Um olhar sobre o mundo Português

Voltei depois de um muito necessitado hiato e agora apresento uma edição recheada de experiências e multiculturalidade. Seja bem-vindo de novo

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

sexta, 28 dezembro 2012 17:33

A alma do viajante

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São as crónicas de viagem de Filipe Morato Gomes durante a sua volta ao mundo. Textos esses que foram publicados no Público e que foram compilados em livro.

Filipe Morato Gomes decidiu um dia fazer uma viagem ao redor do mundo. Ao contrário de Willy Fogg, no livro de Júlio Verne, não demorou apenas 80 dias e muito menos foi o resultado de uma aposta, mas antes de uma necessidade de partir. Bruce Chatwin, talvez um dos errantes mais conhecidos do mundo, atribuía esta ânsia pela viagem, pelo horror do domicílio, um comportamento quase irracional, que resultava do nosso ancestral comportamento nómada, que ainda resiste em alguns de nós.

A aventura que levou algum tempo, não vou dizer quanto, tem de descobrir ao longo dos milhares de quilómetros que percorre, pelas inúmeras localidades que visita e pelas pessoas que encontra pelo caminho. É uma visão pessoal dos vários continentes e das experiências que vive nas paragens mais recônditas do mundo.

O nosso viajante transita por vários países e as suas diferentes culturas através dos vários meios de transporte ao dispor do freguês e posso garantir que ao contrário do herói de Verne, nem sempre as coisas correram bem. Posso adiantar que não salva uma donzela em apuros, mas conhece outro tipo de mulheres pelo caminho. Se não leu as peripécias deste português no Público, pelo menos leia o livro. Boa viagem!

sexta, 28 dezembro 2012 17:28

A máquina de fazer espanhóis

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Não é um livro de fácil leitura no início. É um osso duro e requer persistência. Sendo uma obra literária sobre o envelhecimento, o Valter Hugo Mãe descreve uma realidade que o deixou consternado. E para melhor compreender esta obra, entrevistei o autor e eis o resultado da nossa conversa.

Há neste livro uma personagem que vai viver para um lar de terceira idade. Não será arrogante da sua parte descrever uma situação pela qual nunca passou?

Valter Hugo Mãe: Eu vejo as coisas assim, a escrita de ficção, literatura, tem mais a ver com a intensificação dos sentimentos e das percepções, do que propriamente com a experiência. A Agatha Christie não matava pessoas para saber como seria a cabeça de um assassino. Não temos que passar pela experiência de todas as personagens que inventamos para escrever sobre elas. Porque são isso mesmo, inventadas. E uma das coisas que mais me fascina no exercício da escrita, é exactamente isso, é esse poder da imaginação que leva sem deixarmos de ser nós, eventualmente sem deixarmos de sair da nossa casa, eu por norma trabalho na minha casa, entender e retratar ficcionadamente o que será a vida dos outros. Perscrutar o que será uma vida. Escrever um livro de ficção é sempre uma tentativa, um risco. A mim interessou-me muito escrever um livro sobre um homem de oitenta e quatro anos que absolutamente não sou eu, porque não poderia comparar-me com uma pessoa tão mais velha. Mas, interessou-me porque é um desafio grande, o tentar entender quais são as preocupações do que é plausível que preocupam um homem com essa idade.

Envelhecer preocupa-o? Medo de acabar como o personagem num desses lares de idosos?

VHM: Preocupa-me um pouco a perca das capacidades, da fragilização. Esta coisa de como eu digo no meu livro, esta coisa de vivermos um bocado contra o corpo. O corpo a certo ponto torna-se um inimigo nosso. E isso levanta-nos tremendas frustrações e acaba por nós abater. E não posso deixar de ter uma certa expectativa que não me impede de gostar de viver, e querer viver, mas que me cria uma necessidade de perspectivar o futuro, de passa-lo bem. É melhor fazer isto, ou não fazer aquilo, para não agravar o meu problema de costas. Ou os problemas de ossos. E há uma previdência que a mim me interessa, porque gostava de acreditar, mais do que isso, gostava de ter uma terceira idade com qualidade de vida.

