
É um roteiro pela costa dos nossos vizinhos e verdadeiros irmãos, não fossem eles galegos.
Só dá-mos conta que estamos em fronteira quando estranhamente o asfalto é mais suave e as estradas são melhores. Surpresa! É o primeiro impacto ao chegar às terras galegas e ainda, pela placa a dizer “bien-venidos a España”, se não fossem esses dois indícios nada indicaria que saímos do nosso país. A paisagem prolonga-se no olhar. Ao cruzar a ponte que divide a bela e secular de Valença até o outro lado, Tui, nada cambia na berma das estradas, as casas de pedra, os campos verdejantes e as latadas de vinhas carregadas de uva. Bem, talvez haja um pormenor diferente, os edifícios começam a ser construídos a partir do telhado e só depois é que revestem as paredes. Curioso hábito! O nosso primeiro destino é Vigo, um pequeno desvio a uma das cidades mais belas da Galiza. As águas do mar banham esta cidade costeira, de uma luz coroada de anil, com as suas ruas largas, cheias de viaturas e de uma vida urbana caótica como em qualquer outra urbe. Sempre povoada de coros de reclamações e conversas cruzadas que se ao princípio parecem estranhas, no final soam familiar. É como quando chegam os parentes vindos de longe, temos só que nos habituar ao sotaque e nada mais. Foi sempre assim entre galegos e portugueses. Essa empatia secular. Entendemo-nos na perfeição. Somos o mesmo povo, divididos apenas por uma linha imaginária. Um dos maiores atractivos é precisamente o porto, a cidade parece agacha-se até o seu eixo único coberto de navios e velas brancas. A luz ofusca-nos a vista. Mas, chega de Jean Nouvel com o seu “Peirao XXI”, vamos deliciar o olhar e aguçar o apetite no célebre mercado da pedra. É o local ideal para comer o melhor marisco da costa norte da península ibérica, acabadinho de sair do mar salgado. As ostras para os apreciadores são das melhores da Europa, quiçá até do mundo! É hora de embrenhar-se pelos seus corredores concorridos em busca de um sítio para um repasto com sabor a oceano. Um único senão, ao deixar a fronteira não me posso esquecer, da próxima vez tenho de trazer a minha querida cafeteira e o café em pó, como é possível que estes galegos também bebam água choca escura?
Seguimos a marcha infelizmente, mas com um largo sorriso no rosto. A tarde avizinha-se, é tempo de retomar a estrada atravessar Chapela, Cabanas e enfim o sol acompanha o nosso percurso que nos levará até a próxima paragem Pontevedra. Ponte velha de seu nome originalmente romano. A construção urbana faz-nos recordar a Invicta pela sua sobriedade e traça antiga. Nestes idos de Agostos em que o dia teima em prolongar-se por mais tempo, tenho de acelerar até o nosso destino, Sanxenxo. Seguimos pela costa em curvas e contra curvas que me relembram a ilha, a única diferença reside na largura das estradas galegas, ao longo do trajecto avistam-se línguas de areias brancas alagadas pela espuma branca das ondas. Pousamos as coisas num parque de campismo junto ao mar. O entardecer solta raios multicolores sobre a nossa pele aquecida pelas últimas carícias do sol antes de se pôr. A zona litoral desta cidade tem mais de 17 quilómetros de areal, da qual a mais famosa e concorrida é a Lanzada. Cuidado com as águas frias do norte Atlântico. Embora, estejam quase 40 graus, o mar é ligeiramente gelado! A maior atracção desta localidade e que atrai milhares de portugueses todos os anos é as suas noites longas, plenas de diversão descomprometida. É só iniciar ao “tapeo”, visitas de tasca em tasca, que terminam ao amanhecer. Mas, para os mais aventureiros, aconselho continuar uma visita pela costa até o Grove onde se pode avistar a Isla de la Toja. A praia do Carreiro convida-nos para um último mergulho, o seu verde-esmeralda hipnótico não cessa de nos chamar. Depois de um acordar eléctrico parecemos lagartas tombados ao sol. Secamo-nos mais uma vez e partimos em direcção as terras lusas, embora como eu disse, nem parece que sai de casa do Porto.