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O torto arado

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Itamar Vieira Júnior escreveu um romance cativante sobre a realidade de uma cidade do interior do Brasil, no Sertão da Baía, na Chapada Diamantina, que fala sobre a vida de duas irmãs que irão mudar o rumo da vida da sua pequena comunidade para sempre. O autor deste maravilhoso livro foi o legitimo vencedor do prémio Leya 2018.

Começaste a escrever este livro com 16 anos e já tinhas a ideia de que seria sobre a vida de duas irmãs e a sua família. O curioso é que a diferença de idades entre elas é de apenas um ano e até parecem gémeas, até os nomes são parecidos e descreves a sua vida desde a pré-adolescência até a vida adulta. Então porque decidiste escrever sobre duas mulheres?
Itamar Vieira Júnior: Poderíamos até falar num romance de formação, porque abrange um período da vida delas desde à infância e vai até a vida adulta. O que me fez escolher esta história entre irmãs, talvez porque tenho três irmãos e somos quase todos da mesma idade e a diferença de mim para o que irmão que vêm depois é de um ano e acho que é a mesma coisa entre a Belonísia e a Bibiana. Para mim foi muito natural falar sobre irmãos e dessa relação que é conflituosa e ao mesmo tempo solidária e acho que daí veio a ideia das irmãs. Falar sobre o cenário rural, aos dezasseis mesmo não tendo contacto direto com essa realidade, veio do meu interesse pela literatura. Quando terminei o secundário, eu já havia lido romances regionalistas de Guimarães Rosa, Jorge Amado e José Lins do Rego e Raquel de Queiroz e eu estava muito influenciado pela diversidade da paisagem, os conflitos narrados e isso era um Brasil que eu conheci apenas através da literatura. Eu comecei a escrever esse livro, cheguei até as oitenta páginas e depois abandonei, eu não tinha a maturidade suficiente, foi um impulso, um instinto que me fez escrever, o que foi bom porque as página, entretanto, se perderam e eu reescrevi o livro mais tarde e aí já tinha uma passagem pelo campo do Brasil e conhecia muito essa realidade e assim pude falar com detalhes e propriedade no livro sobre esse tema.

E quando começaste a visitar o Brasil interior, foi aí que encontraste a localidade específica deste livro, onde toda a narrativa acontece e isso te levou a reescrita?
IVJ: Sim, eu fiz um doutoramento em estudos étnicos e africanos com enfase na antropologia e fiz um exercício etnográfico nessa minha tese e trabalhei numa comunidade do Sertão da Baía, a Chapada de Diamantina, eu passei de dois a três anos nessa comunidade em contacto com as histórias, com pessoas do Jarê, com a paisagem que é um lugar belíssimo cheio de referências, que ao mesmo tempo sofre com a seca e onde existe um pântano muito húmido que aparece muitas vezes no livro. Aquilo era o cenário perfeito, era o lugar em que eu queria reviver aquela história do passado, que comecei aos dezasseis anos, e recomecei a contar a história dessas duas irmãs e a partir dessa perspetiva da servidão de uma vida privada de direitos que é a realidade dessa população.

E foi também daí que decidiste que uma das personagens seria muda. Isso também é uma metáfora para o facto dessa população não ter uma voz.
IVJ: Exatamente. Eu penso num país diverso como o Brasil que tem muitas etnias e como bom seria nas instâncias de poder, no parlamento, que houve representação de todos esses elementos da sociedade e as pessoas pudessem propor e legislar para diminuir essas diferenças sociais. Para mim escrever sobre esta história era fundamental, havia uma lacuna grande na nossa literatura sobre estes temas que não fossem apenas urbanos, principalmente como nos últimos anos, que não fosse um livro sobre a classe média branca do país e queria retratasse os problemas muitos específicos desta zona. A literatura de um país é o retrato de uma cultura e deve ser abrangente, deve estar aberta, deve incluir o máximo de seguimentos e contar a história do país.