A linguagem é outra das questões importantes neste livro. É duro de entrar na pele do personagem. Foi propositado para termos a noção do sofrimento do senhor Silva?

VHM: O que acontece a personagem é de tal forma violento que eu não achei que fosse interessante transformar logo no inicio do livro, numa coisa diferente daquela violência. Eu quis que retrata-se, que pudesse fazer justiça aquele tipo de sentimento, aquela disfonia total que tem a ver com o ter perdido a esposa, ter passado uma vida inteira que de repente vê-se esgotar-se num acto tão trágico. E por isso, tem a ver com o ritmo das coisas, depois eu acho que o romance acaba por levantar e acaba por arejar-se de alguma forma. Mas, a entrada do livro precisava desse negrume, porque era disso que estava a falar.

O senhor silva é uma metáfora para o país?

VHM: O senhor Silva é um representante do nosso povo. Um país entristecido, desmobilizado, desacreditado, e que depois vive com muitos paradoxos, gritar soberania mas invejar os espanhóis. Achar eventualmente, que não está bem em lugar nenhum. O senhor António Silva tem essa mistura e entre acreditar numa e outra coisa. É uma personagem que aqui e acolá, vai virar da esquerda para a direita. O cidadão comum é sempre menos estruturado do que podíamos para os catálogos. Catalogar as pessoas é uma definição e o cidadão comum é sempre indefinido, o sujeito é sempre um pouco mais assim e um pouco mais assado do que nós para a prática dos catálogos gostaríamos que fosse. E por isso arrumar as pessoas não é fácil. Não é fácil de uma penada retrata-las. O retrato só fica completo com esses paradoxos e idiossincrasias.

Qual das personagens tem mais de si no livro?

VHM: Talvez o queridíssimo senhor reformado do Museu Nacional de Arte Antiga, o senhor Franco, porque gosto muito daquela ilusão, da capacidade de se apaixonar. Da importância que dá aos livros. Encarar um livro como uma generosidade, algo que deixa generosamente às outras.

Gostava de ser espanhol?

VHM: Não! (risos)

 

sexta, 28 dezembro 2012 17:23

Última paragem, massamá

É um livro que estabelece uma dualidade temporal para conectar dois personagens. Um romance escrito ao ritmo veloz da vida urbana, cada vez mais desumanizada, mais amontoada e mais mirrada de sentimentos. É a primeira edição de um jovem escritor, Pedro Vieira, que retrata a vida ficcionada das pessoas com quem nos podemos cruzar todos os dias.

Há dois paralelos que estabeleces entre uma batalha do tempo dos romanos e a linha de comboio, porque?

Pedro Vieira: Uma porque há muitos paralelos que se podem fazer com a época e a forma como vivemos agora. Acho que basicamente o comportamento que havia em sociedade nessa altura, porque houve umas regressões no fim do mundo antigo, a idade média, têm muitas semelhanças com os nossos dias com a excepção da tecnologia, como é óbvio. O tipo de comportamento político, social, de pormenores de pessoas que vivem em prédios em altura, as ínsulas. Do crescimento da cidade desmesurado, da emigração em Roma, há muitas coisas parecidas com o agora. Em segundo lugar, fui buscar um episódio em particular, aquela batalha foi a altura em que o império parou de se expandir. E não cresceu mais. A partir daí foi sempre a regredir.

A analogia que estabeleces com a actualidade tem a ver com a decadência da sociedade?

PV: Não necessariamente, eu usei porque há uma figura particularmente importante nesse episódio que era um general de uma legião que sobrevive aquela batalha, a emboscado, mas mesmo assim decide suicidar-se porque acha que fracassou naquilo que tinha se tinha proposto fazer. E daí o paralelo com a minha personagem feminina que também perde o controlo da vida dela e acaba por decidir tirar a própria vida.

