL: Tenho

E vais editá-lo já no próximo ano?
VL: Sim, já esta a ser escrito neste momento, sempre tive a ideia de escrever um álbum intitulado “Conto-te tudo” e então em todas as canções a pessoa abria-se completamente.

Criavas personagens que contassem a sua história?
VL: Sim, acho que seria mais viável.

E continuas com esse tom melancólico?
VL: Sim, acho que sim, porque a minha voz remete para esse tipo de sentimento. Posso cantar a coisa mais alegre do mundo que o meu tom mais grave e rouco faz com que fique assim. Fiz a experiência de colocar outras pessoas a cantar as minhas canções e pareciam diferentes.

E pensastes nisso, de ter outros cantores a participar nos teus temas?
VL: Para já não. É tão intimo isto que se entregar a outra pessoa acabaria por desvirtuar o meu trabalho. Tenho colaborações com outros músicos, eu a cantar, mas fora do Valter Lobo.

Como tens um repertório tão intimo não faz muito sentido cantá-lo nas grandes salas?
VL: Acho que faz mais sentido num teatro, mas já toquei em salas maiores e também funcionou.

Quem é o teu público? Já o notas?
VL: Sim, não é em grande escala, porque acho que não cheguei ao grande público, por isso, não posso saber. Mas, desde as crianças aos mais velhos que gostam de música alternativa, ou popular, são os que mais ouvem os meus temas. Também passa pelos jovens adultos que vão à procura de música diferente.

E é mais um público feminino?
VL: Sim, felizmente. Há também um público masculino, mas a elas chega mais rápido, também é natural, não foi propositado.

E sempre a cantar em português?
VL: Sim, a minha língua é a única que domino e não quero cantar mal inglês que oiço na maior parte das pessoas.

E vais deixar o direito e dedicar-te só à música?
VL: Eu sou jurista na parte de direitos de autor, no Porto. Trabalho com muitos artistas e isso não tenciono deixar de forma alguma, o direito ao serviço da música e da arte.

Sempre vais manter estas duas facetas em paralelo?
VL: Sim e tenho mais uma de programador e produtor.

Já produzes outros cantores?
VL: Sim, organizo um ciclo de concertos de cantautores e tenho outros projectos para produzir concertos e eventos com outros artistas.

 

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