Existe um estudo que pinta a imagem muito má da mulher negra na literatura brasileira, ou ela é prostituta, criada ou escrava, apesar dos direitos de as mulheres estarem consagrados nas leis, ainda existe esse estigma. Foi por esse motivo, porque escolheste que as tuas porta-vozes fossem mulheres negras? Com personalidades tão fortes?
IVJ: Eu tenho uma família em que as mulheres têm grande protagonismo, eu acho que os homens sempre foram sombras pálidas delas, elas é são as protagonistas, o que é um paradoxo, já que, a gente sabe que numa sociedade machista como na América do Sul, no caso Brasil é assim, mas o que é interessante é perceber, porquê isso ocorre? Porque as mulheres fora de casa não têm voz, mas dentro de portas elas reinam. Elas dominam tudo e eu sempre tive essa imagem forte das mulheres da minha vida e encontrei essa realidade no sertão brasileiro, no sertão nordestino, em que as mulheres assumem esse protagonismo, porque como os homens não tem recursos para trabalhar e as vezes morrem jovens, elas acabam por assumir esse papel principal na comunidades, elas se tornam lideres politicas como a Bibiana e a Belonísia e eu tive esse cuidado de não estereotipar também esses personagens negros. Embora, se trate de uma comunidade rural que podíamos chamar de comunidade quilombola, que na Venezuela, Panamá em Cuba temos os chimarrões e na Colômbia, os palanqueiros essa ocorrência é comum em toda à América Latina. A Bibiana é filha de um agricultor com uma vida muito regrada e carente de tudo, mas ela sai, ela estuda, se forma como professora e volta para a comunidade e tem outra visão política, porque esteve em contacto com outros grupos de onde ela vivia. Ela traz essa bagagem política com o Severo, o marido, porque eu entendo uma mulher negra quando diz que as personagens que surgem nesses romances, no cinema, ou no teatro são esses estereótipos e estamos focados nisso. Tudo isso é um reflexo da sociedade brasileira, existe uma mudança, mas é recente. A gente já encontra na universidade mulheres negras e em lideranças políticas, como a Maria de Franco que foi assassinada. O que vejo com mais gravidade, na literatura, em determinados contextos é que elas não assumam esse protagonismo, então o interessante é dar-lhe esse foco, podemos até falar das dificuldades da diversidade, ela pode ser até uma empregada doméstica, porque não falar sobre uma? O que é que existe de demérito nessa profissão? A questão é que ela se tornou numa emprega doméstica pelas circunstâncias sociais e porque não problematizar isso? Trazer isso ao público? Eu acho que podemos fazer isso mais vezes. Eu li um romance, o ano passado, que não foi lançado ainda aqui chamado “ Armas sonolentas” da escritora brasileira Carola Saavedra e ela traz três protagonistas mulheres e uma delas é uma mulher indígena que é emprega doméstica e não tem nome e o que é interessante é que ela pode ser qualquer uma daquelas mulheres que saíram jovens, do campo brasileiro, para as cidades para servir as pessoas mais abastadas e ela nos faz sentir compaixão por essa mulher e nos faz colocar no lugar dessa personagem. Isso é o que a literatura tem, esse papel em que a gente faz um acordo tácito quando escreve, ou lê um livro nós assumimos a vida dessas personagens, pelo tempo em que estamos envolvidos com essa obra, a gente se coloca na pele deles e sente o que eles sentem. É uma empatia enorme, eu tenho a certeza se o “Torto Arado” lhe tocou, você nunca mais vai olhar para mulher camponesa do Brasil, de uma realidade muito diferente, sem interesse, porque a vida dela é muito rica e essa riqueza surge do trabalho que ela faz.

Disseste que escreveste um livro para os brasileiros, porquê?

IVJ: Porque é uma realidade que muitos brasileiros ainda desconhecem. Embora, tenha uma apelo universal, porque esse problema pode ser transportado para várias populações ao redor do mundo, dos refugiados, dos emigrantes, os brasileiros desconhecem ou fingem que não sabem da realidade que existe de servidão no campo, das pessoas que ainda vivem cativas de certa forma e eu escrevi esse livro vindo de uma pesquisa que fiz na universidade nessa linha e a pesquisa não tem o alcance como uma obra literária, ou artística e que o teatro pode ter, eu acho que tem um alcance muito mais abrangente. Não adiantava fazer a ciência escrevendo um artigo, ou uma tese, eu queria escrever um trabalho que tivesse esse alcance capaz de atingir pessoas de outras profissões, de outras origens e contar essa realidade para a sociedade brasileira.