De alguma forma ao ler o livro tem-se a impressão que são baseadas em pessoas que encontravas no teu quotidiano, na linha de comboio…

PV: De alguma forma sim. Não há uma ligação directa, não individualizo, aquela cara que via é mais uma mescla disso. Eu sou um frequentador dos transportes públicos naturalmente. Por circunstâncias da vida profissional e também onde moro, é mais fácil andar de transportes do que de carro, e faz mais sentido até. Em particular os comboios, porque houve uma altura da minha vida que os usava com frequência, é um viveiro para a escrita, porque é muito fácil olhar para as pessoas e criar-lhes vidas. Adivinhar quem elas são, o que elas fazem todos os dias ali, porque saem naquela estação com os sacos a tiracolo, porque choram ao telemóvel, porque da algazarra com os amigos. E então para mim é mais fácil, porque sobretudo escrevo sobre o que vejo, claro que há uma carga de ficção sobre isso, mas é o universo em que vivo.

Reparei que as personagens nada tinham de ti, da tua vivência.

PV: Não, de facto. O que há muito de meu lá é as expressões idiomáticas, no humor que utilizo, eu está muito no livro. Uma pessoa que me conheça minimamente consegue identificar-me perfeitamente como narrador daquela história. Mas, em termos de figuras daquela história não tenho ligação nenhuma na realidade.

sexta, 28 dezembro 2012 17:20

A mensagem

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A mensagem

Canto X

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Falar de Fernando Pessoa é falar de um dos maiores poetas portugueses do século XX. É falar do homem de personalidade inquieta que, o levou a criar vários heterónimos, com vidas e estilos diferentes de escrita. É também falar da mensagem onde descreve a epopeia de um pequeno país a beira-mar plantado.

A primeira vez que abordamos os poemas de Fernando Pessoa somos obrigados a pensar. Sim, a pensar, a reflectir e a discutir o sentido do que escreve. Não é uma leitura fácil e para entrar na pele das personalidades que criou, há algo de nós mesmos que tem de ser posto de lado. Não podemos aborda-lo do nosso ponto de vista, temos que manter a mente em aberto, passar uma espécie de esponja no nosso raciocino porque o que esta para vir, é algo que nos ultrapassa. E necessitamos de ajuda, é necessário uma orientação e aí dependemos da preciosa ajuda dos nossos mestres. Creio mesmo que é uma violência ler Pessoa tão jovem. Não me interpretem mal, mas compreender alguns dos poemas dos heterónimos é um processo doloroso, senão mesmo assustador. Requer um esforço intelectual para o qual  nem todos estamos a altura, numa tão tenra idade. Para ler Pessoa é preciso viver muito. É preciso ter alma de velho.

Fernando Pessoa deve ter compreendido isso de si mesmo, os vários eus que albergava na sua mente poderiam ser demasiado para os comuns mortais, daí que criou alguns cuja poesia é mais acessível, mais singela quase. Ele fala sempre muito da sua solidão, de facto ser um génio devia ser um fardo muito pesado e solitário. Doloroso até e se calhar por isso, temos de ter sofrido para o entender.

A mensagem contudo, é uma viagem por Portugal, pelos seus heróis, pelas suas alegrias e tristezas é uma narrativa moderna de um país sonhado e talvez falhado. Perdedor não no sentido de identidade, mas no sentido das grandes expectativas que não se concretizaram. A sua leitura é obrigatória porque fala de uma nação, é uma obra paralela às Lusíadas de Camões, mas sem a exaltação. É mais uma constatação do sonho do país desfeito pelas brumas. Tudo é incerto e derradeiro/ tudo é disperso, nada é inteiro/ Ò Portugal, hoje és nevoeiro.

Leiam esta magnifica obra, mas antes para o compreender têm de ler a biografia do homem e visionar um retrato completo das várias personalidades em que se fragmentava, para poder absorver as palavras que usava ao seu bel prazer. Boa Leitura.

segunda, 21 março 2011 00:00

Miguel, o insubmisso

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Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

O dia Mundial da Poesia foi ontem, de qualquer forma quero homenagear o escritor, ensaísta e também poeta de Coimbra, Miguel Torga. Através de um dos seus mais singelos livros, os novos contos da montanha.


