Um olhar sobre o mundo Português

A edição desta semana dá voz  aos insurrectos, os que saem fora da norma e seguem a sua própria voz, como os meus convidados. 

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Yvette Vieira

Yvette Vieira

terça, 26 julho 2016 15:49

Detido

Trata-se de uma curta-metragem de Diogo Brazão que se debruça sobre a dualidade de um espaço quase que parado no tempo, em contraponto com o mundo que lhe passa ao lado sempre em movimento, sempre em mutação.

Como surgiu a ideia para este filme? Apercebi-me que é sobre o teu pai.

Diogo Brazão: Sim, a ideia surgiu para a disciplina de realziação na ESAD e como tinha um tema livre optei por escolher a vida do meu pai, que eu sabia através de familiares que ele tinha tido ambições, queria ser alguém. Não como o eu o conhecia que era alguém que trabalha numa mercearia, mas tinha o sonho de ser médico.

Ele nunca te falou sobre isso?
DB: Não, aí comecei a relacionar as coisas, o espaço, todo o sentimento de que é do estar preso a um lugar contra a sua vontade, ter de...

Estar detido?
DB: Sim, como o próprio título sugere. E a partir daí começou todo o processo sobre este trabalho.

É também um retrato sobre solidão? Porque no filme é visível que ao longo do dia o teu pai esta sempre só.
DB: Eu criei analogias também num processo criativo, por exemplo, queria transmitir o isolamento, o próprio espaço quase que o cobria, o esmagava em contraste com a rua, porque o movimento dos carros é constante, há o som.

Há outra questão que ressalta é o facto de se tratar de um comércio tradicional que esta moribundo.
DB: Sim, já são poucos, mas para ele é o que conhece, é a vida dele.

E em relação ao resto das pessoas aperceberam-se que se tratava de um espaço pequeno?
DB: Sim, eu só filmei uma pequena parte, porque foi isso que queria focar, a janela, o espaço central.

O teu pai nunca te falou sobre os seus sonhos?
DB: Não, não.

Foi difícil aborda-lo sobre este projecto?
DB: Não, depende da relação de pai com filho.

E quando viu pela primeira vez qual foi a sua reacção?
DB: Não houve qualquer tipo de reacção, estava à espera de alguma coisa, mas não.

Ficaste decepcionado com isso?
DB: Não, como conheço o meu pai, foi algo natural.

E o exterior, a tua família o que disseram em relação à tua curta-metragem?
DB: Gostaram, mas foi mais de apoio.

https://vimeo.com/user19670879

O país destaca-se pela qualidade de água das suas praias e áreas balneares fluviais.

Este ano, o relatório anual sobre a qualidade das zonas balneares costeiras e de água doce, relatado pelos Estados-Membros da União Europeia, elaborado pela Agência Europeia do Ambiente (EEA), em cooperação com a Comissão Europeia DG Ambiente, dá parabéns a Portugal pela qualidade da água das praias nacionais.
O relatório avaliou a qualidade das águas balneares em todos os 28 Estados-Membros da UE, bem como a Albânia e Suíça da estação anterior de 2015. O documento indica as várias áreas onde se espera que a qualidade das águas balneares sejam boas este ano, Portugal destacou-se porque 94% das águas balneares é de boa ou excelente qualidade. Uma estatística muito positiva tendo em conta que só no nosso país este ano existem 71 praias com zero poluição, como foi noticiado anteriormente pela nossa revista. A EEA colocou mesmo um post na sua página de Facebook que esta a tornar-se viral registando milhares de 'likes' e mais de 2300 partilhas, além de comentários de vários portugueses, como também de cidadãos estrangeiros.

Mais informações sobre a qualidade da água em Portugal e outros países europeus: http://www.eea.europa.eu/.../sta.../state-of-bathing-water/state

terça, 05 julho 2016 15:22

A bela anvers

 

Venha conhecer um pouco sobre a segunda cidade mais importante da Bélgica.

Antuérpia é uma cidade com várias facetas, por causa da influência de várias culturas que confluem nesta urbe e no país, por isso, não se admire que tenha dois nomes, a mais comum designação é a de origem flamenga e Anvers é a sua versão francesa, mas esta mulculturalidade e a afabilidade dos belgas tornam esta urbe irresistível e atípica. Para começar este períplo, obrigatoriamente a visita deve ser feita de comboio, sem margem para dúvida, para poder ter o privilégio de entrar numa das estações mais extraordinárias da Europa, não só pela sua beleza estética, como arquitectónica, porque dispõem de quatro pisos no seu interior, é verdade, parece inimaginável, mas é possível. Vários comboios entram e saem ao mesmo tempo em várias gares, em diferentes níveis, e temos de aceder as plataformas por uma escada rolante, é simplesmente fabuloso! O próprio edifício é lindissímo adornado por colunas de pedra e estructuras de aço e vidro, uma fusão entre o novo e o antigo que se conjugam de uma forma notável. À saída damos de caras literalmente com um dos grandes e eternos amores das mulheres, os diamantes. Mesmo à vossa esquerda tem início o bairro judeu com dezenas e dezenas de lojas apinhadas destas pedras preciosas sob a forma de jóias, ou mesmo à venda em solitário, com preços que variam consoante o peso, a cor, a pureza e a sua lapidação, sim, não há como negá-lo, uma mulher sempre sabe o que lhe agrada e o que melhor a adorna! Depois de um longo suspiro de tristeza, nada melhor para a frustação do que uma outra grande paixão femenina, lojas e lojas de chocolate belga, um do melhor do mundo, ao longo da Avenida de Leys, apinhado de comércio tradicional e não só.