Mas, abordas a questão dos sem terra, esta família esta no cerne dessa questão, embora não sejam escravos, são escravizados porque trabalham uma terra que não lhes pertence, nem sequer podem criar raízes, não podem construir casa e até as colheitas são escolhidas pelos proprietários dos terrenos. Isso é também porque a sociedade finge que o movimento não existiu?
IVJ: Eu acho que eles fecham os olhos, porque nunca se resolveu essa questão. A gente tem exemplos como o México, a França e até aqui na região do Alentejo em que houve uma reforma agrária após a queda do Salazarismo. O Brasil nunca teve uma reforma agrária e esses problemas sociais permanecem. O que se fez é uma lei de terra em 1850 e deu acesso a quem tinha dinheiro para pagar por ela e uma massa de trabalhadores escravizados, de indígenas de comunidades nativas e de outros pequenos agricultores não tiveram acesso a nada disso e continuam até hoje a trabalhar como bolsero, ou em regime de servidão e ao longo das épocas essa população é brutalizada e eles vivem conflitos intensos. Só em 2017, que são os dados mais recentes de organizações não governamentais no Brasil que ajudam essas pessoas sem terra, contabilizaram 71 mortes de trabalhadores do campo por conflitos relacionados com as terras. Então, eu ouvi que algumas pessoas do meu convívio por questão de trabalho, haviam sido assassinadas por questão de terra, é uma guerra brutal e sei que não é uma realidade apenas do Brasil, em algumas países da América Latina a gente encontra essa questão e eu precisava falar sobre isso, porque apesar desses dados gritarem nos nossos ouvidos, as pessoas parecem fechados a essa realidade? Precisámos resolver esse problema do acesso à terra, é uma questão de dignidade humana, não estamos a falar de um bem, mas sim de um lugar onde a pessoa possa construir a sua casa, onde possa viver, sem medo de ser expulsa por alguém com arma, ou título, é preciso dar oportunidade de trabalho e dignidade a todas essas pessoas.

A maior parte dos teus personagens não tem nomes, tem os apelidos que as pessoas lhe dão, porque decidiste fazer isso? É pelo facto de na sua maioria serem analfabetos, ou por serem descendentes de antigos escravos?
IVJ: Eu quis ser fidedigno a realidade dessas pessoas, o sobrenome está relacionado com os que tem o poder, os apoderados e aí surgem alguns sobrenomes, a família Peixoto, que são os donos. Nas pessoas mais humildes, o sobrenome não importa, nem para eles, nem para olha para eles, o mais comum é que os conheça pelos apelidos e era forma de que aqueles nomes tão comuns como a Bibiana e Ana, a Salustiana encontrassem representantes no imaginário das pessoas, que elas pudessem ler aquele prenome e dizer, eu imagino a Salu conheci uma assim no campo, era uma forma de dar um movimento mais abrangente a esses personagens.

Um dos aspetos que gostei do livro foi o teres abordado o lado mágico, do mundo dos espíritos misturado com a religião, que advém da imposição do cristianismo sobre estes rituais pagãos, que são os encantados. Essa realidade ainda é muito patente no interior do Brasil?
IVJ: Eu lembro do Gabriel Garcia Marques falando da sua literatura e os críticos literário falavam de realismo mágico e ele dizia que não tem nada de mágico é só realismo. Quem conhece a realidade da América Latina sabe que é possível que se fale de uma pessoa que morreu, que volta a vida e que conviva e são dois mundos diferentes. Para nós que vivemos em cidades, em sociedades diferentes, a viver nessa cultura ocidental meio hegemónica e cientifica a gente costuma relegar essas manifestações para um espectro mágico, para além do real, mas esse real para algumas pessoas pode englobar tudo isso, falar sobre isso foi muito natural, não que viva isso, o eu fiz foi tentar aprofundar e pesquisar essa religiosidade de uma forma crível e fidedigna e apresentar essa cosmo visão, que é uma visão muito própria deles que engloba esses elementos da natureza e da espiritualidade e do que esta além da vida, isso é muito real para eles, é uma coisa que continua acontecendo.

