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O kastrupiano musical

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Guilherme Kastrup é um dos músicos instrumentalistas e produtores musicais mais reconhecido do panorama musical brasileiro. Apesar de um percurso profissional com mais de duas décadas foi apenas em 2013 que lançou o seu primeiro álbum a solo e promete fazer a mesma proeza já no próximo ano, quando atingir o seu ponto de mutação.

És um músico já com uma longa carreira, produziste imensos artistas reputados no brasil, porquê só em 2013 decides fazer um álbum em nome próprio?
Guilherme Kastrup: Nunca pensei muito nessa história da carreira a solo, ou autoral. A minha vocação é de músico instrumentista e vivi disso durante muitos anos. Depois comecei por me interessar pela parte do estúdio, de gravar e produzir algumas coisas. Nesse processo passei a brincar com algumas coisas, de brincadeira autoral, mas sem nenhuma pretensão. Esse disco foi-se construindo ao longo de muito tempo, dez anos, a partir de brincadeiras de estúdio e eu comecei a reconhecer que tinha um trabalho que merecia ser lançado com alma. Comecei a organizar isso com o pensamento de um álbum.

És percussionista, mas o disco tem uma parte muito tecnológica. Como passaste dessa fase instrumental para os sons digitalizados?
GK: Acho que foram dois interesses simultâneos. Essa parte de mexer com o samplear e com o recorte de música digital, é uma coisa de brincar de um jeito percussivo com vários sons que não sejam instrumentos inicialmente gravados e reposicionados com essa característica que o sample pode dar. Você brinca com bateria electrónica e com sons gravados de diversas origens e isso foi ago que me interessou muito e que descobri. A outra parte é a gravação de estúdio, de produção em que mergulhei muito ao fundo, fiz gravação, recorte, aquilo de mexer muito nas músicas digitalmente e fazer edição, que é um pouco como se faz com as artes plásticas. Esse cruzamento das artes plásticas com a música é que acendeu muito essa vontade de fazer um trabalho autoral.

Que sons é que gravaste? Dá para perceber que tens animais, outras vezes parecem ser sonoridades mais urbanas.
GK: Eu gravo um pouco de tudo, como você percebeu bem, são dez sons urbanos de máquinas, de carros e essa coisa intensa que a cidade tem e também há sons mais oníricos de cigarras, pássaros, falas e entrevistas. Tem uma música que é uma entrevista do Cartola que eu recortei e transformo em música a partir da sua digitalização, é uma brincadeira de cortar e colar que me permite fazer as coisas de um jeito como se tivesse compondo música electrónica, só que a partir de elementos acústicos de todas as origens.

Depois como fizeste a escolha desses recortes, no meio de tantos temas qual foi o critério de selecção?
GK: Teve muitas brincadeiras, mas foi elegendo as que podiam formar um conjunto, a maioria dos temas nasceu a partir da própria precursão, mexi com elas, descobri temas melódicos nessas faixas e aí os temas foram começando a ser desenvolvidos e só depois comecei a pensar no conjunto. Gosto muito dessa coisa da criação do álbum, a ideia de um disco com princípio, meio e fim e que as canções tenham conexões umas entre as outras, é algo que fez parte da selecção para que as músicas tivessem nesse conjunto do “Kastrupismo”.

Chamaste-lhe “Kastrupismo” por ser a tua cara? Por seres tu é isso?
GK: Sim,

É a marca do ser individual, de um trabalho com alma.
GK: Exactamente, usei o meu próprio nome, Kastrup, porque foi como se dissesse que esta é a minha forma de fazer música, o meu jeito de fazer.

Tens algumas participações e algumas letras, isso surgiu mais tarde?
GK: Algumas sim e outras não, essa por exemplo, do Cartola partiu da ideia de recortar três das entrevistas em que ele foi contando a primeira venda do samba dele, o espanto dele quando chegaram para ele e ofereceram dinheiro e ele disse, comprar um samba meu? Tá maluco rapaz? O meu interesse por essa história fez com que eu quisesse fazer algo interessante com isso e partiu da fala para a música. Outros temas partiram do ritmo inserindo letra, mas não funcionam exactamente como canção. Normalmente, trabalho muito com canção, a minha carreira é baseada nisso seja como acompanhante, como percussionista, ou produtor musical. No meu percurso pessoal eu queria fugir um pouco desse formato e utilizar a poesia completa de uma forma mais livre na estrutura da música. O que eu uso como letra é mais a poesia completa que posso montar, desmontar em várias partes e remontar de outro jeito. A cada hora ela aparece de um jeito diferente e me dei essa liberdade de brincar com a poesia de uma forma diferente e fugir do formato mais fechado que é a canção.