A escrita de Miguel torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Costa, teve sempre uma forte carga emocional . Os novos contos da Montanha são disso prova. Este livro retrata o quotidiano do povo , das almas penadas como lhes chama, do Portugal serrano descrito pelo do autor, nascido no Norte profundo, que nunca esquece as suas origens. Não espere desta obra uma epopeia literária, leia com respeito e compreensão, porque como o próprio escritor refere no prefácio, justificando a necessidade que sentiu em retratar este mundo transmontano e cito: "Prometi isso porque me sentia humilhado com tanto surro e com tanta lazeira, e envergonhado de representar o ingrato papel de cronista de um mundo que nem me pode ler".

O tal mundo rural que descreve neste livro, é o país dos anos 60, pobre, isolado e analfeto que tanto o comoviam, e ao mesmo tempo entristeciam o escritor. Como podemos ler esta obra? Como quisermos, podemos abri-lo em qualquer dos contos e deliciar-nos com as singelas personagens que desfilam pela escrita de Miguel Torga. Trata-se uma leitura fácil e acessível para o leitor e um clássico da literuratura portuguesa, muitas vezes esquecido, mas que não deixa de emociar-nos pela delicadeza e ao mesmo tempo crueza como descreve os seus irmãos serranos. Destaco três dos personagens que mais gosto, a Mariana , o pastor Gabriel e o Alma grade, cada um destes contos descreve as pessoas que viviam nas serranias e a sua maneira de estar na vida dominados e despendentes da natureza, dos seus animais e das suas crendices. Longe de tudo, do poder, da política que nada lhes dizia e onde a igreja dominava, porque o dia-a-dia era uma labuta constante pela sobrevivência. Espero que gostem e leiam sempre... uma e outra vez. Boa leitura

sexta, 28 dezembro 2012 16:58

Roberto Gomes, um espírito indomável

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É um dos nomes mais promissores da BD em Portugal e recentemente ilustrou a vida de um herói da república. Um trabalho que não esgota o seu talento pouco reconhecido no nosso país.

Como surgiu a tua paixão pela Banda Desenhada?

Roberto Gomes : Os primórdios mesmo foram na escola secundária, onde conheci um dos meus melhores amigos, que já desenhava com frequência. Eu já o fazia mas nunca com muita seriedade, ou mesmo que havia profissões que utilizem o desenho. E ao vê-lo desenhar, tive uma epifania, quando vi a BD e reparei que existiam pessoas por detrás disto, e ai caiu-me a ficha e eu me apercebi, que se eu desenha-se e continua-se a treinar, eu poderia desenhar como aquele rapaz. E foi assim.

E em termos de carreira?

RG: Isso foi muito mais tarde e não sei se posso dizer que tenha criado nome na banda desenhada. As oportunidades têm sido muito poucas. Eu tenho formação em design gráfico e a BD surgiu mais como algo secundário, a partir de determinada altura. E quando surgem projectos, eu vou alternando. A BD apareceu na faculdade, quando eu frequentei um workshop com um artista bastante conceituado que é o José Carlos Fernandes, e que depois mostrou interesse pelo meu talento. E propôs-me um desafio, ele tinha um conjunto de histórias na gaveta que ele pretendia entregar a outros desenhadores para fazerem algo diferente. E propôs-me desenhar uma história, eu ilustrei, ele gostou e daí resolvemos fazer um livro de 72 páginas. Pertence a uma colecção intitulada,”the black book histories”. Já saiu o volume um, com outro desenhador e o meu é o volume dois, que têm como subtítulo “Mar de Heraldo”.

Guia-nos pelo processo de criação de um livro de arte sequencial.

RG: O José Carlos escreve pequenas histórias e não guiões e o desenhador tem a liberdade de as interpretar como quiser. O desenhador constrói a sequência de imagens, um storyboard, decide através das palavras dos textos o que deve ser representado por imagens, aí as palavras deixam de fazer sentido, algumas cortam-se no texto para não haver redundância com o que esta ser imaginado e basicamente é isso. Ou seja, nós criamos as imagens sequenciais.

E qual foi o teu maior desafio? E o mais difícil?