Também referiste que é algo específico a esta região.
IVJ: Sim, que é o Jarê que é uma crença que acontece nessa região que é a Chapada de Diamantina, que é uma coisa que eu também não conhecia, mas que é secular e que já existe desde a ocupação dessa área. No Brasil você também encontra religiões Xamânicas e eu moro em Salvador uma cidade com grande número de descendentes de África e as religiões de matrizes africanas são muito comuns, em Salvador tem mais terreiros de candomblé do que igrejas, embora haja muitas igrejas porque foi capital da colónia e foi fundada pelos portugueses que levaram à religião católica até o Brasil, mas essa convivência nunca foi pacífica. A liberdade de credo e de religião ela surge na segunda metade do século XX para cá. Um dado interessante que você talvez não saiba é que um dos projetos de lei da liberdade de crença foi graças ao Jorge Amado, quando ele foi deputado federal na década de 40 e 45. Ele conseguiu aprovar uma lei que trata da liberdade religiosa no Brasil, porque antes essas crenças eram perseguidas pela polícia, eles não se podiam manifestar-se em público, a não ser que fosse da religião cristã, ou protestante, tudo fora disso era reprimido e graças a Jorge Amado que é um grande escritor que todo o mundo conhece e um dos brasileiros mais proeminentes do século XX, embora tenhamos o Paulo Coelho, foi possível a liberdade de crença no Brasil.

Qual foi no processo de reescrita o personagem com quem te debateste mais, nesse processo criativo?
IVJ: Eu que todos os personagens foram difíceis, mas dos que protagonizam o livro eu tive de ter muito cuidado com as irmãs, porque uma fala e a outra não e que não falava precisava de ser comunicada e ao mesmo tempo ela precisa de comunicar. Como ela não pode falar, ela fala através da natureza e do mundo que esta à sua volta e ela vêm incorporando aquilo e tem um momento do livro em que fala dos animais, da natureza e falam por ela. A personagem mais difícil de escrever foi a encantada que esta na última parte do livro.

A Miúda?
IVJ: A Santa Rita Pescadeira que é um espírito que atravessou o tempo, os séculos, ela fala da escravidão que já não esta na memória das pessoas, porque elas foram brutalizadas e em algum momento da vida as pessoas esqueceram, ou não querem falar sobre isso, porque é algo que os envergonha e entristece. A Santa Rita viveu períodos distintos e ela sabe que essa servidão é um processo da escravidão. Ela é um personagem que não tinha uma vida material, até o ritmo e fala não podia ser escrito como algo que fosse muito estranho a narrativa e para o leitor.

O que eu achei curioso desta personagem é que noutros autores brasileiros também referem estes espíritos, eles utilizam uma linguagem e um calão que eu não entendia muito bem, contudo foi mais fácil de deduzir o que a tua personagem queria dizer, porque tivestes esse cuidado, não é? De não te exceder neste tipo de linguagem para que os leitores pudessem entendê-la?
IVJ: Sim, a literatura tem de ter essa linguagem que permita que seja acessível a maioria das pessoas. Por mais particular que seja o retrato que esta passando, você pensa no leitor também. O escritor que escreve um livro pensando em si próprio, isso é uma viagem egoísta, quando a gente escreve esta a faze-lo para um público e a linguagem literária é algo que nos envolve, que é musical e que algo que nos convida a ler e a passar página e que abranja o máximo de pessoas.

Mas, querias voltar à Santa Rita Pescadeira.
IVJ: Foi um desafio escrever sobre esta personagem porque não tem uma vida material grande, ela é o vento, é movimento, ela se transforma em chuva e é muitas coisas. Eu pensei como fazer isso? E fazê-lo de uma forma crível e que no livro se transforma nesse espírito e possa ser alguém muito cativante que as pessoas gostem. Nesta crença e noutras no Brasil, as pessoas que incorporam esse tipo de espírito são chamadas de cavalo, é como se o espírito montasse nela e quem esta vivo não é mais a Miúda que a recebia, é a Santa Rita Pescadeira. Como a Miúda morre, na terceira parte do livro, e a Santa lamenta que ela morreu e que as pessoas que ficaram já não a conhecem, nem falam mais dela, nem sequer sabem quem ela é, ela é a história que esta desaparecendo e então, ela resolve intervir nessa realidade para provocar mudança e passa acompanhar essas irmãs e toda aquela tragédia que se abate em Água Negra. Se reparar tem uma parte do livro que é escrita na segunda pessoa, ela primeiro fala com a Bibiana e depois como Belonísia como se Santa Rita estivesse aqui sentada entre nós e ela vai contar-nos sobre a irmãs. Eu precisava, por isso que ela fosse uma personagem cativante e interessante que fosse crível e foi o desafio eu não fiz isso sozinho, foi graças as muitas histórias que ouvi no campo que me ajudaram a compor essa personagem e que é um lado muito rico da cultura Brasileira e que você vai encontrar também em outros povos, que falam dessas crenças que transcendem a realidade e transitam entre o mágico e a realidade.