 
Fazendo um pequeno desvio, numa das ruas transversais, é possível visitar uma das casas mais famosas desta cidade onde viveu um dos grandes pintores da Bélgica e do mundo, Peter Paul Rubens. O museu é interessante e nele podemos apreciar não só alguns dos trabalhos pictóricos deste artista flamengo, dos seus amigos e assistentes, como podemos espreitar o belo interior preservado deste espaço que habitou com a sua família. Um dos aspectos mais curiosos e em bom estado de preservação é o “papel de parede” que é feito de cabedal adornado, sim, apenas os mais ricos podiam decorar as suas paredes desta forma e isso é visível em todo o interior, bem como o mobiliário alguns do quais inspirado no barroco e imagine-se, uma prensa de linho.
Outra visita obrigatória é o Grote Markt, uma praça onde esta à Câmara Municipal da cidade, num estilo renascentista flamengo, bem como, a catedral de Notre-Dame de Antuérpia, mesmo em frente, um dos mais belos monumentos de gótico na Europa e um dos mais altos da cidade com os 123 metros de altura e que vale a pena visitar seu interior nem que seja pelos seus magníficos vitrais e obras de Rubens. Todas estas edificações e os prédios históricos circundantes estão classificados como património universal da Unesco e devo acrescentar merecidamente.
Num dos panfletos para turistas que adquiri encontrei uma outra informação no minímo curiosa, uma igreja edificada pelos jesuitas, de São Paulo, e que é considerada a oitava maravilha do mundo, foi lá espreitar e tal título se deve a quantidade de mármore que adorna o seu interior, não posso dizer que fiquei rendida ou decepcionada, mas vale a pena a visita nem que seja pelo seu valor artístico. A minha divagação só poderia terminar junto do estuário do rio Scheldt, no Her Steen uma das fortalezas mais antigas da cidade, construída para demover os ataques dos vikings, é preciso não esquecer que Antuérpia é desde o tempo dos romanos um dos portos mais importantes da Europa, se caminhar ao longo das muralhas poderá avistar a paisagem do outro lado da margem e no final há um edifício moderno, o Aan de Stroom museu, ou Mas, uma estructura contemporânea de 10 andares que dispõem de várias salas para exposições temporárias, lojas e no topo tem uma vista panorâmica da cidade para mais tarde recordar.

terça, 05 julho 2016 15:04

Chapéus há muitos

Com o verão à porta nada melhor que um chapéu para refrescar as ideias.

A origem do chapéu esta intrisicamente ligada à necessidade de cobrir e prender o cabelo, daí a origem do seu nome em latim, “cappa” ou “capucho”. Os primeiros modelos surgem há 4000 anos a.c., no antigo Egipto, Babilônia e Grécia e não eram mais do que uma faixa de tecido presa na cabeça. Actualmente essa tira estreita é colocada em torno da copa dos chapéus da atualidade,a fita ou bandana, que é um remanescente desse primeiro protótipo. O primeiro chapéu efetivamente usado foi o "pétaso" por volta do ano 2.000 a.c. Tratava-se de um chapéu dotado de copa baixa e abas largas que os gregos faziam uso em suas viagens como uma forma de proteção. Era uns tipos práticos, ajustáveis, podendo ser retirado com facilidade, tendo perdurado na Europa por toda a Idade Média. O dado curioso sobre a história deste acessório de moda é que se ao princípio o chapéu surgiu apenas pela necessidade de cobrir a cabeça, ao longo dos séculos foi sendo apurado nas suas mais diversas formas e tamanhos por uma questão de estatuto social, o clero e a nobreza usavam-no para distinguir-se das restantes classes e como sinal da sua riqueza. No que concerne a evolução dos modelos femininos estes surgem por imposição do clero, era necessário cobrir a cabeça e os cabelos por pudor e respeito, segundo o livro a história do chápeu, “o abrigo mais simples era constituído por uma peça de linho, caída sobre os ombros ou abaixo deles. Os véus de noiva e as mantilhas das espanholas são sobrevivência da moda desse tempo. No século XIII, costumava-se prender a este véu, duas faixas, uma sobre o queixo e outra sobre a testa, de modo semelhante ao hábito que as freiras ainda conservam. No final da Idade Média, era hábito das mulheres colocar uma armação de arame com formatos de coração, borboleta, etc sob a peça de tecido tornando-os extravagantes. Os cabelos eram penteados para trás, escondidos, e, se cresciam na testa, eram raspados para que o chapéu fosse a atração principal. Em 1500 começa-se a usar os capuzes enfeitados com jóias e bordados. Muitos outros tipos surgiram até o final do século XVIII, quando apareceram as primeiras chapelarias, lojas onde se comercializam chapéus, que utilizavam em seus chapéus materiais como a palha, o feltro, tecidos, enfeites variados e elaborados de forma a combinar com os penteados altamente sofisticados da época”.
Os chapeleiros passam a ser assim um dos ofícios mais importante ao longo dos séculos, que atinge um dos seus auges no período de Eduardo VII de Inglaterra, filho da rainha Vitória, quando surgem os chapéus denominados de flamboyant por causa do uso de aves e das suas penas como adornos. “Por usarem usarem um tipo de químico venenoso, com base de mercúrio, para tratar e preservar o brilho das plumas de aves usadas pelas senhoras da corte da era eduardiana estes profissionais eram contaminados por metais pesados que lhes atacavam o sistema nervoso central. A toxicidade deste produto químico era tanta que muitos artesãos apresentavam sintomas de graves danos ao sistema nervoso central, como a síndrome de dança de São Vitor, caracterizada por contínuos movimentos involuntários dos músculos da face e das extremidades, chegando a convulsões” cita ainda a publicação. Daí o uso da expressão "louco como um chapeleiro" que foi consagrado num dos personagens do famosos conto infantil “Alice no país das maravilhas”. Com o decorrer do tempo os chápeus ganham ainda mais notoriedade e com a era da indutrialização tornam-se um acessório mais democrático.
Actualmente, podem ser fabricados de várias formas, com diversos materiais e modelos, mas a sua utilização passou de quotidiana para pontual, ou seja apenas é usado em cerimónias importantes, ou como acessório do moda. Curiosamente, um dos modelos masculinos mais populares, o famoso panamá, é agora usado pelas mulheres e continua a ser um sucesso ao nível mundial, porque não só é sinónimo de temperaturas tropicais, como pelo seu elegante formato e acabamento, mas existem os mais diversos modelos e materiais que ampliam a gama de adornos para a cabeça, basta escolher, usar e abusar.

 

 

 

 

terça, 05 julho 2016 15:02

O tempo dos amores perfeitos

É um romance histórico de Tiago Rebelo que nos remete para à Angola do final do século XIX.

