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Maria do Sameiro Alvaro, Quando a luz supera a diferença

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Fonte de inspiração. Luz dos cegos. Porta de abertura. A vida de Maria do Sameiro Álvaro, cega aos sete anos, é uma luta pertinaz contra a diferença. Uma viagem inesquecível.

"Ver? Há muitas maneiras de ver. Ver é contactar, compreender. Não interessa se é com os olhos, com as mãos ou com a explicação de alguém". Esta frase espelha na perfeição a personalidade lutadora e apaixonada de Maria do Sameiro Álvaro. Natural de Monção, onde nasce em 1932, deixa de ver, lentamente, depois dos sete anos.

Quando frequenta a Escola Primária – hoje primeiro Ciclo – já vê muito mal. Impossibilitada de continuar a estudar numa classe de crianças visuais, inicia uma vida de conquistas. Como por exemplo, aprender a correr e andar de bicicleta nas ruas da vila. "Parti três dentes, parti a cabeça. Mas queria viver como as outras crianças. Nunca me convenci de que não era capaz. Lutei sempre!", ressalva, com um sorriso.

A vida pacata da província não lhe diz nada. O que quer é estudar. Mas como? Nem os pais ou mesmo as professoras conhecem o Braille. (Braille – Sistema de leitura e escrita para cegos através de pontos em relevo. Inventado pelo francês Luís Braille, possivelmente em 1825, é hoje utilizado em todo o mundo).

Desiludida por ninguém lhe saber ensinar nada, recorre à cozinheira da casa dos seus pais. É dessa forma que aprende a coser à máquina e restantes costuras. «Eu sentia que não era uma rapariga como as outras. Aquele crescer era diferente. Aquele enfrentar a sociedade era diferente». E acrescenta: «As pessoas viam-me com pena, como coitadinha. Mas eu nunca gostei de que me dissessem que as coisas estavam bem-feitas para me consolarem. A falta de vista não é falta de cabeça».

“O não é para mim um sim”

Até aos 21 anos, tem esperança de recuperar a vista após uma operação. Infrutífera! Sempre determinada, continua a desagradar-lhe o facto de estar “arrumada” numa vila. Muda-se então para o Porto, para casa de uns amigos dos seus pais. Começa a frequentar a Escola de Braille, pagando ela própria o curso.

Com 24 anos, faz a 3º e a 4º classe e aprende, particularmente, solfejo. Novas dificuldades são vencidas. Finalmente é admitida no Conservatório de Música do Porto que frequenta durante três anos.

Mais tarde, abre em Lisboa a "Escola Sain", por iniciativa de um romeno que considera precárias as condições em que os cegos vivem em Portugal. É aí que aprende mais profundamente o Braille, actividades da vida diária e mobilidade. Nesta última, encontra, a princípio, dificuldades. Contudo, após três meses, com a ajuda de um professor que se recusa a aceitar o seu receio, começa a andar sozinha nas ruas da cidade. A partir de então deixa de ter medo. «Quando se quer, pode-se. Cruzar os braços, sentar-se num sofá é angustiante. Afecta a parte intelectual, o convívio com os outros. Não se aprende geografia com os pés no chão».

A vida guerreira prossegue. Aos 27 anos, tem possibilidade de trabalhar como telefonista nos "Portos de Douro e Leixões", no Porto. Todavia, descobre que os cegos em Portugal não podem, por lei, trabalhar na Função Pública. Sem se deixar "acabrunhar", vence mais esta adversidade. "Fui a primeira funcionária pública cega no Porto e uma das primeiras em Portugal", refere.

Apesar de ter um emprego, consegue arranjar tempo para continuar a estudar, o seu principal objectivo. Termina assim, à noite, o 7º ano do Liceu.

Aos 32 anos, regressa a Lisboa. É escolhida para tirar um curso intensivo de ensino especial para cegos, o primeiro realizado no País. É a única cega entre 34 colegas, todas professoras. «Elas estudavam por sebentas e livros. Eu não tinha nenhum material, apenas escutava «.

No final do 1º ano, por acordo entre o Ministério das Comunicações e Educação, fica libertada do seu trabalho como telefonista. Dessa maneira, pode concluir o curso com melhor aproveitamento. Além disso, começa a receber o ordenado como professora.

"Aí vem a luz dos cegos"

Terminado o curso, é colocada numa Escola de Ensino Especial para crianças cegas, no Porto. Um projecto-piloto no ensino e na reabilitação nessa área. Sempre inovadora, utiliza a dactilografia. Os outros cegos escrevem em Braille. Transfere assim para os seus alunos o que tinha aprendido no curso de especialização.

A viagem de luta continua. Aos 37 anos, chamam-na para leccionar na Escola de Reabilitação da Areosa, nos arredores do Porto. Uma instituição criada para a reabilitação tardia dos cegos, iniciativa inovadora que ainda existe. Com emoção, recorda as inúmeras memórias deixadas pelos seus discípulos. "Foi e é gratificante ver que parte deles seguiu carreira universitária. Nas minhas aulas nunca se dizia eu não sou capaz. Jamais criei um ambiente pesado. Queria dar aos alunos estímulo para viver. Uma das minhas grandes alegrias foi quando, ao abrir a porta da sala, ouvi um aluno dizer: Aí vem a luz dos cegos".

Permanece nessa escola até se reformar. Alma eternamente irrequieta, mais uma vez não cruza os braços. Na Universidade Sénior pratica hoje dança criativa, yoga, grupo coral, história, informática. E ainda tem tempo para ajudar os outros.

A reforma como professora permite-lhe concretizar outro sonho. O das viagens. "Para mim viajar não é só ver paisagens e monumentos. O mais importante é o contacto humano, a descoberta de outras culturas", salienta.

Maria do Sameiro Álvaro é sopro de dádiva. Audácia. Inspiração. E de fortaleza. Como ela própria remata: "O ser humano não se pode deixar esmagar por uma sociedade que não o compreende".

 

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«O essencial é olhar para a diferença com naturalidade»

Um dos maiores desafios que teve de enfrentar foi ser encarada nas ruas como diferente. «Quando era mais jovem, as pessoas não estavam habituadas a verem cegos a andarem sozinhos nas ruas «, refere. E prossegue: «Um dia, sem me aperceber, deixo cair a minha bengala no autocarro. Aparece um senhor na porta de saída e pergunta – quem perdeu um molho de canos? Para ele, uma bengala de cego fechada era um molho de canos».

Outra situação que recorda, divertida, passou-se em Matosinhos, enquanto estava numa fila à espera de entrar para o autocarro. «De repente, alguém diz: Deixem entrar esta menina que é ceguinha. Imediatamente, duas mulheres gritam: Ceguinha? Esta? Esta só se for cega do olho do...»

Maria do Sameiro Álvaro salienta que em tudo existe diferença. «Nas coisas. Nos seres humanos. Mas o essencial é olhar para a diferença com naturalidade».

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