Como o pai que também era mais do que um mágico, um curandeiro.
IVJ: Sim, o Zeca Chapéu Grande filho de Donana que tinha um chapéu grande, ela adotou um sombrero que era do marido e aquilo virou um sobrenome.

E porque só dizes a Miúda? Deduzi pela leitura e pelo tipo de letra utilizado que a conotação desta palavra só podia ser diferente no Brasil.
IVJ: A Miúda é um apelido de uma mulher, geralmente pequena, que não crescerem muito e que tem um especto de criança. Aqui em Portugal miúda é associado a criança, lá não é um substantivo usual, geralmente é um apelido. Então a Miúda da história é uma integrante da fazenda, que vive na mesma condição dos outros habitantes e ela aparece antes como a manifestação da Santa Rita e é como se ela pescasse, com os braços ela imita as ondas do mar e ela faz todo esse movimento. Na terceira parte ela já é idosa, morre e ninguém mais lembra da Santa Rita Pescadeira. Ela representa muitas mulheres.

Quando ela apareceu no livro eu pensei até que era uma entidade espiritual e não física até perceber que se tratava de uma pessoa quando referes que ela morre derivado a idade.
IVJ : Eu nunca pensei que isso ia causar confusão em Portugal, mas ainda bem que estão conhecendo outra conotação para esse nome. Mas, quando escrevi o livro eu pensei nas muitas das miúdas que conheci pelo caminho e é um nome muito comum no interior, principalmente no Nordeste.

Tu no final, o dono, o Salomão morre e ficámos sem saber qual das irmãs o matou. E deduzi que deixaste que o leitor fizesse as suas elações quanto à irmã assassina e fizeste isso de propósito como no princípio do livro, em que também não esclareces de imediato qual das irmãs ficou muda.
IVJ: E quem narra essa parte é a Santa Rita Pescadeira, a encantada. Ela começa no último capítulo a dizer que sente muita falta de ocupar o corpo e de se materializar na terra, ela encontra as irmãs nessa aflição e sente a necessidade de agrada-las, de ajuda-las e então ela incorpora em Bibiana e quando esta acorda não sabe porque tem sangue nas mãos, elas estão tão machucadas, tem bolhas e tem até de coloca-las na água fria. E ela entra também na Belonísia e sabe que ela é a força da natureza, que conhece bem a fazenda como ninguém, não tem medo de nada, mas é a Santa Rita que a esta possuindo e é ela que intervêm nessa realidade. É uma forma de ajudar essas mulheres retirando o peso de um crime, embora tivessem todas as justificativas para fazê-lo como forma de vingança, mas é a Santa Rita Pescadeira que conhece essa história ancestral da escravidão e que para libertá-los naquele momento sabe que é preciso fazer algo antes que sejam expulsos daquelas terras. Isso é que é importante que não foi a Bibi, ou a Belo a cometer o crime, mas sim a Santa Rita que usa os corpos daquelas mulheres corajosas para fazer justiça. No fim foi a Santa, mas usou uma das irmãs.

Porquê o título?
IVJ: Eu ainda quando novo quando estava mergulhado na literatura lusófona, como Eça de Queirós, o Júlio Dinis e ficava encantado com os poemas de Tomas António Gonzaga sobre a terra tudo isso se juntou com a minha descoberta literária contido num verso onde tinha o Torto Arado e eu penso nesse instrumento agrícola que atravessou um século, como os personagens o atravessam ao mesmo tempo. O Torto Arado é antigo, distorcido que não faz bem o seu trabalho, não faz sulco bonito na terra são até deformados e isso mostra essa distorção da sociedade, dessas pessoas que tem comportamentos terríveis, que tem de ser modificados e foi um título que se encaixou bem e para mim era perfeito.

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