Comecei a ler este livro por sugestão de uma colega, embora seja fã incondicional de livros com uma vertente histórica, reconheço que nunca tinha tido vontade de ler o chamado “Nicholas Parks” português até “o tempo dos amores perfeitos” e devo dizer que este escritor é bem superior ao autor norte-americano. Este obra, em particular, debruça-se sobre a vida do tenente Carlos Montanha e o seu amor proíbido por Leonor de Carvalho, na Angola de 1897 e devo dizer que se trata de um romance de proporções épicas. A prosa de Tiago Rebelo é de grande beleza estilística, os personagens são fascinantes nas suas ideossicrasias e a estructura do próprio drama é empolgante, o que torna a leitura viciante. Um dado curioso desta novela é que é baseada em factos reais, Carlos Augusto de Noronha e Montanha de facto existiu e deixou para a posterioridade um livro intitulado “Odisseia dum pioneiro colonial nos sertões de Angola” onde descreve as suas aventuras no continente Africano que serve como base fidedigna para este romance sobre uma época conturbada da história de Angola. Mas isso porventura nem é o mais relevante, ao meu ver, o aspecto mais extraordinário desta obra é que o personagem principal é um antepassado de Tiago Rebelo e foi o irmão do autor, Francisco Montanha Rebelo que nas suas investigações geneológicas não só descubriu o valoroso familiar e a sua pequena publicação, retirando-o da obscuridade, como ainda, instigou o escritor para escrever sobre ele e dois anos depois desta descoberta surgiu “o tempo dos amores perfeitos”. Não quero adiantar mais sobre esta história notável, apenas posso acrescentar que vale a pena ler esta aventura que tem como pano de fundo uma ex-colónia no século final XIX, onde nasce um grande amor devorador e voraz como a própria paisagem de Angola. Boa leitura.

terça, 05 julho 2016 14:45

Uma gota no oceano

Trata-se de uma organização não governamental socioambiental brasileira que tem vindo a bater-se pelos direitos dos indígenas e das suas terras e pelos recursos naturais deste país, numa altura de grande conturbação social e política que põe em causa todo o trabalho desenvolvido em prol destas comunidades e da saúde ambiental do Brasil e do planeta, como explica uma das fundadoras Maria Paula Fernandes.

Porquê sentiste a necessidade de criar uma organização ambiental? O que esteve por detrás da tua decisão?
Maria Paula Fernandes: A ONG "Uma Gota No Oceano" nasceu do sucesso estrondoso da campanha "É a Gota D´Água +10" que em 2011 questionou a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Realizada sem qualquer recurso ou apoio de mídia, reuniu 1 milhão de assinaturas em uma semana na petição contra a obra no Rio Xingú. Diante desta resposta, concluímos que havia uma demanda para produção de conteúdo socioambiental, em linguagem de comunicação de massa, como forma de suprir o pouco espaço do tema no canais tradicionais de comunicação na época. Nossa organização, como o nome sugere, é colaborativa e tem por missão apoiar o cidadão como agente transformador da sociedade pela informação consistente, independente e envolvente.

A destruição da mata Atlântica por questões comerciais em que prejudica os povos indígenas do Brasil?
MPF: A destruição da Mata Atlântica prejudica todos os brasileiros porque é um bioma importante para produção de água e manutenção do ciclo de chuvas no país. No caso dos indígenas, temos populações confinadas em pequenas áreas que os impedem de viver do modo de vida tradicional, transformando a realidade de uma forma que vivem de forma semelhante à indigentes.

Qual tem sido o tipo de intervenção da vossa organização ecológica depois do desastre ambiental provocado pelo rompimento da barragem Fundão?
MPF: A tragédia de Mariana é o maior desastre ambiental da história do Brasil e vem evidenciar a negligência com que os órgãos de controle e fiscalização são negligentes com nosso patrimônio ambiental. Em nossa plataforma, formada por nossa página no FaceBook, Instagram, twitter e newsletter, tratamos do assunto, de forma randômica e holística, com outros temas que trabalhamos como direitos indígenas, mudanças climáticas, desmatamento, alternativas energéticas, saneamento básico... para manter o tema em pauta, mas sem ser cansativo para a audiência.

Existe afinal legislação que protege os povos indígenas do Brasil? E se existe porquê é ineficaz? Já que só quando a Funai publicou o estudo da delimitação da Terra Indígena Sawré Muybu, no Pará, onde vive a maior parte do povo Munduruku, só aí o Ibama suspendeu o processo de licenciamento da usina hidrelétrica São Luiz do Tapajós.
MPF: A Constituição de 1988 garante aos povos tradicionais o direto às suas terras ancestrais e manutenção do modo de vida. O que acontece hoje no Brasil, em resumo, é que o agronegócio está de olho nas últimas grandes áreas verdes, que são justamente as Terras Indígenas. Como este setor tem enorme peso em nossa balança comercial, além de financiar campanhas políticas e ser grande anunciante dos maiores veículos de comunicação do país, estamos estes direitos serem ameaçados no Congresso Nacional em nome do desenvolvimento, como estas aqui relacionadas:
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215 é uma das mais graves ameaças aos direitos garantidos aos povos indígenas na Constituição e um dos principais instrumentos de pressão da bancada ruralista para tentar enfraquecer os processos demarcatórios. A PEC pretende transferir do Governo Federal para o Congresso a última palavra sobre a demarcação de Terras Indígenas.
O Projecto de Lei do Senado (PLS) 654 busca enfraquecer o licenciamento ambiental, criando um “rito sumário” curtíssimo, de cerca de oito meses, para o licenciamento de grandes obras consideradas estratégicas pelo governo, como grandes hidrelétricas, estradas e linhas de transmissão.
O Novo Código de Mineração pretende simplificar os procedimentos necessários para a execução de atividades mineradoras, que têm, em geral, grandes impactos socioambientais.
O Projeto de Lei 1610 (PL) objetiva regularizar a mineração em Terras Indígenas.
O PEC 76 dá aos índios participação no aproveitamento de recursos hídricos e na exploração mineral em Terras Indígenas (TIs). Na prática, a proposta pretende abrir as TIs à instalação de hidrelétricas, empreendimentos com alto potencial de destruição do meio ambiente e dos modos de vida das populações tradicionais.
Os PL 1216/2015 e 1218/2015, que buscam alterar a forma como se dão os procedimentos de demarcação de TIs no país.
O PL 4148 que acaba com a obrigatoriedade do símbolo de transgenia em rótulos de produtos com ingredientes geneticamente modificados.
 E já que você mecionou o caso da TI Sawré Muybu, o governo em exercício está ameaçando rever todos os estudos e portarias referentes à TI publicados pelo governo Dilma neste semestre.