RG: O último livro que desenhei foi o José Mendes Cabeçada Júnior, um espírito indomável. Era a cerca da vida de uma figura histórica e tínhamos que condensar uma existência, cheia de factos importantes em 40 páginas. E isso foi um desafio. E os prazos nunca são alargados e é uma grande responsabilidade, tinha que ter uma aparência final com qualidade e contar bem a história. E depois foi encomendado pela Câmara Municipal de Loulé e eles queriam que fosse o José Carlos a desenhar, mas ele tinha muito trabalho e não podia. Então eu decidi basear-me no estilo dele, acrescentando o meu, e criando uma simbiose com as minhas particularidades e as dele, ou seja, do que costuma fazer nas suas BD. E assim nasceu este livro único, com pequenas influências do José Carlos e que têm o meu desenho.

 

terça, 01 março 2011 00:00

O bazar alemão

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É a mais recente obra de ficção da escritora madeirense que aborda um período conturbado da historia do século vinte, a segunda guerra mundial, num contexto diferente do habitual. É a história da presença de nazis numa ilha perdida algures no Oceano Atlântico.

Sempre gostei de romances históricos porque, por norma os escritores têm sempre o cuidado de contextualizar as figuras principais do enredo num tempo e espaço o mais próximo dessa mesma realidade. Romanceiam a interacção entre os personagens, mas isso torna a narrativa mais interessante e ajuda a “prender” o leitor. Quando a escrita é fluída e clara, sentímo-nos transportados para essas paragens sem nunca lá ter estado. Descrevem o quotidiano das gentes, os objectos e os gestos que nos são estranhos, mas que ajudam à narrativa. “Viajamos” sentados no sofá e esse deleite que só os melhores nos fazem sentir. Por isso, quando pela primeira vez dei de caras com esta publicação fiquei deveras surpreendida e intrigada pelo título. A seguir fiquei ainda mais assombrada com o enredo, uma vez que, desconhecia esse capítulo da história da Madeira.

A minha noção da 2ª Grande Guerra foi-me transmitida pelos meus pais, que recordavam uma infância pautada pela grande escassez de víveres na ilha na altura, e mais, uma má recordação olfactiva que acompanhou, em particular, o meu pai, com os famosos candeeiros com óleo de baleia. Até hoje quando fala sobre esse período, recorda que não podiam ter as luzes acesas, as janelas eram cobertas com lençóis escurecidos para não deixar passar a mais pequena franja de luz, já que os aviões de guerra sobrevoam a ilha e a única forma de iluminação aceitável, disponível e barata, era alvo do desagrado de todos devido ao seu cheiro nauseabundo, mas não me recordo de nenhuma referência aos nazis. Aliás, foram esses os motivos que me levaram a ler este livro. E pela primeira vez, se levanta o véu de uma sociedade Funchalense que até então desconhecia, uma vez que, as reminiscências de que falei eram no meio rural de onde os meus pais eram originários, e como a política também chega a um ponto aparentemente algures perdido no Oceano Atlântico.

A Helena Marquês conta-nos com rigor, a história dessas várias personagens que se cruzam em vários pontos da ilha e das suas fragilidades como seres humanos. A acção centra-se nas acções de intimidação perpetuadas pelos Nazis em solo madeirense e a perseguição que encetaram aos judeus locais. Leiam e deliciem-se. É quase num fôlego. E mais não digo, para isso terão de o ler! Boa leitura.

 

segunda, 14 março 2011 00:00

O amor negro

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Uma obra literária de Mário Cláudio que não é um romance, mas sim o relato de várias vidas enclausuradas. É uma pisco-reportagem de comuns mortais imortalizados pela caneta do autor.

A Ursamaior é um livro que percorre a vidas de várias pessoas que por diversos motivos, (e poderão constatar quais na vossa leitura) vão parar a cadeia. As histórias não estão interligadas entre si, nem sequer os “personagens”, aliás são todos casos reais, o único elo porventura é o espaço prisional.

Esta publicação têm um carácter muito pessoal para mim, uma vez que o seu conteúdo foi debatido nas aulas com o próprio autor, Mário Cláudio que  foi um dos docentes da minha faculdade.

Das pequenas histórias que constam desta psico-reportagem, designação criada pelo próprio, houve uma que nunca esquecerei porque levantou uma discussão acesa na sala de aula, o drama de Henrique, o estudante de medicina que mata a sua ex-namorada, em pleno dia, na universidade que ambos frequentavam. O inquietante Mário Cláudio interrogou-nos se haveria o chamado amor negro?