Depois apresentas um outro álbum que é “Sons da sobrevivência”, que acho que tem um lado extramente poético e é muito diferente do “Kastrupismo”. Porquê do nome?
GK: Quem batizou esse nome foi o Benjamim Taubkin. “Sons de sobrevivência” partiu de um duo de percussão que tenho com a Simone Sou, uma grande percussionista e a gente montou o Soukast uma brincadeira com os nossos nomes, criamos um repertório a partir da repercussão e mais tarde convidamos o Benjamim Taubkin que é um grande pianista e pensador brasileiro. Esse encontro deu muita faísca, o resultado foi muito interessante e decidimos gravar esse álbum. Quando o Benjamim sugeriu esse titulo eu também estranhei e perguntei para ele, depois foi entendendo o sentido poético do tipo de música que a gente faz, que é de resistência da politica humana, de como vemos o mundo, mais autónomos na forma de criar e encarar a sociedade onde a gente esta, é a sobrevivência física e artística. “Sons de sobrevivência” tem a ver com isso, um certo acto de resistência, a arte das relações humanas.

Tu és produtor dos teus próprios projectos musicais, se não fosse assim, achas que haveria um espaço para ti no panorama musical brasileiro?
Por seres tão diferente?
GK: Não sei (risos). Nunca pensei nisso com esse enfoque de eu ser produtor dos meus projectos musicais. Ás vezes, eu sentia que precisava de um olhar externo para dizer para. Agora, estou finalizando o meu segundo disco e nesse acho que sou melhor produtor de mim mesmo que no primeiro.

É um segundo exercício do Kastrupismo?
GK: Não será mais um Kastrupismo, mas é um exercício sobre uma brincadeira um pouco diferente, a minha vida mudou e desta vez o principio das canções não são as repercussões, mas foram alguns encontros que promovi de música improvisada. Formei dois trios com artistas com que tenho muita conexão e fizemos improvisações, a partir disso comecei a recolher esse material para fazer as composições.

Mas, andas em tournée com o teu primeiro trabalho discográfico, nos espectáculos já tocas temas deste segundo álbum?
GK: Ainda não, eu ainda não o finalizei. Terminei o processo criativo, estou com o álbum todo montado, como gosto de fazer tudo, aprecio pensar na ordem, como é que as músicas se interligam, se entrelaçam, como é a história delas no contexto geral do disco e a partir daí, vou mixar, masterizar, mas por enquanto estou no processo criativo. Ainda não mostrei para ninguém, mas toquei uma primeira música já em Lisboa e na Madeira.

Tem uma frase que defina este segundo álbum?
GK: Esse álbum vai-se chamar talvez “Ponto de mutação” em referência a um livro que li, que achei muito bonito, de Fritjof Capra. Ele tem um conceito de ver a humanidade como um único organismo vivo e que esta nesse ponto de mutação. Estamos num final de um período, de um ciclo, de uma época dominada pelo yang, o masculino, para transitar para uma fase mais ying, mais feminina. Achei essa imagem muito poética, de um físico que estuda sociologia, o conceito é muito bonito, porque a gente esta no fim de um ciclo da humanidade, vemos este sistema capitalista num acto de ebulição e tem tudo a ver com isso. O disco tem a ver com esse mundo de agora.

Quando se fala de música no Brasil, fala-se de música popular, de bossa nova e como disse desde o principio o teu som é muito diferente, é algo que se vê mais na Europa e EUA, mas que nunca se ouve no teu país. Como é mercado brasileiro para o teu tipo de musicalidade?
GK: O Brasil é muito rico musicalmente. O que passa para fora é esses estereótipos da bossa nova, do samba, mas internamente temos uma produção muito grande, especialmente em cidades como São Paulo que tem vazão para isso. Existe muita gente interessada, tem um mercado que se movimenta, é possível viver de música independente autoral e experimental mesmo estando fora dos grandes circuitos popular que no Brasil é muito intenso.

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