Como se pode conciliar as necessidades energéticas do vosso país com as reservadas para os indíos?
MPF: Por nossa posição geográfica e extensão territorial, o Brasil tem um enorme potencial energético tanto em energia eólica quanto fotovoltaica, além de termos outras opções em menor escala como a partir da biomassa, pelo enorme produção agrícola e a partir das ondas, basta observar a nossa costa, logo não precisamos avançar sobre as terras indígenas. A nossa política energética ainda pretende expandir o número de hidrelétricas na Amazônia, mas o discurso de que essa seria uma energia limpa já não engana mais ninguém, principalmente na Amazônia onde há impactos socioambientais gigantescos. Além disso há estudos que mostram que ao invés de construir novas hidrelétricas poderíamos produzir muito mais energia e gastando muito menos se simplesmente modernizássemos as hidrelétricas que já possuímos e investíssemos em modernizar nossas linhas de transmissão. Ou seja, a que interesses a nossa Política Energética realmente está atendendo?

Com a instabilidade do governo em Brasília como é que “uma gota no oceano”, pode impedir a aprovação do PEC 65 que praticamente acaba com a obrigatoriedade do licenciamento ambiental para obras públicas?
MPF: Neste momento existe uma enorme guerra de informação para tirar partido da enorme incerteza política e econômica, por isto estamos concentrados em identificar oportunidades e oferecer à imorensa tradicional acesso à pesquisas e especialistas independentes, com o intuito de fornecer um outro ponto de vista destas questões às redações.

Que acções pretendem levar a cabo para proteger as comunidades indígenas no vosso país, num momento da história do Brasil de grande instabilidade política e social?
MPF: "Uma Gota No Oceano" faz parte da comissão de comunicação da Mobilização Nacional Indígena e, juntos com outras organizações parceiras, atuamos coordenadamente para romper a barreira do preconceito e levar a voz dos povos indígenas à população.

O facto de existirem tantos obstáculos para a defesa e preserveção da cultura indígena brasileira se deve sobretudo a uma questão de racismo?
MPF: Existe uma forte campanha de desmoralização da população indígena orquestrada por aqueles que identificam os direitos indígenas como obstáculo para seus interesses econômicos. O curioso é que isto cria um preconceito inverso, os povos indígenas são desrespeitados não por serem diferentes, mas por semelhança, por não corresponderem ao arquétipo dos livros de história. É uma ideia do tipo, se estiver vestido e ou com um celular na mão, não é mais índio.

http://umagotanooceano.org/

terça, 21 junho 2016 18:15

A doce tentação

É uma das novas revelações da música de Cabo Verde. Elida Almeida canta por necessidade para expressar, através da música os seus sentimentos, os momentos bons e menos bons da sua vida.

Intitulaste o teu primeiro álbum de “ora doci ora margos”, porquê? Começemos por esta historia.
Elida Almeida: É um título que tem muito a ver comigo. Com o que esta a ser a minha vida, é também algo que vai ao encontro de muitas pessoa. Hoje em dia por mais mil maravilhas que seja a tua vida, há sempre um tom amargo, um momento em que as coisas não dão certo. Tendo em consideração todas as músicas que tinha no disco, o título que não poderia ter sido melhor.

Estas canções falam da tua vida. Vamos falar da composição, o que inspirou muitos dos temas?
EA: Eu não escrevi este álbum assim, eu escrevo assim desde sempre e muito. Por norma falo sobre a minha vida e por tudo o que passei até agora inspira-me. Eu tiro tudo para fora através da música e das letras, penso que com isso consigo comover as pessoas, porque embora sejam os vários estágios da minha vida, as pessoas também vivem esses momentos no seu dia-a-dia e penso que, por isso, o público se identifica muito com os meus temas, porque abordo o quotidiano.

Então quando começaste a escrever em termos de letras?
EA: A minha primeira composição foi “Nta Konsigui” que escrevi quando tinha 17 anos, na altura já conseguia fazer uns acordes com a minha guitarra, é uma melodia muito simples e poucos acordes, mas que teve muito impacto em Cabo Verde e roda a gente canta. Em Portugal graças a telenovela da TVI tornou-se muito conhecida, só no “youtube” temos mais de 2 milhões de visualizações.

Escreves muito, desde muito jovem, então o que uniu todos os temas de este álbum?
EA: Fomos ouvindo e seleccionando, quando decidimos intitular o disco de “ora doci, ora margos”, escolhemos temas que se enquadravam com o título. Então, escolhemos 13 canções, mas havia mais de uma dezenas de temas que tinha escrito e eu queria interpretar, mas acima de tudo foram escolhas minhas.

Acho curioso que refiras que muita gente se identifica com as tuas canções, contudo, és tão jovem e as letras parecem de alguém bem mais maduro.
EA: Pois é, mas a vida encarregou-se que a maturidade fizesse parte da minha existência desde muito cedo, devido as circunstâncias o meu pai faleceu quando eu era muito jovem, a minha mãe teve ir buscar a vida numa outra ilha e eu fiquei responsável pelos meus irmãos, tive uma gravidez precoce, tudo isso fez com que ganhasse maturidade de uma forma precoce dígamos assim. Eu fico muito feliz de saber que entro na vida das pessoas adultas, mas também nas crianças, porque em Cabo Verde elas vem ter comigo e dizem-me que me adoram e isso é gratificante.

Tens ganho prémios, um deles como reveleção no teu país. Isso pesa-te de alguma forma?
EA: Claro, o prémio sempre pesa em termos de responsabilidade, tu pensas e agora? Ups! Eu já tinha ganho um prémio nos Cabo Verde Music Awards (CVMA), foi a artista mais premiada da noite, por melhor álbum do ano, de composição inédita e artista mais popular da internet e esses prémios não chegam todos os dias, mas tornam-se em desafios, tenho mais um título para defender e faço por merecer.