Um amor que desconhece o constante sorriso nos lábios, a felicidade de estar na companhia de alguém que nós ama e a partilha daqueles momentos e sensações inesquecíveis e da cumplicidade implícita.

Será que há um amor feito de ansiedades quase doentias pela presença do ser amado, de troca de insultos de recriminações que terminam em autênticas batalhas, de tristeza sim, por não conseguir arrancar da alma a necessidade de estar ali colado a aquela pessoa com que...não podemos viver com ela, nem sem ela?

Ou será que o crime que Henrique cometeu resultou apenas de um ciúme doentio pela perda da algo que tinha como seu? Para responder a estas duas questões... sim, vai ter que ler! Sim, é verdade, sou uma desmancha-prazeres. Que horror! LER? Não podia desembuchar tudo logo! Não, leia, pense e reflicta. Só posso adiantar que Mário Cláudio considera que o Henrique não é mentalmente instável.

Quanto as conclusões do debate que se gerou na nossa sala, apenas posso dizer que o resultado foi inconclusivo. Havia aqueles que defendiam a existência de tal coisa, o tal amor negro e outros que pura e simplesmente argumentaram que isso não passava de um termo romântico para justificar um comportamento de si inaceitável. Leia e decida. Boa leitura!

terça, 01 março 2011 00:00

Full house, as apostas estão lançadas

É a história de um jogador inveterado de poker e as peripécias que estão na origem de uma série de problemas. Uma curta-metragem de Rui Rodrigues e Bruce Paulino da Silva que, ao contrário do nosso anti-herói foram à luta e venceram.

Como surgiu a ideia para este filme?

Rui Rodrigues: Foi uma ideia de café que surgiu com o Bruce que é outro realizador. Havia na Madeira a mentalidade que não se faz nada, que só se consegue fazer algo se houver apoios. E eu e o Bruce decidimos fazer um filme sem a ajuda de ninguém. Eu tinha um folha de rascunho com uma história, e ele disse também. Conhecia-mos a Die4films, vamos falar com eles e arriscar. Éramos dois miúdos sem formação na área, mas com muita vontade de levar o projecto para frente. Contactamos a produtora e eles gostaram da ideia. Começamos por trabalhar o guião, desenvolvemos a história e tornou-se sólido. Foi então apresentado aos actores, na altura fazíamos teatro e eles eram nossos amigos e surgiu o FullHouse. O filme foi uma chapada psicológica para todos aqueles artistas que vivem naquele mundo em que só podem fazer arte se tiverem apoios. Um artista pega pela naquilo que têm trabalha e expõe. Nós queríamos ver até podíamos ir. Ganhamos o festival cá na Região, mas também concorremos ao Festival de Cannes. O curioso é que conseguimos mostrar a curta-metragem primeiro lá, do que aqui. Foi estranho.

 Qual foi a reacção em Cannes a vossa curta?

RR:Eles gostaram. E acharam que foi boa para uma primeira experiência.

 E cá?

RR:No Festival Internacional do Funchal? Foi muito bom. Os jornalistas e os críticos de cinema disseram-nos: é bom, esta porreiro, para a primeira abordagem está cinco estrelas. A história é que já estava batida, é poker que dá para o torto, onde há sangue por todo o lado, mortos e feridos. É a tal coisa, somos dois jovens que adoram cinema e daí juntamo-nos e vamos fazer um filme, uma daquelas loucuras que surgem no momento.

 Se não tinhas qualquer formação na área, como foi que te surgiu essa necessidade de escrever pelo menos um rascunho?

RR: São coisas que escrevemos e não sabemos o porquê. Era engraçado fazer isto e apontei. E quando o Bruce falou em fazer filme, eu lembrei-me logo do papel. Há momentos na vida em que fazemos determinadas coisas e não sabemos porquê. Acho que toda a gente tem uma fase em que, vamos fazer isto e ver se dá frutos no futuro. E deu.

 

quarta, 12 dezembro 2012 17:19

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