Tu não vens de uma família musical, o que é também curioso, porque a grande parte dos músicos cabo-verdianos tem sempre um passado musical. Então como é a música entrou na tua casa, ao ponto de teres decidido aprender a tocar acordes e escrever letras?
AE: Muito cedo. Em Cabo Verde existe muito a tradição de ouvir muita rádio. Eu nasci e cresci numa zona onde hoje ainda não tem electricidade e eu ouvia muita música africana ou americana e eu acompanhava os temas e a segunda vez já tinha decorado as letras. Depois nós tínhamos de inventar coisas para fazer, éramos grupos de crianças, sentavamó-nos em cadeiras, pegavámos em garrafas de plástico e começavámos a fazer batuque, improvisavámos canções e falavámos sobre o dia-a-dia das pessoas e depois eu fiz parte do coro da igreja católica, por um período trabalhei numa rádio e ganhei dois concursos, em Cabo Verde temos um chamado “todo o mundo canta” e como venci, as pessoas começaram a falar de mim e comecei a cantar.

Estas a preparar um novo disco?
EA: Não, estou só a escrever. Foi surpreendente o sucesso deste meu primeiro disco, não estavámos à espera de tanto trabalho, eu ainda tenho até Setembro um mês muito cheio com a tournée e no mesmo de Julho vai sair um single conjunto com um clip e depois em Novembro vou entrar numa fase de respouso para compor, para começar num novo trabalho discográfico, mas não sei a data.

Mas, continuas a escrever?
EA: Eu escrevo todos os dias.

E os temas principais continuam a ser a tua vida?Ou a tua escrita esta a mudar?
EA: Eu ainda ontem estava a pensar nisso, ultimamente tenho escrito muito sobre o amor, que antes que não era o meu forte. Escrevia sobre pessoas e o quotidiano, mas ultimamente ando a escrever sobre o amor, é uma nova fase, mas isto passa. (risos)

terça, 21 junho 2016 18:12

As avós e os seus netos

O poeta, escritor e contista angolano Ondjaki aborda uma das suas obras de prosa a “Avódezanove e o segredo do do soviético”.

A sua literatura abarca vários estilos desde a poesia, a prosa e a literatura infantil. Como é que surge um projecto?
Ondjaki: Eu não tenho um plano, não posso dizer o que vai acontecer daqui a dois ou três anos, espero continuar a escrever contos, escrever para crianças, mas é um desejo não é uma certeza.

Então como tudo acontece?
O: Espero um bocadinho, se a ideia aparece e é má desaparece, se é consistente permanece, às vezes é preciso convencer as ideias a serem alguma coisa. É mesmo esperar, representa muito trabalho, mas também há golpes de sorte para que se chegue a uma boa ideia, visitações como dizia a minha avó é preciso ser-se bem visitado, depois aproveitámos. A literutura não faz milagres, a Igreja promete, mas agora não sei se já o faz, a escrita é sobre comportamentos humanos, ela vai tocando mais ou menos as pessoas, era bom que toca-se os políticos seria bom, se fosse boa literatura, a má não vale a pena.

Quando comecei a ler este livro surgiu-me a ideia que esta história podia ser real.
Ondjacki: A história é real, toda. Há uma parte que é ficção, as crianças não explodiram o mausóleo, ele esta lá, é um monumento e é uma coisa enorme. Eu nunca entrei lá, porque quando inaugurou eu não estava em Angola. Os personagens são reais, a praia do Bispo existiu, nós tínhamos essa relação com as obras dessas locais e a avó é a minha de verdade, é a mãe da minha mãe e a avó Catarina é a irmã que também existiu, não sei onde ela esta.

Adaptaste as personalidades delas a tua história?
O: Não, são elas. Eu não sou a criança que narra a história, podia ter sido, dígamos que sou um dos netos da avó Dezanove, mas eu não me considero o narrador seja eu, agora, todos os outros existem, a Charlita, os vizinhos, tudo isso é real.

Então, o que te atraiu nessa história?
O: É pensar que podia ser literária e não apenas uma história de vida. Aqui esta contado e montado para ser um livro e não apenas do que eu me lembro que a minha avó dizia, não teria sentido. Às vezes é preciso isso juntar de maneira a criar um fio condutor e virou um livrinho, que gostou em formato de livro, porque se eu contasse aquelas histórias separadamente era uma conversa de café.

Seria possível se traduzirem em contos?
O: Podia ser, eu podia pegar naquele universo da praia do Bispo e pegar em cada uma daquelas histórias. Aquilo era para ser um conto, mas não consegui parar e virou um livro, depois entrou a avó Agneta, a avó Catarina e comecei a pensar no cubano, no soviético e foi crescendo.

Este livro também é reflexo de uma cultura africana que dá muita importância a figura mulher.
O: Sim, mas eu não sei se é africana, porque África é muito grande, por exemplo, como é em Marrocos, ou Madagascasr, mas em Angola, Moçambique e mesmo na África do Sul a figura da mulher não só socialmente como familiarmente é uma figura extremamente importante, já para não dizer o avó, é de uma dimensão surreal, acho que sem ter sido intencionalmente isso se reflecte um bocadinho no livro. Veja os países que tiveram em guerra e não é só em África, mesmo na primeira guerra e na segunda as mulheres cumpriram um papel muito importante, ficam na retaguarda a cuidar de tudo, não no sentido doméstico, é muito superior a isso, é cuidar da continuidade, às vezes, o marido, o tio, o irmão já não voltava e é óbvio que do ponto de vista da humanidade se não fosse a mulher havia estes palermas que são os homens e estava tudo lixado.

Outro aspecto de que gostei do livro é que o narrador é uma criança, a história é narrada do seu ponto de vista e depois há este aspecto da uma certa ingenuidade e do sonho, tem todo esse lado da infância. Tivestes que retroceder a tua infância para abordar este jovem narrador?
O: Sim e não. Ali há um exercício que é muito difícil para mim e outras pessoas que é fazer este narrar, não é só voz, é necessário narrar uma perspectiva, como se falava ou se viu, é narrar toda uma construção do pensamento infantil, não digo que é conseguido, mas é uma tentativa de homenagear essa visão em que de facto até uma certa idade o mundo é diferente para nós. Quando vamos crescendo, vamos estragando a parte da fantasia, não a estragámos por completo, há poetas que conseguem ficar com muita infância dentro de si. Foi essa minha tentativa, existe também aquela questão de posse do bairro, elas reagem a uma ameaça que não é pessoal, é colectiva, aquela obra vai fazer desaparecer o nosso bairro, em última instância para uma criança a rua é a sua casa. O seu bairro é o seu mundo, não o país e eles não querem que desapareça.

Também tem esse aspecto de abordares uma certa franja social do teu país.
O: Sim, não teria como evitar. É uma época muito específica da presença dos cubanos, dos russos, a convivência com outros povos, a guerra, tudo isso aconteceu ali, na cidade não havia consequências da guerra, não havia combantes em Luanda, isso gera nas crianças, também nos adultos, mas em especial nas crianças um carnaval de ideias e sentidos obviamente. É completamente diferente para uma pessoa que não conviveu com professores cubanos, que não se habitou a ver russos no seu país a fazerem obras, é outra realidade.

O teu personagem preferido é avó dezanove?
O: Não, a avó dezanove é a minha personagem preferida na minda vida, ela vai fazer cento e um anos agora em 12 de Agosto, esta viva. Neste livro não tenho um preferido, mas a personagem que mais me surpreendeu é avó Catarina, quando comecei a escrever o livro não me lembrava dela, nem tinha o objectivo de a incluir, ela foi vindo e foi-se impondo na história com um ritmo específico e as pessoas pergunta-me se aquilo era verdade, basta perguntar aos meus primos, temos muitas discussões, uns diziam que ela já tinha morrido, outros diziam que lancharam com a avó Catarina.
A avó dezanove leu o teu livro?
O: De uma ponta a outra já não tinha paciência. Eu quando escrevi esse livro ela já tinha 94 anos, ela esta bem, até foi ao lançamento do livro em Luanda e foi muito bonito.

terça, 21 junho 2016 18:08

A porta do riso

  

A Porta 27 é um grupo de teatro dedicado exclusivamente à comédia. Os criadores deste projecto artístico, Cristovão Carvalho, Susana Rodrigues e Tiago Lourenço tentam chegar ao público, através da provocação dos costumes actuais em tom cómico, irónico e divertido, mas sempre com uma componente que promove o intercâmbio interdisciplinar.

Vocês afirmam na vossa página que criaram a "Porta 27" para promover um intercâmbio multidisciplinar de forma a dar corpo a um projecto em comum. O que querem dizer com isso?
Cristovão Carvalho: Nós colaborámos, não é uma companhia com uma forte estrutura, temos um núcleo que depois vamos chamando, vamos estando em contacto com outros profissionais de forma a que consigámos chegar a outros projectos em outras plataformas que não o teatro.

Suzana Rodrigues, tu que escreves as peças todas, porquê escolhem apenas uma plataforma humorística?
Suzana Rodrigues: Por várias razões, ao contrário do que muitas vezes se pensa eu acho que escrever humor e escrever comédia acaba por se tornar mais difícil, mesmo para os actores, do que fazer drama, ou qualquer outro tipo de suporte e de teatro. Não tem a ver apenas com o desafio, mas com a “atenção” das pessoas, é muito mais fácil captar à atenção das pessoas pelo humor do que em qualquer outro tipo de comunicação e não fomos nós que inventámos isto, “ridendo castigat mores” quer dizer rindo castiga os costumes, já há muito tempo que se fala das coisas de uma forma menos séria, sem perder a seriedade e sem deixarmos de falarmos das coisas de que queremos falar.

É nos temas da actualidade que vais buscar a inspiração?
SR: Sim, nós temos este trabalho “o pistolas, pilantras e problemas” que aborda a situação actual da falta de emprego e de termos de nós “safar” com o que temos. Temos um outro espectáculo que é o “senha 44” e que fala da dificuldade de trabalhar a recibos verdes, de uma forma ou outra acabámos por abordar os obstáculos que também sentimos, ou seja, pegámos naquilo que nos esta próximo e abrimos o leque para abrangir mais pessoas.

É um reflexo da geração Y, onde vocês se inserem? As peças tem a ver com os desafios que enfrentam os jovens actualmente em Portugal?
SR: Eu acho que sim, sim. Nós criámos a “Porta 27” por várias razões, uma delas é permitir que pessoas da área possam colaborar umas com as outras e possam criar algo em comum. Outro aspecto é abordarmos coisas que nos são próximas junto de um público que não é habitual consumidor de teatro. Claro, que as pessoas que vão habitualmente ao teatro acabam por ver os nossos espectáculos, mas tentámos comunicar com os que não estão habituados as prácticas teatrais e atrair novos públicos.

O grupo começou nas manobras em 2011 no Porto, já tem seis anos de existência, olhando para atrás que balanço fazem da vossa actividade?
Tiago Lourenço: Acho que é positivo porque ainda cá estámos. Quando criámos a companhia não sabíamos o que nos esperava, não foi fácil, mas sempre houve pessoas e momentos em que vimos que valia a pena, houve público que nos disse para continuar, casas cheias e temos continuado. É isso que tem prevalecido estes seis anos, criámos um objecto que pouco a pouco vai dizendo mais a mais pessoas, aí, sim, para mim valeu a pena.
SR: Apesar das dificuldades e da falta de suporte financeiro, tivemos sempre apoio por parte de estruturas e entidades que sempre nos abriram a porta. Ao fim de seis anos podemos falar com as pessoas que já sabem quem é a “Porta 27”, termos reconhecimento é muito bom.

O que tem vindo a melhorar? Concerteza que ao longo de seis anos se derem de conta que havia certas prácticas que não funcionavam e deixaram de parte, ou tiveram de adaptar, ou não?
CC: A visão e forma como vemos o que nos rodeia esta em constante mutação, o que víamos em 2011 e agora em 2016 há coisas que mudaram radicalmente. As opiniões que tinhámos na altura faziam sentido e actualmente deixaram de o fazer e é assim que tem de ser assim, é sinal que estámos a crescer, a ver para onde queremos ir e achámos que queremos estar e ainda qual é o caminho certo para nós, que é um pouco como toda a gente.
TL: Actualmente pensámos de uma forma mais cautelosa, já nos conhecemos e as nossas valências, o que a “Porta 27” necessita e quer, porque ao início quando estámos a começar é difícil estabelecer uma marca, porque as pessoas podem não gostar. Hoje em dia já sabemos o que é este projecto, o que quer e o que somos. Tentámos que em cada espectáculo isso prevaleça, é claro que há mutações e questões que nos fazem repensar o assunto, mas agora sim, estámos mais assentes no que somos e esperámos que as pessoas gostem.

Então qual é a marca, ou identidade da “Porta 27”?
CC: Eu acho que pode ser a desconstrução, porque ao longo destes seis anos, um dos aspectos que se manteve nos nossos espectáculos e uma das ligações que temos entre nós é a desconstrução, no sentido em que, embora, as peças estejam assentes na comédia são diferentes entre si e experimentámos diversos tipos de comédia. Isso permite-nos conseguir perceber que em todas elas nos desconstruímos o que achavámos à partida que não podia ser destruído, ou seja, houve uma destruição do que achavámos, ou queremos mostrar que pode ser de outra forma, pode não ser exactamente daquela maneira.
SR: O exemplo disto é o “pistolas, pilantras e problemas” onde há um actor que interpreta um personagem que esta a interpretar um actor, este por sua vez esta também a interpretar uma personagem, acho que não há maior desconstrução do que esta e o público ao ver o espectáculo acaba por confundir quem é o actor, quem é a personagem que é o actor e quem é a personagem que o actor esta a interpretar. É um exercício, é uma forma de estar atento e tentar perceber de que forma estas personagens se complementam.

Falam de construção, então como é génese do vossos espectáculos? Suzana, tu escreves de forma independente ou todos participam e dão o seu contributo?
SR: Até agora as ideias dos espectáculos foram todas minhas, que proponho ao grupo, falámos os três e discutimos sobre isso. Cada um dá o seu contributo, surgem outras ideias e há uma primeira proposta de texto que lemos em conjunto e alterámos, ou adaptámos aquilo sentimos necessidade de alterar, ou seja, no fundo apesar da ideia original ser minha e o primeiro e último texto serem meus, o trabalho é colectivo. Existem sempre ideias na “Porta 27” e quando eu digo de todos, não falo apenas dos actores, mas dos técnicos e de todas as pessoas que colaboram conosco e que tem uma palavra a dizer, ou algo a acrescentar.

Isso também acaba por acontecer no palco, quando assumem as personagens, há espaço para a improvisão, ou seguem o texto na íntegra?
CC: Como trabalhámos diferentes tipos de comédia, este espectáculo do “pistolas, pilantras e problemas” tem espaço para esse improviso. O “senha 44” não tem tanto espaço, a apresentação deste espectáculo não é tão aberta, ao contrário da outra peça onde há espaço para haver uma interacção do público. Tudo vai depender dos projecto e de como nos inicialmente idelizámos o espectáculo e o que é que na fase final vai ficar.
TL: Mas na concepção existe uma grande liberdade, até fazemos jogos.
SR: Os ensaios são períodos de experiências, testámos muita coisa, há sempre aspectos que não funcionam e em muitas das partes desse improviso criam-se momentos que não apareciam incialmente e acabam por ficar fixos na peça, porque surgiram nos ensaios e correram tão bem.
TL: Também assumimos que todos os espectáculos que apresentámos não estão fechados, não deixam de estar em processo, que podem ser melhoradas mesmo para nós, ou após um público o ter visto, ouvimos opiniões, ou seja, todas as peças estão em constante mutação e evolução.

Fazem comédia difícil, então o que acontece quando estão em palco e o público não se ri ou não reage? É aí que entra o improviso?
CC: Isso já nos aconteceu, num espectáculo em que toda a linguagem é assente na línguagem do palhaço, se o público falha a gargalhada, não há muito a fazer, porque todos os jogos estão orientados e criados para isso, podem ocorrer actos falhados, mas por norma, tentámos nos proteger ao máximo nos ensaios, para que acabe por resultar de uma forma ou de outra. Aliás, por causa disso necessitámos dos ensaios e nos apoiámos uns aos outros, porque as visões diferentes do que estámos a criar vão-se complementando ao longo do processo e que acaba sempre por resultar. Claro, que não é uma fórmula 100% infalível, mas tentámos reduzir ao máximo essa margem de erro.

Existem públicos diferentes em Portugal? No Norte, no Porto o público é muito interactivo, mesmo quando as peças de teatro não o são, mas não é caso de todo o país.
SR: Existem imensos e mesmo no Porto há diferenças. De uma forma ou outra estámos ligados as artes e temos colegas e encenadores que vão ver os nossos espectáculos. Fazer uma peça para actores é completamente diferente do que fazê-lo para não actores, porque eles são muito mais críticos, eles vêem e observam o teatro de uma outra forma que o público em geral não vê. Eles estão atentos a luz, por exemplo, enquanto que as pessos notam que o foco é importante numa cena, mas não esta preocupada com isso. O actor, por outro lado, esta preocupado com o ângulo, o tipo de projectores e o seu número e acaba por perder a acção e analisa o texto de uma forma muito mais escrupulosa do que o público em geral, que vê o espectáculo como um todo. Na peça sobre os recibos verdes, os advogados, ou outras profissões liberais são mais sensíveis ao texto, há partes em que o público que não depende dos recibos verdes ri a gargalhada e os que trabalham com recibos verdes como sentem isso na pele não se ri. Neste espectáculo dos “pistolas, pilantras e problemas” houve uma senhora que esteve a rir as gargalhadas desde o princípio ao fim nas falas sobre o banco e percebemos que aquela espectadora trabalhava nesse tipo de instituição. As pessoas que se sentem retratadas nas personagens agem de forma diferente, a experiência é diferente e por isso revêm-se de formas diferentes no espectáculo. Quando o Tiago Lourenço entra com a peruca loira e olha para o público nós sabemos logo por esse momento qual vai ser o comportamento do público no espectáculo, se não se rirem vai ser uma peça difícil.
CC: Já nos aconteceu uma vez.
TL:É complicado, um espectáculo para vinte pessoas é diferente do que para cem, há o medo de rirem entre si, existe aquela vergonha, mas depois quando duas ou três pessoas se começam a rir, todos riem.
SR: Isso acontece porque o riso é contagioso e sabemos disto.
TL: Nós não trabalhámos com o tempo do riso, embora já nos habituámos a ter esse suporte do público a divertir-se. Por vezes é mais difícil, mas depois as pessoas chegam no fim e dizem que gostaram muito.
SR: A pouco quando o Cristovão falava da ausência de riso, existe outra questão que também é difícil, foi o caso de um espectáculo que fizemos em Mondim de Basto em que o público se ria de tudo e se para nós é um gozo enorme ver esta reação, quando temos os tempos pré-preparados para dar 2 a 3 segundos para as pessoas se rirem e segue a cena, se eles não pararem para as pessoas se rirem, depois o público não os ouvem e os tempos ficam todos descoordenados e temos de adaptar-nos, nesse caso tivemos mais calma para depois continuar com a peça. É muito complicado ter um público participativo, ou outro que não o é de todo, mas preferimos o que ri mais.
TL: Também faz parte, estámos sempre a lidar com essa questão, não sabemos o que vamos encontrar. Com a experiência vamos aprendendo a nos proteger, vamos avançando nos trabalhos e verificámos como isso pode funcionar quase sempre, tornar a fórmula mais perfeita possível para todos os públicos.

Qual das peças que fizeram a que teve a reacção mais inesperada do público?
CC: De certa forma todos acabam por ser marcantes. Há espectáculos que conseguimos perceber que as pessoas vão agarrar, existem outros que inesperadamente as pessoas gostam de determinadas cenas que não esperavámos, vai sempre depender como a Suzana dizia do público, ou de como sente o que estámos a apresentar em palco.
SR: Eu tento ir ao máximo de espectáculos possível e houve um no Porto em que entraram pessoas mais velhas do que é habitual nas nossas peças e eu fiquei preocupada porque não se riram e sairam com má cara e eu fiquei com a sensação que eram funcionários públicos e que deviam ser reformados da segurança social porque estavam super ofendidos, no final perguntei se gostaram e disseram que sim com um sorriso amarelo. Acontece.
TL: E já tivemos pessoas a insultar-nos a meio de uma peça que aborda a troika, porque se sentiram ofendidos.
CC: Mas esse era o objectivo, sabiámos que íamos causar algum furor, algum mal- estar, precisamente porque queríamos ter uma reação negativa, queriamos que as pessoas se revoltassem com tudo aquilo.
SR: Havia uma pequena manifestação e notou-se que havia pessoas que se queriam levantar e manifestar-se com eles, as pessoas estavam mesmo a sentir tudo aquilo, a troika, a crise e tudo esta mal. O público estava indignado e isso para nós é bom, porque sabíamos que estavámos a fazer o nosso trabalho bem feito, quando as pessoas sentem o que estámos a sentir.

Vão continuar nesta linha humorística ou pretendem fazer outro tipo de peças?
CC: Nós continuámos a adorar a comédia, acho que deveríamos apostar num outro tipo, não esta de fora dos nossos planos fazer comédia de enganos, ou seja, o que é entrar neste processo e experimentar fazer uma revista.

www.porta27.pt

terça, 21 junho 2016 18:05

Curtas ao ar livre

“Santacurtas” é um festival de cinema alternativo e de autor que visa contribuir para a criação de novos públicos e simultâneamente reavivar um evento similiar que houve no passado na Casa da Cultura de Santa Cruz, na Quinta do Revoredo. Este ano não há competição, mas poderá apreciar várias curtas-metragens nacionais e internacionais premiadas no dia 25 de Junho e as restantes são no mês de Julho, sempre ao sábado, dias 2, 9 e 16.

Porquê organizar um festival de curtas-metragens? Em que se distingue dos restantes?
Taciana Gouveia: A ideia era dar uma nova vivência ao anfiteatro e reactivar uma práctica que foi iniciada nos anos 80 e 90, que era o cinema ao ar livre. O Santacurtas é um nome bastante sugestivo e tem a ver com este espaço, que irá potenciar e criar novamente uma série de actividades culturais desta feita com uma abordagem contemporânea ao cinema. Fomos buscar jovens realizadores e outros mais consagrados, convidámos uma série de pessoas da área, depois apareceram outras que ficaram bastante interessadas e posso dizer que temos um leque de cineastas bastante interessante.

Qual foi o intuito de toda a programação?
TG: Inicialmente tinha pensado abordar a questão sociológica da ilha, depois vi logo que não ia resultar, porque ia estar a afunilar a tematização, então decidi-me por uma programação mais livre. Falei com vários realizadores, os que se identificaram com o projecto vão participar, a grande novidade é que vamos ter a Leonor Teles vencedora do urso de ouro de Berlim. O Igor Bjorrt é outra das presenças, é um artista que realiza exposições em Nova Iorque e não só, é um fotográfo assumidamente, mas cria pequenas curtas-metragens interessantes. Portantos, temos alguns artistas internacionais, outros nomes nacionais e ainda cineasta regionais.

Contactates os realizadores nacionais e regionais porque querias que tivesse esse tipo de alinhamento?
TG: Não, queria que as pessoas tivessem a oportunidade de saber que este evento ia acontecer e não queria estar a castrar a oportunidade aos nossos cineastas para poderem participar. “Santacurtas” vai acontecer em quatro edições, a primeira começa no dia 25 de Junho, integrado nas festas do concelho. No dia 9 contámos com a presença do Filipe Ferraz e da sua curta-metragem, “Ruínas”. O Carlos Melim estará presente via skype e vamos apresentar o seu filme mais recente. Vamos exibir também uma curta-metragem da Joana Rodrigues, que já foi mostrada anteriormente neste espaço, que tem a ver com as gentes locaise e é uma experiência que julgo vai ser muito boa para o público.

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